Estágio Supervisionado – Relato de um estagiário

Relato da Experiência do Estágio Supervisionado em uma Licenciatura

Um dos momentos mais importantes da formação de um estudante de licenciatura é o estágio supervisionado — o primeiro contato de muitos futuros professores com o ambiente real de sala de aula.

Ao longo de minha licenciatura em Letras, também passei por essa fase. Foram 4 disciplinas, totalizando 4 semestres, de Estágio. Durante esse período, relatei boa parte das minhas experiências, o que trago hoje neste artigo que visa orientar os estagiários de primeira viagem.

Ao final do texto, você encontrará meus planos de aulas e meus relatórios de estágio completos para download grátis. Se quiser, use-os como modelos para seus próprios relatórios.

Em todas essas disciplinas, tínhamos encontros semanais com 2 orientadoras (uma de língua portuguesa, outra de Literatura) para discutir como procederíamos em cada etapa, desde a organização dos documentos necessários, a seleção das escolas, a observação das aulas da professora titular, a elaboração dos planos de aula e, finalmente, as aulas propriamente ditas.

No decorrer desses encontros, tivemos muitas discussões bem produtivas em torno da educação e das metodologias de ensino de português e literatura — aprendemos estratégias concretas, não a lenga-lenga teórica que ajuda em quase nada os professores iniciantes.

Os relatos abaixo são relativos às disciplinas Estágio II e Estágio III, que cursei durante o ano de 2009 e 2010.

Conhecendo a realidade dos alunos

Minhas aulas começam terça-feira, dia 6 de outubro, e terminarão só em novembro. Tenho uma turma de sétima série do Ensino Fundamental de uma escola pública.

São 23 alunos, entre os quais estão repetentes, gente que chegou de escola particular neste ano, gente pobre  e gente não tão pobre. Uma turma EXTREMAMENTE heterogênea e, como era de se esperar, bastante agitada.

Além disso, a fala da professora titular não foi das mais incentivadoras: “As sétimas estão fracas esse ano.”, “Das três sétimas, essa é a mais fraca” e “Eles não se comportam, acho difícil tentar algo novo nessa turma.”

Meu objetivo é ministrar 20 períodos de aula, que dividem-se, basicamente, assim:

  • 4 h/a para usos da língua a partir de gêneros textuais;
  • 4 ou 5 h/a para leitura e interpretação de gêneros textuais;
  • 1 h/a para produção textual;
  • 1 h/a para reescrita da produção textual;
  • 1 h/a para leitura dos textos produzidos;
  • 8 ou 9 h/a para literatura.

Como minha universidade é quase que totalmente freiriana, nosso planejamento é baseado na ideia de tema gerador, proposta por Paulo Freire. Assim, cada estagiário deve escolher um tema e trabalhar em torno dele, em forma de textos, imagens, músicas ou quaisquer outros recursos possíveis.

Meu tema é Tecnologia: seu brilho e suas amarras.

Minhas aulas serão todas terças e quintas, portanto nas quartas e nas sextas um novo texto será publicado. Acredito que será uma boa amostra para os leitores que fazem licenciatura e já pensam em seu estágio, ou mesmo para aqueles que pretendem ingressar na carreira de professor.

A primeira aula de um estagiário

A primeira aula de um estágio é provavelmente a mais problemática de todas. Qual será minha postura? Vou ser legal? Vou ser carrancudo? Um pouco dos dois? Como os alunos vão se comportar? O que vão achar de mim? Como vou manter a atenção deles?

Essas são questões que atormentam todo estagiário.

Saí da primeira aula um pouco rouco. A turma é extremamente agitada e exigiu que eu levantasse a voz por várias vezes para ser ouvido. Apesar disso, consegui desenvolver todas as atividades que tinha em mente e tive uma resposta muito boa por parte dos alunos, que participaram bastante com suas respostas, fizeram os exercícios propostos e ainda elogiaram a aula.

O roteiro foi basicamente o seguinte:

  1. Apresentação do professor e dos alunos, e alguns acordos referentes à estrutura das aulas, avaliação e ao estágio como um todo.
  2. Exposição de imagens, via retroprojetor, que se relacionam ao tema gerador, que é a tecnologia.
  3. Reflexão e discussão sobre as imagens.
  4. Leitura do artigo de opinião Tecnologia em Benefício da Sociedade, de Marcelo Spaziani.
  5. Discussão sobre o texto.
  6. Introdução sobre as relações frasais de adição e adversidade, entremeada de exercícios. (Uma metodologia que aborda diretamente o uso das conhecidas Orações Coordenadas aditivas e adversativas).

