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Pra quê ser assim, Rosalva?

Detesto essas liberdades que as visitas deliberam. Principalmente quando ouvem aquela malfadada expressão “sinta-se em casa” e a levam ao pé da letra. Vão nos quartos, mexem nas gavetas. Vão na cozinha, fuçam na geladeira. Reviram a estante e encontram o rascunho do meu futuro possível livro.

– Você está escrevendo um livro?
– Não, é meu balancete de despesas mensais. Dá aqui!
– Não é não, seu bobo… Esse seu balancete tem muitas letras pro meu gosto.
– Faço introduções longas.
– Mentiroso.
– Por favor, devolve.
– Por que todo cara de talento esconde as coisas que faz?
– Porque as pessoas tendem a fazer comparações. Sempre, aliás.
– Ai, pronto. Parece meu pai reclamando.
– Devolve, Rosalva. Ou então eu…

Rosalva é um nome que dá tesão até de pronunciar. A gente começa abrindo a boca pra fazer o “ro”, mexe todo o maxilar e a língua vai parar no céu da boca com o “zal”, e, por fim, os lábios se unem para cuspir a última sílaba, já mandando realmente tirar a roupa nesse “va”. Se isso não for erótico, ao menos serve de massagem facial. Rosalva! Se não fosse tão metida, eu e ela já teríamos, sei lá, fornicado.

– Se eu não devolver, você faz o quê?
– Faço um macarrão instantâneo enquanto isso.
– Você não sabe cozinhar outra coisa?
– Requento que é uma maravilha.

Não adianta discutir com mulher. É melhor deixá-la fazer o que quiser. O tédio e a mudança de opiniões no lado feminino vêm mais ligeiro. Passei a defender essa tese depois que meu casamento durou quatro meses.

E a Rosalva era assim: iria ler, se aborrecer e voltar a falar de qualquer outra coisa comigo. Ou então mudar de opinião e resolver fazer as temidas comparações que odeio, detesto, tenho pavor e derivados. Era tão fácil ela apenas dizer “vamo pro quarto”, “que calor”, “o que é esse auto-relevo na sua calça de veludo?”, “deixa eu segurar isso aí”, e crau.

– Você tem um estilo de alguém que conheço.
– Ihhhhh! Lá vem.
– Pera, deixa eu pensar… Ah, já sei: é o Luis Fernando Verissimo escrito.
– Já me disseram que eu era um Scliar, só que nos aspirantes.
– Hum… pensando melhor, Kafka! Você parece o Kafka!
– Concordo que já acordei estranho, mas o mais próximo disso foi uma ressaca.
– Humm… Um pouco de Guimarães Rosa nos personagens.
– Ele era um rural ortodoxo. Eu sou rural também, mas mais liberal.
– Putz, da linhagem do MST?
– MSG.
– Ãhn?
– Movimento dos sem gramática.

(…)

– Rá!
– Muito engraçadinho, macaco simão.
– Sei que não sou engraçado e não faço esforço nenhum para parecer.
– Você tem uma cabeça boa.
– Ah, é?
– Boa para dar um derrame.
– Obrigado, Edgard Allan Poe fêmea.
– Tá, peraí! Peraí. Falando sério. Deixa eu analisar melhor… Bem, com os tiros, as trepadas e as mortes, eu diria que o Rubem Fonseca está bem representado.
– Não é bem assim, me preocupo com os leitores mais sensíveis. Não quero ninguém deprimido.
– Lya Luft.
– Pára! Também não é isso. Tenho meus métodos narrativos pra chegar onde eu quero.
– Ah-rá! Aquele pessoal do O Segredo!

Aquela conversa estava tomando um rumo muito chato. Bem o que eu temia. Quando chega nesse ponto do abuso gratuito, eu costumo ser grosso e arremesso a primeira enciclopédia que encontro. Já falei, se ela fosse mais superficial e dissesse “quero que você examine uma coceirinha que tá me dando na virilha”, isso, assim e só, nossa relação seria muito mais harmônica.

Pra quê ser assim, Rosalva? Por que não é apenas uma dessas moças gostosas, de ancas largas, coxas grossas, seios fartos, lábios carnudos e vácuo no crânio? Ela é tudo isso, só que metida a intelectual. E tem hora que a gente não agüenta, mesmo.

– Vamos pra cama que eu te conto o meu “segredo”.

