Simbolismo: origem e características

Entre os muitos movimentos artísticos que desenvolveram-se ao final do século XIX, talvez o mais importante e influente seja o Simbolismo.

Tendo como idealizadores os poderosos franceses Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Stéphane Mallarmé, essa estética literária foi a semente de uma grande revolução que ocorreria nas artes com as Vanguardas Europeias do início do século XX.

Conceito Filosófico do Simbolismo: Decadentismo de Arthur SchopenhauerGosto de iniciar minhas aulas sobre essa escola lendo e analisando o poema Correspondências, de Charles Baudelaire.

Na primeira estrofe desse soneto cria-se uma metáfora na qual a natureza é comparada a um templo cheio de vida, mas ao mesmo tempo obscuro e repleto de histórias inusitadas que envolvem o ser humano durante sua passagem (o que pode ser uma alusão à passagem pela vida).

A natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.

Cria-se, assim, um cenário de um misticismo típico do Simbolismo, que será complementado com uma ornamentação vasta e sinestésica composta pelos elementos da natureza em contato com o ser humano:

Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,

Vemos como nessas estrofes ocorre a mistura de sentidos que compõe a figura de linguagem mais marcante da escola simbolista: a sinestesia. Há ecos longos (audição) que se matizam (visão), uma unidade tão vasta quanto a claridade (visão), sons, cores e perfumes (olfato) harmonizando-se, aromas frescos como a carne (olfato e tato), doces (paladar) como o oboé (audição) e verdes (visão) como a campina.

A partir disso fica claro para meus alunos a forma como o poeta simbolista compreende a poesia e a literatura: não mais como objetiva e impassível como preconizavam os parnasianos, mas cheia de vida e possibilidades que transcendem o mundo físico. O poema, então, termina com a glorificação dos sentidos e da possibilidade que eles nos dão de apreender essa natureza magnífica.

Com a fluidez daquilo que jamais termina,
Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.

É importante atentar para as questões formais, que aplicam-se, de forma geral, a todas as produções do período em questão. Mantém-se a estrutura clássica do soneto e também a metrificação (versos alexandrinos) que os parnasianos elevaram a um patamar nunca antes alcançado. No entanto, ao contrário dos seguidores de Bilac, o elemento principal do poema não é a forma ou estrutura, mas sim seu conteúdo. Além disso, o sistema de rimas (ABBA – ABBA – CDC – DEE) é um tanto peculiar, conferindo musicalidade, outra característica simbolista, que introduzo através do próximo poema, mas não antes de proporcionar um momento de audição da obra-prima do compositor Claude Debussy.

Através da escuta de Claire de Lune, terceiro movimento da Suite bergamasque, busco criar o ambiente que me permite explicar de forma mais concreta o conceito de nefelibata, outra característica do simbolismo.

Nefelibata significa, literalmente, “que vive nas nuvens” ou “aquele cujo espírito vagueia por um mundo ideal” – tipo de sentimento que a obra de Debussy nos sugere com muita força e que os poetas simbolistas vão absorver em sua essência mais profunda.

Com o próximo poema, Arte Poética, que é praticamente um manifesto das ideias simbolistas, Paul Verlaine deixa bem claro a importância da musicalidade na produção literária. Aproveito para analisá-lo aqui como faço com meus alunos em sala de aula, apontando as características já citadas.

Veremos que a primeira frase já dá o tom do restante da composição: Verlaine vê na musicalidade algo mais importante que a própria poesia, que a própria literatura, acabando por glorificar a vagueza que caracteriza também essa poética:

Antes de tudo, a Música. Preza
Portanto o Ímpar. Só cabe usar
O que é mais vago e solúvel no ar,
Sem nada em si que pousa ou que pesa.

Logo após, inicia uma sequência de desdém pela ideia parnasiana de escolher palavras a dedo (como se com uma pinça) para priorizar aquilo que é mais etéreo e indefinível – a questão nefelibata aparece aqui como uma idealização da própria arte literária. A partir daí, uma série de alusões sensoriais nos colocam num ambiente que atiça todos nossos sentidos, concluindo que a nuance, ou seja, o detalhe gradativo proporcionado pela música, e não a cor, é que nos toca o mais fundo da alma.

