A Semana de Arte Moderna de 1922

A semana de arte moderna foi uma exposição organizada por artistas de vanguarda que aconteceu na cidade de São Paulo e influenciou na formação de um novo conceito de arte brasileira e consequentemente no ensino de artes nas escolas.

Entre 1900 e 1929, a Europa passava por um período de efervescência cultural, com manifestações artísticas que rompiam conceitos tradicionais, como o expressionismo alemão, o cubismo, a pintura abstrata, o dadaísmo e o surrealismo. Muitos pintores brasileiros viajaram a fim de conhecer novas formas de expressão e, ao retornar para o Brasil, trouxeram essas novas concepções estéticas.

O estopim para a explosão do modernismo foi o regresso de Anita Malfatti dos Estados Unidos após ter estudado Pintura. Na ocasião de sua volta, por instistência de amigos, fez uma exposição que recebeu muitas críticas, entre elas de Monteiro Lobato, que era crítico de arte do jornal Folha de São Paulo. O artigo causou muita polêmica e, a partir de então, consolidou-se um grupo de interessados em produzir uma arte renovadora. No artigo denominado “Paranoia ou Mistificação”, Lobato é implacável. A seguir, um trecho:

Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres. (…) A outra espécie é formada pelos que veem anormalmente a natureza e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. (…) Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz de um escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. (…)

Estas considerações são provocadas pela exposição da Sra. Malfatti, onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e companhia. Esta artista possui um talento vigoroso, fora do comum. Poucas vezes, através de uma obra torcida para má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades latentes. (…) Entretanto, seduzida pelas teorias do que ela chama de arte moderna, (…) põe todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura. (…)

 

Como resultado, de 13 a 17 de fevereiro de 1922, realizou-se no Teatro Municipal de São Paulo, a Semana de Arte Moderna, na qual os artistas defendiam a liberdade e a incorporação das modernas formas de expressão do “estrangeiro” — não para copiá-las, mas para recriá-las de maneira própria. Sobre isso, Mário de Andrade afirmaria em 1928 que “a devoração cultural das técnicas importadas para re-elaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação”. Ainda, a autêntica expressão artística brasileira deveria conter elementos dos diferentes “brasis”: o rural e o urbano, o antigo e o moderno, etc.

A respeito da repercussão social do evento, afirma Aracy Amaral em seu livro Artes plásticas na Semana de 22:

“A exposição e os três festivais da Semana assumem, de certa forma, o cunho de manifesto. A importância da Semana cresce à medida que a rejeição ao passado não deixa de estar profundamente relacionada com os movimentos político-sociais que abalariam o país a partir de 1922 […], seja nesse mesmo ano com a sublevação do Forte de Copacabana em julho, e dois anos depois, na Revolução de 1930, iniciando-se uma nova era para o país. Assim, no contexto das alterações a ocorrer, a manifestação cultural da Semana constitui um registro sintomático da pulsação do organismo nacional, antecipando, por meio do pensamento, a insatisfação que tomaria forma política contra o tradicionalismo aristocrático poucos anos depois”.

Participaram deste movimento, com pinturas e desenhos, artistas como:

  • Anita Malfatti
Homem amarelo, de Anita Malfatti

O Homem amarelo

  • Di Cavalcanti
Capa do catálogo da Semana de 22

Capa do catálogo da Semana de 22, por Di Cavalcanti

  • Zina Aita
  • Vicente do Rego Monteiro
  • Ferrignac
  • Yan de Almeida Prado
  • John Graz
  • Alberto Martins Ribeiro
  • Oswaldo Goeldi

Com esculturas:

  • Victor Brecheret
Depois do banho, Victor Brecheret

Depois do banho

  • Hildegardo Leão Velloso
  •  Wilhelm Haaberg

Com arquitetura:

  • Antonio Garcia Moya
  • Georg Przyrembel

Na Literatura:

  • Mário de Andrade

Ode ao burguês
Mário de Andrade

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
O burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
É sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos;
E gemem sangue de alguns milréis fracos
Para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
E tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
O êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suíça! Morte viva ao Adriano!
“- Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
– Um colar… – Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!…

ANDRADE, Mário de. Mário de Andrade – poesias completas.
Belo Horizonte: Villa Rica, 1993.

  • Oswald de Andrade
  • Menotti del Picchia
  •  Sérgio Milliet
  • Plínio Salgado
  • Ronald de Carvalho
  • Álvaro Moreira
  • Renato de Almeida
  • Ribeiro Couto
  • Guilherme de Almeida

Representando a Música:

  • Villa-Lobos
  • Guiomar Novais
  • Ernâni Braga
  • Frutuoso Viana

 

A exposição, com o apoio de influentes políticos e miliónários do café, contava com cerca de 100 obras, entre pintura e escultura, dispersas pelo saguão do teatro e três noites literário-musicais. As pinturas e esculturas provocaram reação de espanto por parte do público, enquanto as sessões de música e poesia eram vaiadas.

A seguir, o trecho da conferência de Graça Aranha, intitulada “A emoção estética na Arte Moderna”, que marca a abertura da Semana:

Para muitos de vós, a curiosa e sugestiva exposição, que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de “horrores”. Aquele Gênio suplicado, aquele Homem amarelo, aquele Carnaval alucinante, aquela Paisagem invertida, se não são jogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado vosso espanto. Outros “horrores” vos esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos por forças do passado.

A Semana de Arte representou a independência cultural brasileira, pois despertou a consciência artística nacional para a produção de uma arte mais comprometida com as coisas do país.

Para ilustrar essas informações, convidamos você a assitir o vídeo com cenas selecionadas da Minissérie “Um só coração”, exibida em 2004.

Bolsas para a faculdade

Rosana Gazola é formada em História e especialista em Música e Musicalidade. Dá aulas de Arte e História para Ensino Fundamental I e II em escolas de rede privada.

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