O prazer da leitura – ler para gostar de ler na escola

Já há muito tempo venho me preocupando com a questão da leitura em sala de aula.

Cada vez mais percebo que entre o que o educador espera do aluno enquanto leitor e o leitor real que tem sido formado pela escola há uma grande interrogação, um vazio, a queixa.

Nesse ponto encontra-se a prática, o trabalho pedagógico e as perguntas:

O que acontece no dia a dia escolar no tocante à leitura, que causa um distanciamento tão grande entre o que queremos, esperamos e o que temos, os resultados? Por que dizemos querer um leitor competente, bem formado e temos como resultado leitores funcionais?

Acredito que o primeiro passo para a resolução de um problema seja a tomada de consciência da existência dele e a procura de suas causas. Porém a constatação disso não pode implicar paralisia. O próximo passo precisa ser o ataque ao foco do problema, que nesse caso é a formação do bom leitor, traçando uma linha de conduta que se acredita ser eficaz.

Com alguma reflexão, os pontos básicos desse ataque estão cada vez mais claros para mim.

Em primeiro lugar está a questão dos objetivos. Vejo o trabalho de leitura como uma batalha com três diferentes frentes:

  • Ler para gostar de ler;
  • Ler para conhecer a língua;
  • Ler para conhecer o mundo.

Esse ponto é fundamental. Para cada uma dessas frentes temos objetivo diferentes e metodologias diferentes, o que implicará a escolha de textos diversos para serem lidos em momentos variados.

O ler para gostar de ler é a garantia do espaço da leitura-prazer: leitura com finalidade de divertimento, fruição.

O ler para conhecer a língua é o momento da apropriação da estrutura da língua portuguesa: leitura com a finalidade de construir o conhecimento mais direcionado à disciplina Português.

O ler para conhecer o mundo é o momento de desvendar, de descobrir os conhecimentos culturalmente construídos: leitura com a finalidade de investigar, de saber mais e melhor das coisas que existem no mundo, em todas as áreas do conhecimento humano.

Usando como referência o processo de alfabetização, opto aqui por concentrar-me na discussão da primeira dessas frentes, pois penso que o mais forte nesse momento deverá ser o ler para gostar de ler.

Uma vez fisgado, o peixe não tem como escapar. A questão aqui é bem esta: primeiro a sedução, o encantamento, a paixão, a emoção; depois a tomada de consciência do que se está fazendo, a razão, o conhecimento, o domínio. Se o objetivo é gostar de ler, a metodologia precisa ser o prazer, o deleitar-se e só.

De um modo geral, percebo que há uma espécie de senso comum nas escolas ou entre os educadores, de que o ler apenas para a aquisição do hábito de leitura é algo menor, banal, indicador da incompetência do professor que, para se sentir produtivo, precisa necessariamente fazer algo (de preferência escrito) com aquela leitura. Essa ideia de produtividade pelo que se pode ver ou constatar no concreto é apenas o reflexo da ideologia escolar na qual fomos formados, pós revolução industrial. E essa deve ser a primeira fase da batalha a ser vencida.

Para que o objetivo da sedução seja alcançado, não podem haver situações forçadas, impostas. O educador precisa enxergar que este momento da construção do leitor deve ser um momento pedagogicamente tranquilo e, para isso, precisa ter clareza de objetivos.

A política aqui é a do não fazer, não no sentido do espontaneísmo, do cruzar os braços, mas no sentido da liberdade de trabalhar a leitura pela leitura, da não obrigatoriedade da resolução de atividades escritas ou orais com o texto lido, sem dores na consciência.

Uma vez liberto dessa carga pesada, penso que o educador precisa centrar-se num ponto muito mais importante desse trabalho que é conhecer sobre literatura infantil tanto em sua varidade de opções (títulos) quanto em sua estrutura (o que é necessário para que um texto de literatura infantil seja considerado de boa qualidade). Toco aqui no segundo ponto básico do já referido ataque: o conhecimento do objeto com o qual trabalhamos é imprescindível para o sucesso do trabalho. Saber o que esperar de quem lê (os interesses da faixa etária) é fundamental.

O terceiro ponto importante nessa frente de trabalho é o como fazer. Talvez seja o mais difícil, pois depende dos outros dois já comentados, mas com certeza tem enorme importância já que é a materialização das intenções do professor.

