Carlos Drummond de Andrade – 110 anos de poesia

No próximo dia 31 de outubro, um dos maiores poetas da literatura brasileira completa 110 anos: Carlos Drummond de Andrade.

Drummond é um clássico extremamente popular entre leitores de todos os níveis. Parte de sua obra (e até coisas que ele não escreveu) costuma ser compartilhada em redes sociais e tem boa recepção do público que adora curtir e compartilhar conteúdos cult. Entre acadêmicos, continua sendo estudado e analisado exaustivamente, já que é “um desses escritores que aparecem de tempos em tempos que conseguem apreender e refletir poeticamente as inquietudes de uma época, como um Camões ou um Fernando Pessoa” (CEREJA e MAGALHÃES, 2005, p. 484).

Retrato de Carlos Drummond de Andrade pintado por Portinari

O mineiro de Itabira que nunca exerceu a profissão de farmacêutico, área na qual formou-se, dedicou-se ao jornalismo e sobreviveu através do serviço público. Sua literatura é associada à segunda fase modernista, que é, essencialmente, uma poesia de questionamento da existência humana, do sentimento de “estar no mundo”, das inquietações sociais, religiosas, filosóficas e amorosas. Sua primeira grande aparição na literatura deu-se com a publicação do conhecido poema No meio do Caminho:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra

(Em Revista de Antropofagia, 1928. Incluido en Alguma poesia (1930).)

A vasta obra de Carlos Drummond de Andrade, contudo, é classificada em fases diferentes, definidas por Cereja e Magalhães (2005) como: a fase gauche (década de 30), a fase social (1940-45), a fase do não (décadas de 1950 e 60) e a fase da memória (décadas de 1970 e 80).

 Carlos Drummond de Andrade e sua fase gauche: consciência e isolamento

Livro Alguma Poesia, de Carlos Drummond de AndradeNessa fase, Drummond ainda está um pouco ligado à primeira geração modernista, pois povoam sua poesia temas como a ironia, o humor, o poema-piada, a síntese e a linguagem coloquial. As obras mais representativas dessa fase são Alguma poesia, de 1930, e Brejo das almas, de 1934.

Gauche é um termo que costuma gerar estranheza, porém torna-se claro o porquê de seu uso quando descobrimos que, em francês, significa “lado esquerdo”: aplicado ao ser humano designa aquele que se sente às avessas, torto, que não consegue comunicar-se com a realidade. Cereja e Magalhães, no livro Literatura Brasileira – diálogo com outras literaturas e outras linguagens, dizem ser comuns nessa fase do poeta que completa 110 anos daqui alguns dias traços como o pessimismo, o individualismo, o isolamento e a reflexão existencial.

Um exemplo da produção dessa fase é o poema-pílula, ao estilo de Oswald de Andrade, chamado Cota Zero:

Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?

(Idem, p. 23.)

Porém, o poema mais característico da fase gauche é também o que abre o livro Alguma poesia, o famoso Poema de sete faces:

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

O sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade em sua fase social

A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de AndradeEm 1940 Drummond publica seu terceiro livro, O Sentimento do mundo, que marca uma mudança significativa em sua poesia, pois o gauchismo é deixado de lado para dar espaço às preocupações sociais que antes não eram tema recorrente.

Essa mudança não é algo exclusivo de Carlos Drummond, pois no mundo todo emergia uma literatura mais social, principalmente devido ao contexto histórico dessa época, que inclui a ascensão do nazifascismo, culminando com a Segunda Guerra  Mundial.

Assim, o poeta dos 110 anos percebe que o gauchismo não é um sentimento exclusivo dele, mas sim universal, pois essa é uma consequência de se estar em um mundo problemático. O poema José, escrito durante a Segunda Guerra Mundial, é o exemplo perfeito da fase social de Carlos Drummond de Andrade:

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

Vale destacar, ainda, que em 1945 é publicado A Rosa do Povo, considerado por muitos seu livro mais importante.

A terceira fase de Carlos Drummond: o signo do não

Claro Enigma, de Carlos Drummond de AndradeEm sua fase social, Drummond buscava transformar o mundo através da poesia. A partir da década de 50, no entanto, ocorre um desencanto em relação a suas aventuras políticas e, como diz Alfredo Bosi em sua História Concisa da Literatura Brasileira, seus poemas passam a ser concebidos sobre o signo do não, ou seja, pautados por um pessimismo ainda maior que o da fase gauche, pois o mundo da Guerra Fria parece esconder novas tragédias.

