Viver da escrita é possível? Entrevista com Alessandro Martins

Editor de blogs Alessandro Martins fingindo comer um livro, sob fundo azul

Ele trabalha com blogs desde 2001 e percebeu que poderia viver só disso: escrever.

Alessandro Martins, do blog Livros e Afins, é uma das personalidades mais interessantes que conheço. Além do blog sobre livros, que é seguido por mais de 300 mil pessoas em sua fanpage no Facebook, alguns de seus projetos incluem uma newsletter semanal, em que nos conta sobre fatos interessantíssimos de seu dia a dia como apreciador da arte, dos livros, dos relacionamentos e da vida;  seu blog pessoal, em que escreve de maneira mais solta e opinativa, deixando transparecer sua visão ímpar sobre a vida e os acontecimentos recentes no Brasil e no mundo; e até um blog sobre como aplicar na Bolsa de Valores, voltado para iniciantes na área.

Eu o conheci pessoalmente em 2010, quando fui a Curitiba jogar um torneio de xadrez. Passeamos bastante por lá e ele me mostrou diversos lugares bem legais da cidade.

Desde então nossas vidas seguiram rumos bem diferentes, mas continuamos parceiros nesse desafio que é criar conteúdo de qualidade, que seja lido e apreciado pelos leitores.

Nessa entrevista, ele nos conta como iniciou no mundo dos blogs, largando sua profissão de jornalista para ter mais liberdade, qualidade de vida e, por que não, ganhar mais.

Alessandro Martins e André Gazole em frente a uma fonte, em uma praça da Cidade de Curitiba, no ano de 2010

Alessandro Martins e André Gazola – Curitiba 2010

Fala também de como é a rotina de alguém que vive da escrita e da presença em redes sociais, além de suas experiências offline que surgem como consequência natural dessa maior exposição.

Você é formado em jornalismo, mas há muito deixou de trabalhar nos meios tradicionais de comunicação, certo? Conte um pouco sobre como foi essa história: como começou com blogs, quando viu que dava para viver só disso, das dificuldades e prazeres que isso trouxe para sua vida.

Quando eu criei meu primeiro blog, em 2001, no extinto weblogger.com.br, eu tinha 20 acessos por dia — dez dos quais deviam ser meus, mesmo — e achava que todo o mundo lia o que eu escrevia.

Nem lembro o que eu publicava direito, mas achei o máximo a possibilidade de ter um site meu. Na época isso era uma grande novidade, poder publicar suas próprias coisas. A gente achava que só empresas podiam ter sites.

Fui levando a coisa meio na brincadeira até 2004, por aí, quando o Paulo Polzonoff Jr. me convidou para manter uma coluna semanal no site dele, que batizei com o nome do meu primeiro blog — Cracatoa Simplesmente Sumiu.

Basicamente, escrevia crônicas, contos, coisas mais autorais. Eu queria, no entanto, alguma coisa mais ampla e chamei as minhas amigas Alicia Ayala e Carla Juliane para me ajudarem a produzir imagens, fotografias bacanas, para publicar. Eu não sabia ainda o que eu queria dessas imagens. O fato é que, no processo criativo, surgiram o que então chamamos de Fragmentos Fotográficos, minifotonovelas sem começo nem fim, apenas meio.

Nos empolgamos tanto com aquilo que resolvemos tornar o Cracatoa Simplesmente Sumiu um site independente, feito de forma coletiva. Os fragmentos ainda podem ser vistos aqui — são apenas as reminiscências do antigo site, no domínio onde agora publico apenas meus textos e ideias mais autorais.

Embora o site fosse inteiramente feito em Movable Type, uma ferramenta para blogs, não gostávamos que fôssemos ligados a blogs, pois ainda havia a ideia errônea de que blogs eram uma coisa amadora. O Cracatoa durou nessa linha uns dois anos. Foi quando, em 2006, eu percebi que os colaboradores não estavam mais colaborando e eu teria que manter o site sozinho.

Comprei o domínio AlessandroMartins.com — que mais tarde, por vocação, se tornou o livroseafins.com — e comecei a me virar sozinho.

Antes disso, um amigo, o Rodrigo Stulzer  me falou do Adsense e do Problogger.com e eu já tinha feito alguns experimentos com a ferramenta de remuneração de conteúdo através de publicidade do Google. Coloquei alguns anúncios e ganhei meus primeiros centavos, que foram o suficiente para começar a me interessar a publicar ainda mais, com mais qualidade, aprendendo como posicionar melhor os anúncios e ganhar mais e assim por diante, numa espécie de círculo virtuoso.

Finalmente, em 2008, eu ganhava tanto com blogs quanto com jornalismo (eu trabalhava em um pequeno jornal de Curitiba chamado Jornal do Estado, que hoje é o site http://bemparana.com.br). Foi neste mesmo ano que eu fui demitido e decidi não mais procurar um emprego, trabalhando apenas com meus blogs.

A maior dificuldade é a flutuação de renda. Às vezes você ganha mais, às vezes menos, mas tudo é compensado pela maior de todas as vantagens: eu administro meu tempo como preferir.