Passou-se vinte e poucos minutos de um rala-e-rola contagiante em que discurso nenhum tinha vez naquele espaço, a não ser alguns desabafos sem significações necessárias e de entendimento que é universal: AH, UH, OH, UH!

Extasiado e de cabeça vazia, virei pro lado.

– Vai, conta esse teu segredo.

“Que perseguição!”, pensei gritando. Só me relaciono com mulheres que lêem resumos de vestibulares e respondem a questionários da Capricho.

– Eu não tenho estilo nenhum!

Ah! Eu sabia: é o Millôr.

Fuck!

Dino Canteli


Pois bem, Dino Canteli é o grande vencedor do Concurso de Contos Aumente um ponto, com esse belo conto Pra quê ser assim, Rosalva?

A disputa foi muito acirrada, mas no final, os jurados decidiram a vitória do Dino, que escreve no blog Tio Dino e seus sobrinhos.

Parabéns pela vitória Dino! Nos próximos dias (ou semanas, essa greve dos correios anda uma loucura) você vai receber na sua casa o livro O Adiantado da Hora, de Carlos Heitor Cony e seu certificado de vencedor. Também nas próximas semanas, publico a narração que a locutora Djaine fará do conto. Pra completar, o conto será publicado na próxima edição da Revista Malagueta.

Quanto aos demais contos, vou publicar um e-book grátis com as melhores obras enviadas. Será outra forma de presentear e agradecer pela participação de todos vocês.

Um muito obrigado também aos jurados, Alessandro, Jefferson e Olivia, sem vocês esse concurso não teria sido possível.

Livros em oferta

DVD's em oferta

10 Comentários

1. por JLM em
Abr142008, às 10:18am

Aí está o meu post, parabéns ao Dino e a todos os outros participantes.

1 abraço.

2. por Dai em
Abr142008, às 12:03pm

Parabéns!!! Não li os outros mas este ‘Por quê ser assim Rosalva?’ do Dino Canteli é ótimo :)
André, parabéns mesmo. Pelo resultado deu pra sentir a qualidade e seriedade propostas no concurso.
Que venham mais.
Beijos ao Dino :)

3. por Dai em
Abr142008, às 23:25pm

… mas faltou indicar quais contos serão inseridos no e-book ;)
Beijo.

4. por Dai em
Abr152008, às 3:51am

Dé,
Achei super legal o Jefferson se disponibilizar a criticar individualmente cada contador. Isso engrandece as iniciativas e os projetos literários no nosso país. Este blog é (reafirmo) uma sinalização que aponta a seriedade do humano brazilis he,he…
É só para enfatizar que o Jefferson está disponível para criticar individualmente todos os concorrentes.
Para quem não sabe, dentre os jurados, esse cara é o melhor.
Este é meu parecer. Com todo respeito ao André e Olívia…
Beijos e abraços, meus contistas :)
Mas o Jefferson é o melhor. Ganhou! he,he…
Beijos.

5. por Alexandre Kovacs em
Abr152008, às 19:23pm

André, mais uma vez parabéns pela iniciativa que mostrou ser possível gerar eventos culturais de qualidade na Internet.

E, principalmente, parabéns para o grande vencedor Dino Canteli!

6. por João Maria MEsquita em
Abr262008, às 19:32pm

Achei o conto vencedor fraquíssimo…
Tem certeza que essa porcaria, simplória e mal escrita, ganhou.
sinceramente, meus queridos. Tem alguma coisa errada com esse concurso. Fala sério.

7. por JLM em
Abr282008, às 23:02pm

Caro João,

Gosto é igual nariz, cada um tem o seu. Se vc é tão bom assim por que não concorreu? Se acha q o concurso tem algo errado, por que não faz um melhor?

É muito fácil criticar os outros. Difícil é demonstrar quais são os erros e sugerir as devidas correções (o q vc não fez e nem sei se saberia fazer).

Critique sim, mas de maneira inteligente.

1 abraço.

8. por André Gazola em
Abr292008, às 15:18pm

Faço minhas as palavras do Jefferson.

9. por Cacájocapesi em
Mai162008, às 2:41am

André gostaria que o Jeferson ou você mesmo, enviasse para meu E-mail o que acharam de meu conto.
“João Quirino pensa, só pensa”
Desde já obrigado.

10. por JLM em
Mai182008, às 15:11pm

Não tenho o seu email, Cacá, senão já o teria feito.

1 abraço.

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