O pessimismo dessa fase é corrosivo, ácido, uma vez que a esperança de solução no plano social já se frustrou. Acompanhar seus poemas, agora, é entrar no labirinto de um discurso paradoxalmente tortuoso e lúcido: a complexidade de pensamentos negativos se dá na associação de imagens límpidas e rigorosas; em contínuo aprofundamento, elas fazem ver a metafísica de um vazio que toma conta da alma.

Os livros representativos dessa fase são Claro Enigma, de 1951, Fazendeiro do ar, de 55, e Vida passada a limpo, de 59.

Ocorre, ainda nessa fase, uma outra orientação na poesia de Carlos Drummond, a chamada poesia nominal, evidenciada no livro Lição de coisas, de 1962, em cuja linguagem o verso e a palavra são violentados, desintegrados, com o emprego de neologismos, aliterações, sugestões visuais e rupturas sintáticas. Essa postura aproxima-se das propostas do Concretismo, podendo-se perceber nos versos abaixo, do poema Amar.

O árvore a mar
o doce de pássaro
a passa de pêsame
o cio da poesia
a força do destino
a pátria a saciedade
o cudelume Ulalume
o zumzum de Zeus
o bômbix
o ptyx

A última fase de Drummond: tempo de memória

As décadas de 70 e 80 dão espaço a uma poesia em que Drummond cria um universo de memória em que temas como a infância em Itabira, o pai, a família, a piada e o humor cotidiano tomam conta. É uma fase de grande produção do poeta, marcada pela série Boitempo e outras obras como As impurezas do branco, Amor amores, Discurso de primavera, A paixão medida e Corpo e Amor, sinal estranho.

O último livro de Carlos Drummond, publicado após sua morte, em 1996, é o Farwell. Nele, estão presentes diversos elementos que marcaram toda sua carreira: a reflexão filosófica, o humor e o erotismo contidos, a ironia e o ceticismo. Observe como o primeiro poema do livro, Unidade, é coerente com o Poema de sete faces, publicado 56 anos antes:

As plantas sofrem como nós sofremos.
Por que não sofreriam
se esta é a chave da unidade do mundo?
A flor sofre, tocada
por mão inconsciente.
Há uma queixa abafada
em sua docilidade.
A pedra é sofrimento
paralítico, eterno.
Não temos nós, animais,
sequer o privilégio de sofrer.

(Carlos Drummond de Andrade. Farwell. 6ª ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 1998. p. 13.)

Para quem deseja apreciar a obra do poeta que completa 110 anos no final do mês de outubro, as melhores opções, hoje, são os 3 volumes da editora BestBolso, que resgatam a seleção de poemas que Carlos Drummond de Andrade publicou originalmente pela José Olympio em 1969. A obra foi posteriormente ampliada pelo autor e reeditada com 19 livros (1983). Agora temos 23 livros de poesia compilados em 3 volumes, um convite irrecusável para a leitura (ou releitura) da mais pura e luminosa poesia drummondiana.

 

Para conhecer ainda mais o autor, também vale assistir o documentário de Fernando Sabino e David Neves produzido em 1972, inspirado no poema O Fazendeiro do Ar.

Neste, a vida e a obra do escritor são contadas através de entrevistas com professores, parentes e estudiosos de seu trabalho.

Em entrevista ao Jornal Hoje, do sábado, 25 de julho 07 de 1981, o poeta falou da sua cidade em Minas Gerais, Itabira, e das coisas de que gosta. Drummond disse que a vida passa muito rápido e que não dá pra sentir que ele já viveu 78 anos.

Leitura do poema “No meio do caminho” em vários idiomas. Vídeo do Instituto Moreira Salles.

Referências

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 33. ed. São Paulo: Cultrix, 1999.
CEREJA, W. e MAGALHÃES, T. C. Literatura brasileira em diálogo e outras linguagens. São Paulo: Atual, 2005.

Outros links sobre Carlos Drummond de Andrade

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor especialista em escrita e redação para ENEM, vestibulares e concursos públicos, além de pós-graduado em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura.

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