Alessandro Martins segurando um objeto vermelho com um furo no meio, que aparece em primeiro plano. Seu rosto, em segundo plano, aparece entre o furo do objeto.

Foto por Ca Li

Muitos dos que ouvem histórias de blogueiros de sucesso ficam animados com a ideia de ganhar fortunas escrevendo em um blog. Essa é uma realidade? Meu início foi lento e difícil. E o seu?

Eu tive um ou outro golpe de sorte, como posts que, por acaso, ranquearam bem nas pesquisas do Google para um grande volume de visitas.

Isso me alavancou para criar outros blogs, gerar relevância para cada um deles. Foi algo que facilitou muito, mas não quer dizer que eu não precisei trabalhar bastante e ter boas ideias para chegar a isso, me reinventando a cada instante da internet nesse relativamente curto período de tempo.

Se fosse pra começar hoje, certamente não seria tão fácil quanto na época. E foi bastante difícil. Dependi de trabalho, engenhosidade e sorte.

Tenho a impressão de que, para um blog ranquear bem nas pesquisas ou para conseguir um bom tráfego via mídias sociais, hoje, é muito mais difícil. De 2005 a 2007, havia muito mais troca de links relevantes entre a blogosfera. Hoje parece que os blogs falam sozinhos porque o diálogo que havia através dos links é feito através das mídias sociais. E os links eram, por assim dizer, o sistema circulatório da blogosfera, através do qual a energia da relevância circulava.

Agora, pra conseguir um link apontando para um artigo, o sujeito tem que ralar. Sei de blogueiros que ganham muito melhor que eu, sem dúvida, mas eles são a exceção. Tudo depende do tráfego que você tem, quanto quer produzir e que tipo de conteúdo.

Hoje eu não me iludiria com a possibilidade de ganhar muito dinheiro com blogs.

Seu blog principal, o Livros e Afins, tem uma presença muito forte nas redes sociais. Você mesmo é uma personalidade forte nessa área. Porém, isso era algo pouco importante, digamos, 8 anos atrás. Quando você percebeu que ser blogueiro profissional exigia muito mais que simplesmente escrever textos em um blog? Esse processo de transição lhe agradou? Que tipos de desafios essa realidade impõe?

Esse é um grande problema  de quem trabalha com textos ou arte de um modo geral: eles têm as competências em suas respectivas áreas, mas não sabem lidar com a promoção do que produzem.

Se você fizer o melhor post do mundo e não souber divulgá-lo, possivelmente ninguém vai ler. Além de fazer bons artigos, o editor de blog tem que ter esse impulso de mostrar seu trabalho ao mundo, ir até onde as pessoas estão. Se elas estão no Orkut, deve ir até o Orkut. Se estão no Facebook, deve ir ao Facebook, ao Instagram, ao Twitter, onde for.

Então você terá que saber ao menos rudimentos de como funcionam as mídias sociais e como agem as pessoas dentro delas. Saber coisas técnicas como SEO e mesmo design e programação, ao menos um pouco, para ter mais autonomia, flexibilidade e versatilidade para melhor divulgar seu trabalho. Os blogueiros que melhor se deram entre 2004 e 2008 (quando o Panda mudou o jogo nas buscas do Google) foram os que mais dominavam SEO e outras coisas mais técnicas.

Depois do Panda, alguns conseguiram se manter. Outros tiveram de se adaptar. Outros desistiram.

Nota do editor: Panda é a denominação dada a uma mudança ocorrida sobre o jeito que o Google analisava cada site, fazendo-o aparecer melhor ou pior posicionado nos resultados das pesquisas. Essa mudança foi tão grande que muitos que trabalhavam e ganhavam dinheiro escrevendo em blogs simplesmente faliram da noite para o dia.

Acesse o blog Livros e AfinsCurta a FanPage no FacebookSiga no Twitter

Outro estereótipo em torno de quem trabalha em casa é que todos os dias se pode acordar às 10h, continuar de pijamas, trabalhar duas horinhas e aproveitar o resto do dia com lazer. É isso mesmo? Fale um pouco da sua rotina diária de trabalho.

Atualmente eu não tenho uma rotina. Às vezes acho que trabalho o tempo inteiro, até quando estou me divertindo. Sei que qualquer coisa que eu publique em meu Facebook ou Twitter tem um impacto menor ou maior em meus blogs, indiretamente.

Procuro me manter presente. Há épocas em que acordo muito cedo. Épocas em que acordo muito tarde e trabalho até tarde, como agora, quando respondo esta entrevista. Há momentos em que me cobro por achar que estou produzindo pouco. Então não sei exatamente quanto trabalho. Acho que parei de medir por tempo minha produtividade. Raramente uso despertador. Atualmente, tenho buscado medir minha vida pela qualidade do tempo que passo com as pessoas de que gosto.

Isso não torna as coisas mais fáceis, não se engane, mas é melhor do que vender o tempo diretamente para outra pessoa para realizar algo que não necessariamente tem a ver comigo.

