País sem Chapéu, de Dany Laferrière

O texto a seguir é uma colaboração do leitor Marcos Fidalgo.

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Em País sem chapéu, Dany Laferrièri traz perspectiva de dentro pra fora sobre o Haiti.

Seja com a ocupação do exército brasileiro, o terremoto ou a fome, o Haiti não sai de pauta. Correspondentes vão até lá, enviam-nos imagens heroicas que são exibidos no domingo à noite, ou escrevem reportagens de um par de toques sobre as calamidades do lugar, listando tudo aquilo que falta, como se o país fosse a dispensa vazia de uma casa. E é justamente a partir de sua casa, e das figuras da mãe e da tia, que Dany Laferrièri traz uma perspectiva pessoal do Haiti, uma alternativa ao olhar viciado que temos sobre o país. Lançado este ano no Brasil pela editora 34, País sem chapéu é um livro de dentro pra fora, escrito com a naturalidade de um nativo que volta à sua pátria após vinte anos de um autoexílio no Canadá e nos Estados Unidos.

País sem Chapéu, de Dany LaferrièreNascido em Porto Príncipe, em 13 de abril de 1953, Dany Laferrièri era um jornalista de vinte e três anos quando deixou o Haiti, em 1976, para fugir da ditadura do presidente Baby Doc. Durante seus vinte e seis anos de carreira como escritor, já publicou mais de uma dezena de romances, muitos calçados em sua biografia, assim como País sem chapéu.

Dany inicia o livro dizendo que está no quintal de sua casa, escrevendo à máquina, enquanto cai uma manga de seu pé. Eis aí a primeira descoberta. No Haiti há mangas e mangueiras. Depois, à medida que Dany sai para dar suas voltas em Porto Príncipe, vão surgindo comerciantes, trambiqueiros, amigos de longa data, que desviam o caminhar de carros decrépitos, que se fundem aos transeuntes em um único trânsito. E ao cair da primeira noite de sua volta, Dany é coberto por um luar de causar inveja. Sim, no Haiti também há lua, e há um escritor em baixo dela.

E é durante as noites, com ou sem luar, que zumbis vão às ruas para misturar-se aos vivos, conforme acreditam os seguidores do vodu haitiano, religião local e de raízes africanas. Intrigado com a crença, da qual estava duas décadas distante, Laferrièri vai atrás de professores e especialistas religiosos, para saber mais daquilo que intitula de “País inventado”. Em um momento, aceita a proposta de um feiticeiro conhecido de sua tia, e faz uma viagem para a metade inventada de seu país, habitada por deuses do vodu. Ali passa um tempo, suficiente para decepcionar-se, e retorna ao Haiti dos vivos e devotos.

Dany observa tudo com certa frieza. Se o olho é haitiano, seu olhar parece norte-americano. O calor dos abraços, dos beijos e das palavras fica por conta da mãe, a tia e os amigos. Suas maiores palpitações ocorrem quando revê uma antiga paixão adolescente, e ao relatar a tentativa frustrada de encontrar o pai nos Estados Unidos, onde exilou-se quando Dany ainda era Windsor Klébert, seu nome de registro.

País sem chapéu prende pelo fato de que Laferrièri mostra o Haiti pelos haitianos. Com essa luz indireta sobre o país jogada pelo autor, conseguimos ver o que nele falta, com aquilo que ele tem. Mesmo com uma defasagem de quinze anos de sua publicação original, o livro se mantem, apesar de não se dispor a tal, como a melhor crônica publicada no Brasil sobre o Haiti. Isso por que, ao imergir em si e visitar seu passado, o autor redescobre e nos descobre um país, real e inventado, que nenhum jornalista ou ficcionista conseguiu nos relatar.

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor de Literatura e História da Arte, pós-graduado em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e fundador do blog Lendo.org.

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