A maior dificuldade, sem dúvida, foi a conversa. Talvez tenha sido o resultado de eu ter assumido uma postura um pouco mais liberal (mas não permissiva), com o objetivo de demonstrar como as aulas seriam diferentes daquelas as quais eles estão acostumados.

Para a próxima aula, quinta-feira, acho que vou ser um pouco mais rígido para não deixar que a coisa perca o controle e eu tenha que passar o resto das aulas gritando. Além disso, tenho que tomar cuidado para organizar um pouco mais minha fala de modo a não deixar ninguém perdido (principalmente os meninos, que possuem um pensamento mais linear).

Por fim, em uma autoavaliação, de 0 a 10, considero 8 uma nota justa.

Repare como o tipo de reflexão do último parágrafo é importante não só para estagiários, mas para qualquer professor. Infelizmente muitos perdem esse hábito com a rotina de sala de aula.

Conquistando o sonhado Controle de Turma

Uma das competências mais cobradas dos estagiários de licenciatura é o chamado controle de turma. Uma expressão bastante tradicional em meio a série de “inovações” as quais somos incitados a desenvolver como professores.

Controle de Turma na escola

Controle de turma é a capacidade que o professor tem de fazer-se respeitar e ser ouvido em qualquer momento da aula, seja esse momento conturbado ou não. Para mim, esse respeito precisa ser adquirido o mais cedo possível através de pequenos sinais, que, caso se faça necessário, podem culminar com uma atitude brusca.

Minha segunda aula do estágio começou mais tranquila que a primeira, já que as apreensões iniciais haviam se dissipado. Fiz novamente uma breve apresentação para os alunos que tinham faltado e acrescentei o seguinte:

Haverá um dia em que uma de minhas professoras da universidade vai vir observar nossa aula. Vai ser uma espécie de prova que eu estarei fazendo, então, caso vocês queiram ferrar com o professor, naquele dia vocês devem bagunçar bastante; se não quiserem, podem ser comportar um pouquinho melhor que o normal.

Foi um risco calculado. Eu realmente desejo que eles decidam o que acham certo a partir das aulas que estão tendo comigo. Se eles apreciarem as aulas, tenho certeza que me recompensarão, caso contrário, estou disposto a enfrentar as consequências.

Essa fala também relaciona-se com a minha visão da educação, que busca dar autonomia maior para o aluno em casos em que normalmente ele não tem essa possibilidade. Além disso, é uma forma de expor minha absoluta segurança em estar fazendo um trabalho bom o suficiente para ganhar essa pequena recompensa.

A turma respondeu de forma bem humorada, como eu já esperava. Então iniciei a aula com uma rápida e também bem humorada revisão dos temas da aula anterior e estava pronto para iniciar a matéria do dia, quando alguns meninos começaram a pedir para ir ao banheiro ou para lavar as mãos. Deixei dois deles, um por vez, saírem. Após sua volta, um terceiro aluno veio até mim para mostrar suas mãos sujas de cola por uma bolinha de papel propositalmente arremessada por um colega. Olhei para o infrator e disse, com voz firme:

— Na próxima…

E ele virou a cabeça para conversar com alguém, rindo. Então falei com voz ainda mais firme e bastante alta:

— Olhe para mim!
— Na próxima brincadeira, diretoria.
— Sim senhor.

A turma inteira ouviu que aquele professor bem humorado, que traz atividades diferentes e gosta de ouvir a opinião dos alunos, também pode ser rígido como outro qualquer.

A aula, a partir desse ponto, seguiu normalmente e sem grandes interrupções. Em todos os momentos em que solicitei silêncio, obtive resposta quase que imediata.

Apesar disso, é importante ressaltar que não se trata de criar ressentimentos. Aquele aluno ficou cabisbaixo pelo resto da aula, mas não deixei-o de lado. Fiz perguntas referentes à matéria para ele, permiti que lesse suas respostas dos exercícios (assim como os outros) e continuei com o bom humor que todos merecem.

O resultado da primeira repreensão que fiz a um aluno é que adquiri o tão cobiçado controle de turma.

Indisciplina e Liderança: como resolver?

Com o decorrer das aulas do estágio, vamos percebendo melhor a dinâmica da turma e as relações de poder que se manifestam ali. Percebemos, mais que as simples distinções participa/não participa ou bagunça/não bagunça, que há lideranças informais no grupo e que elas influenciam muito nas atitudes de todos os alunos.

