Sobre o sucesso da série Crepúsculo: lá vamos nós outra vez

Vocês vão pensar que eu sou algum tipo de masoquista ou algo assim ao escrever novamente sobre a série de livros composta por Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e, em breve no Brasil, Amanhecer.

No meio disso tudo, ainda teve a análise da análise, escrita pelo Douglas Lemos e que você pode ler acompanhando nossa amiga pirâmide argumentativa, e tirar suas conclusões.

Então por que volto ao assunto?

Porque a leitora do blog, estudante de jornalismo, Luiza Barros, pediu-me uma ajuda em uma reportagem sobre a série, na qual ela pretende abordar questões como “Como e por que as adolescentes se  apaixonaram tão rapidamente pela série?”, “o que acontece quando alguém se posiciona contra a série?” e “por que a série fez tanto sucesso assim?”.

E eu resolvi ajudar.

O papel dos ídolos na busca pela identidade

O principal público atraído pela série é, digamos, composto por adolescentes entre 12 e 16 anos. Como sabemos, essa é uma fase complicadíssima da vida, em que diversos conflitos tomam conta: namoros, amizades, família, descobrimento do corpo, felicidades, tristezas, brigas, sexo, preparação profissional, etc. tudo misturado assim mesmo. Isso é definido basicamente pela psicologia (não sou psicólogo) como busca da identidade.

Edward:filme Crepúsculo - A recriação de modelos clássicos em moldes contemporâneos permite que o jovem transfira seu ideal de perfeição pré-estabelecido para a figura do ídolo

E é mesmo. É nessa fase que começamos a lidar com o problema do “quem sou?”. Na sociedade capitalista/consumista na qual vivemos, o adolescente é bombardeado por possíveis respostas a essa pergunta, advindas principalmente da mídia: “Se você tiver tal produto, você vai ser como tal artista, bonito e adorado”, “Se você se vestir de tal jeito, ouvir tal música, ir a tal festa, comer tal tipo de lanche, usar tal tipo de mochila” e assim por diante.

Isso se chama definição de modelos ou ídolos. Aí que está o principal motivo do sucesso da série Crepúsculo.

Os adolescentes encontram modelos de perfeição em Bella e Edward (claro que essa perfeição é um modelo já pré-estabelecido na mente deles, a mídia é novamente a responsável por isso). Em Bella por ser a garota linda, apaixonada, com conflitos iguais aos que as jovens vivem hoje (e a identificação com a personagem é um ponto importantíssimo), em Edward novamente pela beleza (que é imaginária, lógico), mas também pelo tom misterioso que o envolve, algo indefinido entre o bem e o mal (outro conflito em voga entre os jovens) e pela devoção com que trata Bella (adolescentes adoram estar no centro das atenções), coisas que reconstroem a imagem do príncipe encantado dos contos de fadas.

Berta Weil Ferreira e Bruno Edgar Ries, em seu livro Psicologia e Educação (vol.1. Porto Alegre, EdiPUCRS, 2000. ISBN: 8574301132), com base em Erik Erikson e sua teoria do Desenvolvimento Psicossocial, dizem que:

O jovem se identifica com seus ídolos, para descobrir quem é. Mas a identificação não é uma atitude permanente. Hoje existe um ídolo, amanhã outro. São pessoas [ou personagens] que os jovens admiram e buscam imitar. E através destes ídolos encontram a si mesmos, descobrindo o seu verdadeiro papel.

e continuam com aquilo que eu tomo como base para criticar a série:

No entanto, o perigo desta etapa é a confusão ou difusão de papéis. Se não encontrar o modelo adequado, o jovem poderá difundir-se nos múltiplos papéis que gostaria de assumir. Quando não conseguem fixar-se num modelo, há o perigo de perder-se nos diversos papéis, de difundir-se neles, perdendo a sua identidade.

Cena do filme Crepúsculo - Ao verem personagens idealizados vivendo conflitos que eles mesmos vivem, os jovens assumem posturas totalitaristas que visam afirmar sua identidade em desenvolvimento.

Quando o adolescente se depara com algo ou alguém indo contra o ídolo (contra os livros, nesse caso), contra o modelo de identidade que ele está tentando criar, desencadeia-se uma reação de total confusão, que começa com o medo de estar errado, passa pela raiva e culmina com a total negação da crítica. Ainda citando Ries e Ferreira:

Como o adolescente espera firmar-se entre seus iguais através de rituais e credos que definem os valores sociais e, ao mesmo tempo, tudo o que é mau e fantástico, ele se sente atraído pelas ideologias. Desta forma apaixonam-se pelas doutrinas totalitárias, por lhes oferecerem ideologias, que penetram na índole de sua geração, procurando absorver o poder rejuvenescedor da mocidade. Na integração com os companheiros, em atividades esportivas, políticas, religiosas ou em shows musicais vemos os jovens buscando uma forma de confirmação ideológica, através de ritos espontâneos ou formais. Às vezes, esta busca leva à participação fanática . Por isso dizemos que o jovem se sente atraído pelo totalitarismo, já que ele se entrega com fervor a atividades políticas ou religiosas. É que elas lhe oferecem a segurança aparente, em que pode apoiar-se ao se sentir desamparado. [grifo meu]

A série Crepúsculo oferece várias dessas ideologias totalitaristas nas quais os adolescentes se apoiam.

Além de tudo isso, existe mais um ponto: e os adultos que gostam da série? Qual a explicação para isso? Primeiramente vale ressaltar que são bem mais raras as respostas violentas às críticas partindo de um adulto, mas elas ainda existem. O grande motivo para adultos gostarem desse tipo de livro é basicamente o mesmo: a busca da identidade, que nesses casos foi um conflito não superado na adolescência. Estão aí as estatísticas das vendas de livros de autoajuda que não me deixam mentir.

Influências negativas = Resultados negativos?

Isso quer dizer que minha filha vai tentar se matar caso o namorado não lhe der bola? Provavelmente não. Meu filho vai prender a namorada em um apartamento, matá-la e depois cometer suicídio? Provavelmente não, mesmo que o caso lhe pareça familiar.

O ponto principal é que os pais não devem proibir a leitura dos filhos — ir contra um adolescente é a última coisa que se deve fazer –, mas sim prezar por aquilo que todos nós sabemos e quase nunca praticamos: a conversa franca e aberta, o acompanhamento das atividades e comportamentos na escola, a abertura para um namorinho, por que não (sempre acompanhando o caso de perto), etc. E claro, no âmbito dos livros, o ideal seria termos pais leitores, que pudessem indicar outras fontes para seus filhos, participando ativamente dessa busca da identidade, coisa que infelizmente não tem acontecido.

Sobre o sucesso da série Crepúsculo: lá vamos nós outra vez by

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor de Literatura e História da Arte, pós-graduando em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e fundador do blog Lendo.org.É casado e mora em Bento Gonçalves-RS.

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