Pesar as palavras será preciso,
Mas com algum desdém pela pinça:
Nada melhor do que a canção cinza
Onde o Indeciso se une ao Preciso.

Uns belos olhos atrás do véu,
o lusco-fusco no meio-dia,
a turba azul de estrelas que estria
O outono agônico pelo céu!

Pois a nuance é que leva a palma,
Nada de Cor, somente a nuance!
Nuance, só, que nos afiance
O sonho ao sonho e a flauta na alma!

Logo após, em duas estrofes o eu-lírico novamente critica a estética parnasiana ao menosprezar e sugerir ao leitor que “fuja” do tipo de técnica usada pelo grupo liderado por Olavo Bilac, no Brasil. É interessante, inclusive, atentarmos para o tipo de linguagem utilizado que, pelo menos nas traduções para o português, aproximam-se de um coloquialismo pouco comum naquele contexto literário: a comparação com “alho de baixa cozinha”, o imperativo “torce-lhe o pescoço” ao referir-se à eloquência, e a conclusão de que “vamos todos parar no fosso” caso não usemos as rimas de modo sensato expressam claramente essa ideia.

foge do chiste, a farpa mesquinha,
frase de espírito, riso alvar,
que olhe do azul faz lacrimejar,
alho plebeu de baixa cozinha!

a eloquência? torce-lhe o pescoço!
e convém empregar de uma vez
a rima com certa sensatez
ou vamos todos parar no fosso!

quem nos dirá dos males da rima!
que surdo absurdo ou que negro louco
forjou em joia este toco oco
que soa falso e vil sob a lima?

Para finalizar esta ode à musicalidade na poesia, Verlaine exalta uma vez mais a música como elemento primordial dessa arte, sugerindo que tal característica contribui para que o poema viaje para “outros céus e outra mente”, ou seja, atinja um número maior de leitores, fechando com um último verso que deixa claro a sua indiferença quanto a definição de literatura da época. “Deixe que todo o resto seja literatura, se tivermos a musicalidade, temos tudo”, poderiam ser palavras de Verlaine.

música ainda e eternamente!
que teu verso seja o vôo alto
que se desprende da alma no salto
para outros céus e para outra mente.

que teu verso seja a aventura
esparsa ao árdego ar da manhã
que enche de aroma ótimo e a hortelã…
e todo o resto é literatura.

No ENEM e em vestibulares é comum que algumas pinturas relacionadas a características desse período estejam presentes. Dois quadros de Gustave Moreau são constantes, pois expressam o misticismo que faz parte da ambientação simbolista:

Pinturas Simbolistas de Gustave Moreau: A Aparição e Salomé dançando diante de Herodes

Numa análise em sala de aula, é importante destacar algumas ideias presentes nas pinturas (que sim, são muito semelhantes entre si): o misticismo, como já citei, aparece na ambientação ( aparentemente altares de igrejas) e na temática ( comprovada pelos títulos de cada uma). Além disso, a vagueza conferida pela técnica de pintura, que torna o ambiente esfumaçado, envolto em neblina, também faz com que estejamos próximos ao Simbolismo.

Questões de vestibular comentadas

1) Analise as afirmações sobre o poema “Litania dos pobres”, de Cruz e Sousa e, em seguida, assinale as verdadeiras (V) e as falsas (F).

(  ) O poema é composto por dísticos rimados que lhe conferem musicalidade -– característica comum do Simbolismo.

Comentário: Dísticos são composições organizadas em 2 versos, que são sempre rimados entre si, o que confere musicalidade ideal projetada pelos Simbolistas como forma de atingir o belo, portanto a alternativa é verdadeira.

(  ) A temática central gira em torno da denúncia social, muito comum entre os simbolistas que se preocupavam demasiadamente com as questões sociais.

Comentário: Os simbolistas não tinham preocupação com as questões sociais. Voltavam-se para o “eu”, como expressão da subjetividade do artista e como único meio de acesso ao real, por isso essa alternativa é falsa.

(  ) Ele possui alto poder sugestivo, trazendo, através de adjetivos, qualificadores para definir os miseráveis.

Comentário: Como vimos no artigo acima, esteticamente, o Simbolismo se caracterizava pela musicalidade e pela sugestão, como meio de se referir à realidade sem, contudo, nomeá-la. Opção verdadeira, portanto.

