Como argumentar na Redação do ENEM


Eu já falei aqui no blog sobre como é importante que você foque na Redação para garantir uma boa média no Enem. Com a minha ajuda, seguramente você terá condições de encarar esse desafio e elevar a sua nota, conquistando a tão sonhada vaga através do SISU.

Sempre digo para meus alunos do curso de redação que é importante que você tenha em mente que a Redação do Enem tem caráter dissertativo-argumentativo e, como o próprio nome já diz, exigirá que você argumente em defesa de um ponto de vista.

Considerada o “coração” do texto, a argumentação precisa de uma base sólida que vai muito além da exposição de fatos ou da simples apresentação de uma opinião do autor.

E isso deve ser feito de maneira a convencer o leitor/avaliador a respeito de seu posicionamento – por isso, um bom argumento dependerá, inicialmente, de um bom repertório do candidato.

Você precisa aumentar seu conhecimento de mundo para argumentar melhor!

Há, ainda, fatores importantes a serem observados para se fazer uma boa argumentação e, por consequência, uma boa redação.

Um deles é resistir à tentação de buscar o convencimento por meio do uso excessivo de adjetivos, o que pode ter um efeito negativo, pois não reforça o argumento com informações relevantes que possam dar consistência ao ponto de vista defendido.

O outro é não copiar ou parafrasear os textos de apoio, que estão lá para dar suporte à sua produção.

Para começar, vamos ver um pouquinho sobre a relação Argumento – Tese. O argumento será a defesa da tese, que é o seu posicionamento em relação ao tema proposto.

No que se refere à estruturação dos parágrafos argumentativos, a construção do texto pode ser entendida e trabalhada de duas formas.

Para facilitar o entendimento, vejamos como ambas funcionam na prática:

Estrutura 1: ARGUMENTO > portanto > TESE

Preste atenção neste exemplo:

Todos os anos, os governos – nas diferentes esferas de gestão – gastam um grande volume de recursos com campanhas que demonstram como a violência no trânsito segue fazendo um preocupante número de vítimas. Embora tais iniciativas sejam necessárias, elas, por si só, não têm condições de reduzir, de forma drástica, as estatísticas de mortes nas estradas. POR ISSO, mostra-se extremamente urgente a elaboração de políticas públicas mais eficazes no que diz respeito a melhorias estruturais das rodovias, com a qualificação das áreas de rodagem de veículos, da sinalização e dos espaços destinados à circulação de pedestres, bem como a ampliação da fiscalização, presencial e eletrônica, e a intensificação das ações educativas junto às mais diferentes faixas etárias.

Estrutura 2: TESE > porque > ARGUMENTO

E agora neste, que usa o segundo tipo de estrutura argumentativa:

Os governos, em todos os seus entes federativos, devem tratar com extrema urgência a necessidade de criação de novas políticas públicas para frear de forma mais contundente as estatísticas de mortes nas estradas brasileiras. A prioridade deve estar voltada a temas como as melhorias estruturantes nas rodovias, tanto nas áreas de rodagem de veículos como nos trechos de circulação de pedestres – inclusive no que diz respeito à qualificação da sinalização –, além da ampliação da fiscalização e o aumento das ações educativas JÁ QUE estas, inclusive na forma de frequentes e necessárias campanhas, não têm condições, por si só, de reduzir os preocupantes índices anuais de violência no trânsito.

Exemplos de argumentos

A força de seu argumento dependerá dos recursos que você empregar para defendê-lo.

Obviamente, seu texto não precisará se restringir ao uso de somente um dos exemplos de argumentos que vou mostrar a seguir, mas a sua escolha deverá estar pautada justamente na sua capacidade de desenvolver o texto a partir dos “modelos” adotados.

Para te auxiliar, criei exemplos de argumentos para todos os tipos abordados na sequência. Vamos lá!

Argumento por comprovação

Aqui, o autor vai sustentar a defesa de seu ponto de vista com a apresentação de dados, estatísticas, pesquisas, percentuais.

Lembre-se: as fontes a serem usadas como referência devem ser citadas no texto e, principalmente, precisam ser confiáveis.

Mas claro, ninguém espera que você decore o ano ou a página da publicação para citar durante a prova do ENEM (até porque nenhum avaliador vai ter tempo de comprovar). Então apenas utilize o bom senso de não sair inventando pesquisas ou dados estatísticos por aí :-P

Exemplo:

De acordo com recente estudo elaborado pela Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, 16,8% das crianças em idade escolar do Estado estão fora da sala de aula. Em termos nacionais, a média de evasão na faixa etária de 4 a 17 anos fica em 5,7%. Mais do que a necessidade de ampliação dos investimentos em educação, é extremamente urgente que o governo avalie de forma profunda as demais questões sociais que contribuem para esta realidade negativa e construa novas políticas públicas – sobretudo junto às famílias em condição de vulnerabilidade – que permitam reverter este quadro.

Argumento de autoridade

Basicamente, você cita o que algum cara f*da falou.