Meu trabalho on-line já gerou muitas oportunidades no mundo offline, talvez até mais interessantes. Sei que você também tem trabalhos assim. Esse é um objetivo seu, ou uma consequência natural da maior exposição? Fale um pouco de seus projetos fora do mundo virtual.

Uma das coisas de que mais gosto é, eventualmente, dar cursos e aulas sobre meu trabalho, blogs e conteúdo. Sempre sou chamado para esse tipo de coisa.

Em outubro darei um módulo sobre mídias sociais em uma pós-graduação na Universidade Positivo. Porém, uma das minhas maiores realizações offline foi a Biblioteca Livre Pote de Mel, uma biblioteca que funciona desde 2008 em uma padaria, em que você pode pegar livros emprestados, sem prazo, sem carteirinha e sem ter de pedir para ninguém. Ela deu origem a muitas outras iniciativas similares e sobre ela eu falei no TEDx Curitiba, em 2011.

Palestra do Alessandro no TEDx Curitiba 2011

Um de seus projetos mais recentes – e mais legais, na minha opinião – é a newsletter. Os leitores cadastram-se e recebem um texto seu todos os domingos, por e-mail. Conte como surgiu essa ideia, como está a aceitação dos leitores, se o retorno está razoável.

Aos poucos percebi que quero depender cada vez menos do Google, do Facebook ou de qualquer outra ferramenta que possa surgir para chegar aos meus leitores.

E-mail ainda é uma coisa que todo o mundo usa, mesmo os leitores mais jovens. Talvez isso mude no futuro, mas por enquanto é isso. A minha lista de e-mails inscrita não muda independentemente do que o Google e o Facebook façam a seus algoritmos e só cresce a cada semana. Quem inclui o seu e-mail está dizendo que quer muito ler o que eu escrevo a ponto de permitir que eu chegue a sua caixa de entrada, um lugar onde sempre poderá me encontrar e na qual faz verificações periódicas.

Uma vez por semana eu estarei lá. É uma forma de contato bem pessoal. Toda semana recebo respostas dos leitores (o que substitui bem as esquecidas caixas de comentários dos blogs). Estou com quase 3 mil assinantes dos quais um terço abre as mensagens e clica nos links e ainda cerca de 30 assinantes pagos que me remuneram com R$ 10 mensais cada.

Minha meta em dois anos é chegar a 200 assinantes pagos, pelo menos.

Cadastre seu e-mail e receba os textos de Alessandro Martins

Os textos da newsletter falam muito sobre sua vida – e isso os torna interessantíssimos. Como você faz pra ter uma vida tão, digamos, ímpar?

Aí é uma coisa mais filosófica e prática ao mesmo tempo. Descobri, na prática, que quanto mais somos nós mesmos, autenticamente, mais atraímos aquelas pessoas que compactuam com nossas ideias e jeito de ser, mais conquistamos a simpatia daquelas que não compactuam mas são tolerantes e admiram a autenticidade e mais afastamos os intolerantes.

A verdade — a que dizemos e a que exprimimos com nossos atos — essa sim nos liberta. Assim, decidi me expor, dentro de certa medida, incluindo das coisas mais cotidianas às mais excêntricas da minha vida. Parece que vem dando resultado.

Sei que você é um fã do minimalismo. Mas a grande pergunta é: onde ficam os livros?

Como disse, em 2008 criei a Biblioteca Livre Pote de Mel e boa parte dos meus livros foi para ela. Não sinto a necessidade de ter muitos livros me cercando. Acho que eles ficam em minha cabeça, de alguma forma. São mais úteis para aqueles que ainda não os leram.

Alessandro Martins na Biblioteca Pote de Mel, escorado em uma mesa cheia de livros, de camisa branca.

Alessandro na Biblioteca Pote de Mel, criada por ele mesmo em uma padaria de Curitiba.

Li sua entrevista e resolvi começar um blog hoje. Quais conselhos você pode me dar?

O que sempre dou desde 2008 quando passei a viver de blogs: faça um blog sobre um tema que o fascine, que o divirta ou que você domine ou precise dominar. As chances de ele dar certo em algum aspecto – do financeiro ao da mera satisfação pessoal – são maiores.

Livro preferido: Ficções, Jorge Luis Borges

Filme inesquecível: Magnólia

Texto que mais lhe deu prazer ao escrever: Fique Calmo ou Tudo o Que Você Aprendeu na Escola

Texto que você achava que ia ser incrível, mas ninguém deu bola: O Design Divertido é Pra Caras Como Eu

3 melhores textos que já escreveu, na sua opinião:

  1. Penso em você Miss Runway Everyday
  2. Um envelope vazio, mas cheio
  3. Viagem do Corvo

Agradeço imensamente ao Alessandro pela entrevista e pelas respostas riquíssimas, que sem dúvida servirão de inspiração para muitos que sonham em manter um blog profissionalmente ou apenas escrever textos com um propósito um pouco maior que a simples escrita.

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor de Literatura e História da Arte, pós-graduado em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e fundador do blog Lendo.org.

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