Nos últimos anos, tem-se trabalhado de uma forma diferente com literatura infantil, e é essa forma que pretendo usar aqui para exemplificar e reafirmar a crença que temos hoje num trabalho de leitura inicial voltado para o prazer.

Essa metodologia de trabalho é a conhecida pedagogia de projetos e baseado nos fundamentos desta, temos um Projeto Institucional de Biblioteca de Classe, que inicia com as crianças menores (2 anos) e culmina na 4ª série (10 anos).

Cada turma monta o seu projeto de biblioteca no início do ano, que é o momento em que chegam na sala os livros de literatura pedidos na lista de material dos alunos, tendo como primeiro problema a ser resolvido, a organização física dos mesmos. Essa organização geralmente é feita da mesma forma como acontece em qualquer biblioteca: fichas das crianças, fichas dos livros, livro de empréstimos, carteirinhas, data para empréstimos e devoluções, etc. A separação e catalogação dos livro spode ser feita por editora ou por autor, conforme o gosto da turma, como também as regras para uso dos livros.

Como o nosso principal objetivo como esse trabalho é despertar a curiosidade pela leitura, o gosto e o prazer, as crianças têm o seu espaço garantido na escola para o que querem ler, quando e onde fazer a leitura. Sem restrições, elas podem escolher qualquer livro de literatura presente na biblioteca, para empréstimo, apenas com a condiçõa de devolvê-lo na data marcada na ficha, intacto.

Para que a escolha não seja feita no escuro, uma vez por semana a professora abre uma espécie de seminário, no qual quem desejar poderá comentar sobre o livro que leu, passando suas impressões sobre o mesmo para os outros colegas.

Esse trabalho tem dado excelentes resultados. Primeiro porque aproxima as crianças dos livros, uma vez que trazemos a biblioteca para dentro da sala de aula, e também porque damos a elas a liberdade de escolha, com a certeza de que não estarão sendo avaliadas pela quantidade de livros que pegam emprestados ou por fichas de leitura. Não foram poucas as vezes em que tivemos crianças de 5 ou 6 anos produzindo seus próprios livrinhos em casa e trazendo para a sala, com o intuito de contar para os colegas. O número de empréstimos semanais sempre ultrapassa a expectativa do professor e a troca de informações entre os leitores é magnífica.

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Acredito que a palavra-chave para a formação do leitor hoje é liberdade, e é nela que todo o nosso trabalho está pautado. Com qualquer livro de literatura infantil o trabalho é o mesmo:

  1. Ler para despertar a curiosidade
  2. Ler para provocar novas leituras
  3. Ler para incentivar a crítica acerca dos textos que são apresentados (se vale a pena ou não serem lidos)
  4. NUNCA ler para escrever.

A literatura infantil moderna, feita para crianças pré-escolares, basicamente caracteriza-se por textos simples, diretos, sem muito detalhamento da trama ou personagens, e, portanto, são interessantes para serem usados no início do processo de construção do hábito de leitura, uma vez que são histórias rápidas e fáceis de serem lidas. Entretanto, a sequência desse trabalho precisa seguir rumo às histórias mais ricas em enredo, vocabulário e personagens, tais como os contos de fadas, que povoam de ideias o imaginário infantil.

A formação do leitor, hoje, precisa passar primeiro pelo despertar para o tipo de prazer que a leitura proporciona, sem querer concorrer com a televisão, internet ou jogos eletrônicos. Ler permite a construção de um mundo imaginário individual, onde personagens e cenários podem ser criados de acordo com o gosto de cada um, o que com certeza é bastante diferente das cenas já imaginadas por outros que a TV ou o videogame apresentam. A leitura precisa ser natural, espontânea, tranquila em seu despertar, para que possa aos poucos ir se solidificando e ganhando espaço na vida das crianças.

A escola precisa assumir o seu papel de formadora, de construtora de leitores, não para explorar suas disciplinas através da leitura (isso acontecerá naturalmente depois), mas para abrir as portas do mundo através dela.

Leia mais textos sobre o incentivo à leitura:

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor especialista em escrita e redação para ENEM, vestibulares e concursos públicos, além de pós-graduado em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura.

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