Consiste no recurso de utilizar como base da argumentação a ideia defendida por uma pessoa “consagrada”, notória em sua área conhecimento.

A citação direta (sempre entre aspas!) pode ser interessante, mas o melhor, na redação do ENEM, é que você explique ideia com suas palavras (isso se chama paráfrase)

PRESTE ATENÇÃO nestes dois pontos:

  1. Tenha certeza de que você realmente entendeu o ponto de vista de quem está sendo citado — nada de ficar decorando frases de pensadores só pra usar depois!
  2. Não abuse dessa ferramenta, fazendo com que ela se sobreponha às suas ideias e descaracterize a sua abordagem. O objetivo é dar força e credibilidade ao seu argumento, e não escondê-lo sob o ponto de vista de terceiros.

Exemplo:

Ainda que represente uma evolução não alcançada até mesmo por países de primeiro mundo, o acesso universal à saúde pública implantado no Brasil com a criação do SUS, em 1990, ainda não pode ser tratado como uma proposta que está à beira de alcançar sua plenitude. Longe disso, o que se vê mais comumente é a descontinuidade dos investimentos por parte dos entes estaduais e federal, sobrecarregando os ombros das prefeituras, a quem cabe, por fim, a gestão dos serviços entregues à população. Ao falar, em uma palestra proferida há alguns anos, que “a saúde como direito de todos e dever do Estado é uma demagogia”, o médico Dráuzio Varella, ao mesmo tempo, tocou na ferida e expôs o óbvio: prestes a completar 30 anos, o SUS precisa encarar um choque de gestão antes que, pela sua própria incapacidade, seja “vendido” como o vilão da saúde no país e se torne vítima da saída fácil – e cruel – que seria a sua extinção.

Argumento por exemplificação/ilustração

Toma como base uma situação que pode ser real (fatos divulgados na mídia, por exemplo) ou fictícia, para fundamentar a sua argumentação.

Exemplo 1 (situação real):

Em recente reportagem do site Gaúcha ZH, publicada no mês de agosto, foi noticiado que, exatamente no dia em que a Lei Maria da Penha completa 13 anos no Brasil, o Senado aprovou mais dois projetos que têm por objetivo coibir a violência doméstica: um prevê o recolhimento imediato de arma de fogo que o agressor eventualmente possua; o outro define a competência dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher para ação de divórcio, separação, anulação de casamento ou dissolução de união estável. Ou seja, ao mesmo tempo em que podemos verificar que há avanços no que se refere ao combate da violência contra a mulher, também é possível constatar que é preciso atacar esses abusos em outras frentes, de forma ainda mais abrangente, porque eles seguem ocorrendo no país em números alarmantes.

Exemplo 2 (situação fictícia):

Uma mulher deixa a agência bancária, após realizar um saque. Sai a pé, pois o carro ficou estacionado algumas quadras adiante. Ainda que seja no meio da tarde, em uma rua bastante movimentada, logo ela é abordada por dois indivíduos armados que roubam sua bolsa, levando dinheiro, celular, documentos e outros pertences. Essa é uma realidade que, infelizmente, já pertence, inclusive, a cidades de médio porte, nas quais os moradores convivem diariamente com a insegurança. Uma nova realidade que nos impõe a urgência de mudar hábitos diante da inércia do Estado em promover mais tranquilidade às famílias, mas que também levanta questionamentos tão profundos quanto pessimistas, como: a segurança pública no Brasil já é uma batalha perdida?

Argumento por comparação

Nele, o autor usa uma situação já existente como parâmetro para comparação e defesa de seu ponto de vista.

Em resumo, significaria dizer que se tal coisa já foi feita de alguma maneira, é possível que seja feita novamente em outra situação — aquela que você está defendendo. Aqui, cabe o cuidado de se entender diferentes contextos e realidades antes de fazer comparações absurdas e errar o pulo.

Exemplo:

Tomemos como modelo a cidade de Medellín, na Colômbia, e sua transformação depois dos sangrentos anos em que estava nas mãos do narcotraficante Pablo Escobar, até o começo da década de 1990. De Metrópole mais violenta do mundo, passou a ser vista, nesta década, como um exemplo de combate à criminalidade com investimentos que foram além da aplicação de recursos diretamente na área da segurança. Sim, o governo investiu na qualificação das polícias, sobretudo no campo da inteligência, mas foi a presença do Estado nas comunidades mais pobres, a inovação em termos de transporte público, os programas de geração de renda e de proteção ao meio ambiente, entre inúmeras outras iniciativas, que a alavancaram ao posto de destaque que ocupa hoje. Como resultado, a desigualdade social reduziu, o PIB passou a crescer de forma significativa, o turismo e a instalação de empresas foram impulsionados.

Argumento por alusão histórica

Faz referência a um fato passado, que, por óbvio, deve estar conectado ao tema proposto na Redação.

Esse é um dos meus recursos preferidos, pois também serve para demonstrar seu conhecimento de mundo ao avaliador. No meu curso de redação, tenho uma aula inteira só sobre alusões históricas.

