Recentemente, uma estudante de jornalismo, Ludimila Loureiro, contatou-me para uma entrevista sobre o tema pirataria de livros no Brasil. Como considero um assunto bastante pertinente para o blog, compartilho com você minhas respostas e aguardo para saber sua opinião sobre o tema, nos comentários.
Como você vê a questão da pirataria de livros no Brasil?
Como um país que lê pouco, precisamos analisar a pirataria como um dos elementos que acabam por contribuir para que se leia mais. Claro que essa não é a melhor forma, pois autores e editores precisam ser remunerados para que a indústria se sustente e possa haver, efetivamente, uma luta em torno do incentivo da leitura, porém percebo que muitas pessoas, após baixar a versão pirata, acabam por comprar a obra. Nesse sentido, o livro pirata seria uma espécie de amostra grátis do trabalho do autor.
Logicamente essa é a visão do educador que sou. Já vi autores completamente contra e outros completamente a favor da pirataria. Um deles, renomado acadêmico, chegou a afirmar que seu sonho é ver seus livros pirateados ou vendidos na internet pelo preço de R$1,00. Há visões românticas e realistas, eu fico do lado dos românticos que defendem a leitura como valor primordial, a qualquer custo.
Você já se deparou com um caso marcante?
Não, mas me contaram um bastante cômico. Uma professora de literatura estaria usando em suas aulas no mestrado partes do livro de um colega professor da mesma universidade, em forma de fotocópias entregues aos alunos. O autor, ao tomar conhecimento do fato, teria se dirigido à professora para tomar satisfações quanto ao ato ilegal praticado por ela, que argumentou estar promovendo o trabalho do colega e indicando a compra do material. O escritor, entretanto, vetou o uso de cópias de seus trabalhos dentro da universidade.
Como você avalia as cópias parciais ou integrais de livros (as chamadas xérox) feitas por alunos, professores, etc.?
Avalio simplesmente como uma necessidade. Falando sem rodeios, o sistema de ensino, principalmente nas universidades privadas, já é pensado como uma máquina de fazer dinheiro às custas dos alunos. Muitas universidades dispõem de bibliotecas bem grandes, mas que não atendem totalmente às necessidades do corpo discente que não para de crescer. Nesse cenário, alunos e professores veem-se obrigados a usar cópias ilegais e, para mim, se alguém tem culpa nisso, são as próprias universidades, que deveriam investir muito mais em suas bibliotecas e menos no aumento de seu espaço físico.
Na sua opinião, os preços dos livros são acessíveis?
Já ouvi uma grande autoridade em literatura dizendo, em termos simplificados, que “não é que os livros são caros, mas a população que é pobre”, comparando o cenário brasileiro com o europeu. E um argumento desses, para mim, é um total absurdo. Os livros são caros, sim.
Basta fazer um cálculo simples e analisar como R$40,00, preço médio de um livro, interferem no orçamento de uma família de classe média, de renda mensal de, digamos R$1000,00, com 4 integrantes: água e luz – R$200; telefone e internet; R$150; alimentação; R$350; contas extra (escola, automóvel, coisas para a casa, vestuário, saúde, etc.) R$200; lazer R$100. E o orçamento acaba. É claro que seria possível economizar aqui e ali para comprar um livro por mês, mas aí também entra a questão da cultura em torno da leitura, que é algo que não temos.
No seu blog, eu vi que em algum momento você concorda que o Brasil é um país prejudicado em relação a literatura. Pode falar mais sobre isso?
Não é que seja prejudicado, mas o problema é que o Brasil, com sua enorme cultura de massa, acaba por distorcer todo o processo de produção e venda de livros. Grande parte do que é lido aqui se encaixa no que chamamos de literatura de massa, ou seja, aquela literatura com pouco ou nenhum trabalho estético, que reproduz esquemas batidos quanto à estrutura do enredo, que não exige praticamente nada do leitor em termos de trabalho intelectual. E para mim, isso é quase o mesmo que não ler.
O problema é que esse tipo de livro vende e, vendendo, os autores (boa parte deles), mesmo conscientes das diferenças entre boa e má literatura, acabam sendo influenciados pela demanda do mercado. Aliás, parece-me que o apelo comercial tem estimulado muito mais as campanhas em prol da leitura que qualquer “boa intenção” aparente.