(  ) Apresenta várias características típicas do Simbolismo como a subjetividade, o universalismo e a racionalidade.

Comentário: O Simbolismo, de fato, se caracterizava pela subjetividade e não pelo racionalismo, seu oposto. Alternativa falsa.

2) Dois movimentos literários, contemporâneos, que se iniciaram na segunda metade do século XIX, alcançando as primeiras décadas do século XX, tiveram perfis e ideários antagônicos. Marque as alternativas corretas sobre esses períodos.

(A) O Simbolismo e o Parnasianismo eram estilos dirigidos a um público leitor sofisticado; tanto um quanto outro se envolveram apenas com a produção de versos, tendo como figuras principais no Brasil, respectivamente, Cruz e Sousa e Olavo Bilac.

Comentário: O Simbolismo e o Parnasianismo, apesar de se manifestarem, primordialmente, por meio da poesia, também tinham alguma produção em prosa. Por isso esta é falsa.

(B) Ambos tiveram origem na França e, no geral, representaram o desligamento da realidade: o Parnasianismo, com o que a realidade local tinha de feia, pobre e suja; o Simbolismo, com a recusa aos valores ideológicos e existenciais da burguesia.

Comentário: No Parnasianismo, procurava-se fazer poesia com o mote “arte pela arte” e no Simbolismo havia grande subjetividade e pessoalidade. Ambos representam, portanto, um certo desligamento com a realidade social, por isso essa alternativa está correta.

(C) O Parnasianismo cultivava a arte pela arte, o culto à forma, dentro de uma temática greco-latina. No geral, os poetas parnasianos escreviam versos objetivos e descritivos, sem abordagens pessoais e sentimentais.

Comentário: O Parnasianismo configura-se pela estética da “arte pela arte” e procurava manter-se à margem das grandes transformações sociais de sua época, final do século XIX e início do XX. Outra alternativa certa.

(D) O Simbolismo buscava não a descrição impessoal, mas o subjetivismo, a sugestão e o mistério, reinventando a linguagem, explorando suas possibilidades e aproximando a poesia da música.

Comentário: Ao explorar as possibilidades da linguagem, o Simbolismo buscava o subjetivismo e o mistério. Como vimos, isso é verdadeiro.

(E) Dentre os temas trabalhados pelo Simbolismo, estavam o amor à pátria (ufanismo) e a descrição da natureza. A vingança de Cruz e Sousa contra o preconceito de cor se deu através da defesa do seu mundo étnico, aproximando-o às temáticas pré-modernas.

Comentário: O ufanismo e a natureza não eram temas do Simbolismo, mas, sim, do Romantismo. Além disso, Cruz e Sousa não era compreendido como pré-modernista. Alternativa típica, com objetivo de confundir o vestibulando. Cuidado!

3) O Simbolismo, cujo representante máximo, no Brasil, foi Cruz e Sousa, é um movimento marcado pelas seguintes características:

(A) nacionalismo e fixação pela cor branca.
(B) religiosidade e racionalidade.
(C) uso de iniciais maiúsculas e patriotismo.
(D) musicalidade e subjetividade.
(E) descompromisso métrico-formal e racismo.

Comentário: Fica muito fácil para quem acabou de ler este artigo resolver essa questão. Como vismo, o Simbolismo se desenvolveu, no final do século XIX, como reação ao materialismo e ao racionalismo do movimento realista. Defendiam a volta à subjetividade, nas artes, daí a busca pela expressão do “eu” e do inconsciente. Em consequência desse mergulho interior, valorizou-se a linguagem simbólica, o sonho e a musicalidade como forma de percepção da realidade. A alternativa D é correta, portanto.

Material didático sobre o Simbolismo

Você professor ou aluno pode acessar o material didático elaborado por mim para trabalhar esse período literário em sala de aula. Veja na apresentação abaixo:


Em um próximo artigo vamos aprender como esse período literário desenvolveu-se no Brasil através das figuras de Alphonsus de Guimaraens, Cruz e Souza e Pedro Kilkerry. Bons estudos!

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André Augusto Gazola é formado em Letras, professor especialista em escrita e redação para ENEM, vestibulares e concursos públicos, além de pós-graduado em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura.

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