Você pode ter uma pequena amostra no meu vídeo abaixo:

Exemplo de argumento:

As mulheres brasileiras conquistaram o seu direito ao voto, em âmbito nacional, em maio de 1933, na eleição para a Assembleia Constituinte. Antes disso, ainda em 1928, em várias cidades do Rio Grande do Norte, muitas delas alistaram-se como eleitoras locais. No ano seguinte, no mesmo estado, uma mulher, Alzira Soriano, assumiu a prefeitura de Lajes. De lá para cá, embora já tenham assumido a maior parcela do eleitorado brasileiro, elas ainda encaram desafios em meio político dominado predominantemente pelos homens e, pior, machista. Um exemplo disso é que, somente em 2012, segundo o próprio TSE, pela primeira vez na história do país as candidaturas femininas alcançaram 30% do total de um pleito.

Argumento por causa e consequência/raciocínio lógico

Apresenta os motivos pelos quais o tema está sendo discutido na tese levantada no texto, ou seja, o que determinada ação (ou a falta dela) provocou e de que forma isso repercutiu e gerou o problema apresentado.

Exemplo:

A falta de planejamento estrutural ao longo das últimas décadas, aliada aos incentivos e facilidades para a aquisição de veículos particulares – em detrimento à valorização do transporte coletivo – deu origem a um problema que atinge um número considerável das cidades de médio e grande porte do Brasil, que é o trânsito saturado. A tudo isso, some-se a ideia de status conferida pela propriedade de um veículo automotor, e pronto: o caos foi instalado em muitos municípios, que já não comportam, de forma adequada, o volume de automóveis que por suas ruas circulam diariamente, evidenciando a necessidade de intervenções materiais, como a realização de obras de maior porte, e socioculturais, com a mobilização para uma mudança de postura da própria comunidade e dos governantes.

Argumento por consenso

Aborda enunciados que são aceitos como verdade em determinado espaço sociocultural, não exigindo uma comprovação, tendo em vista que seu conteúdo é fruto de um amplo consenso na sociedade.

Exemplo:

A ampliação dos investimentos em educação é uma medida crucial para que o sistema de ensino brasileiro não passe a amargar, de forma ainda mais dura, a perda de qualidade e de alcance aos nossos estudantes, das mais diversas faixas etárias, inclusive nos níveis superiores. Entregar de forma abrupta a ideia de que o Ensino Superior foi demasiadamente valorizado nos últimos anos, em detrimento a outras etapas, para justificar cortes e contingenciamentos que podem paralisar atividades, é uma atitude extremamente temerária. O Brasil tem condições de investir de forma satisfatória da creche à faculdade, passando pelo Fundamental e Médio, desde que trate suas políticas públicas voltadas à educação como programas permanentes, e não meros caprichos de gestões passageiras. Os governos vêm e vão, mas as instituições e seus legados permanecem. Assim, é preciso pensar a Educação dentro de um modelo de continuidade, e não de constantes remendos voltados a satisfazer interesses duvidosos de determinados segmentos.

Contra-argumentação

Aqui, a ideia é refutar um argumento contrário ao seu.

Se bem desenvolvida, ela dará ainda mais força ao argumento proposto na sequência da defesa de seu ponto de vista. Confuso? Nem tanto.

Exemplo:

Defensores da manutenção da criminalização do aborto no Brasil, em muitos debates, relativizam o problema, justificando que, para não se precisar chegar ao extremo de interromper uma gestação, “bastaria” a adoção de métodos contraceptivos. Entretanto, em um país no qual 55% dos casos de gravidez não são planejados, como mostrou um estudo da Fundação Getúlio Vargas que ouviu 24 mil mulheres, simplificar a discussão desta forma beira o ridículo. Publicada em 2018, uma reportagem da BBC News evidenciou que uma das principais causas das gestações indesejadas é justamente a falha do Estado em fornecer métodos contraceptivos de longa duração, como o Dispositivo Intrauterino (DIU). A situação piora ainda mais quando os próprios dados do governo, através do Data SUS, mostram uma enorme discrepância na oferta do serviço público em diferentes unidades da federação – mulheres do Norte e Nordeste, por exemplo, são as que menos têm acesso ao atendimento.

Então, ficou mais claro como cada modelo de argumento sugerido acima funciona? Aproveite para revisar meu quadro com os operadores argumentativos e quando usar cada um deles em seu texto.

Não se esqueça: a escolha na hora da prova deverá ser focada na sua capacidade de desenvolver a argumentação exigida.

De nada adiantará, por exemplo, você querer fazer referências históricas para enriquecer o seu texto e não conseguir conectá-las à realidade atual cobrada na proposta de Redação; ou confundir autoridades, citações e fontes na hora de usá-las como base para sua produção.

Para acelerar e aprofundar ainda mais sua preparação, venha estudar comigo no curso Redação #Mito, o treinamento que vai garantir no mínimo 900 pontos na sua redação do ENEM!

André Gazola

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor especialista em escrita e redação para ENEM, vestibulares e concursos públicos, além de pós-graduado em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura.

Recent Content