O grande problema acontece quando esse líder informal é o aluno mais bagunceiro — conversa durante as explicações, não faz exercícios, intervém com assuntos totalmente fora do contexto, etc.

A turma em geral tem respondido bem às aulas — alguns alunos que não participavam tanto começaram a mostrar interesse no terceiro encontro, ontem. Até mesmo os meninos, que costumam ver o professor homem como um rival, começaram a demonstrar mais amizade e respeito.

Certamente a postura do professor influencia nesse tipo de resultado. Veja o infográfico abaixo para saber mais.

Infográfico: as qualidades de um professor que tem autoridade (e não é autoritário)

No entanto, aquele líder citado acima, por diversas vezes, interrompeu a ascensão intelectual da turma através de conversas paralelas que dispersaram todo mundo.

Uma ameaça de levá-lo à direção resolveu temporariamente o problema, mas acho que nas próximas aulas não vai resolver.

Então qual a solução para o caso? Como diluir aquela liderança? Percebi que muitos alunos sentiram-se incomodados com aquele comportamento, inclusive repreendendo-o em alguns momentos. Talvez o caminho seja exatamente esse: mostrar para os demais o quanto eles ficam prejudicados ao seguirem o comportamento sugerido por aquele referencial. Dessa forma, eles mesmos acabarão por intimidar o bagunceiro.

Alguém já passou por casos parecidos? Como resolveu a situação? O que você acha dessa solução que eu proponho?

Quanto ao conteúdo da aula, ontem abordei o lado positivo do desenvolvimento tecnológico através da evolução dos jogos de video-game/computador com uma exposição de imagens de jogos, formando uma linha do tempo, desde aqueles mais antigos, até os mais atuais. Os alunos perceberam, dessa forma, como esse mercado evoluiu em poucos anos, e refletiram sobre as vantagens e desvantagens dessa evolução.

A seguir, lemos uma reportagem retirada do site G1, intitulada Produtores de games dão dicas para quem sonha em trabalhar na área, o que nos levou a refletir sobre o desenvolvimento tecnológico do Brasil e sobre as oportunidades de trabalho que ele pode proporcionar a quem desejar qualificar-se.

A partir do fragmento

Eu diria que o maior desafio ao criar ‘Taikodom’ foi, sem dúvida, desenvolver tecnologia e conhecimentos próprios, pois quando começamos não havia uma metodologia pronta para se desenvolver um MMOG.

introduzi a ideia de relação explicativa entre as orações, salientando as palavras pois (que poderia ser substituída por porque), que exerce essa função.

Depois de alguns exercícios sobre essa relação explicativa, distribuí a reportagem ‘Guitar hero Metallica’ deixa a marca do heavy metal nos games com lacunas nos lugares onde há conjunções aditivas, adversativas, alternativas, conclusivas ou explicativas, e entre parênteses o tipo de relação com que deveria ser preenchida aquela lacuna. Fiz o exercício junto com eles e terminei a terceira aula.

Bibliotecas não deveriam ter chave

Algo que me preocupava até agora no estágio era o fato de os alunos não terem gostado muito dos textos trabalhados, mesmo eles sendo sobre assuntos mais despojados, próximos aos gostos deles.

Na quarta aula, como já havia terminado o conteúdo gramatical, pude utilizar textos literários. Escolhi o conto Clic, de Luis Fernando Veríssimo, que foi um sucesso total: 99% da turma leu e adorou.  Até aquele aluno mais indisciplinado gostou muito e inclusive foi um dos voluntários para uma leitura coletiva que fizemos.

Porém, o que me chamou mais atenção em tudo isso foi que, após falar um pouco sobre o autor, passei 3 livros do Veríssimo para que os alunos manuseassem, olhassem, folhassem, lessem trechos, etc.:

  • As mentiras que os homens contam
  • Comédias para ler na escola
  • Mais Comédias para ler na escola

Foi algo bem à vontade, enquanto o resto da aula decorria. Então, quando eu avisei que alguns daqueles livros estavam disponíveis na biblioteca da escola, muitos alunos pediram para que eu os levasse até lá, pois eles não têm acesso a ela, já que está sempre fechada por não haver bibliotecário na escola.

Prometi que na próxima aula os levaria. Assim, vou ter que fazer uma das coisas mais absurdas que eu poderia pensar: pedir a chave de uma biblioteca para poder levar alunos até lá.

E ao mesmo tempo, é anunciada a Prova Brasil 2009, que “avalia sistemas”, não alunos ou professores. O que dizer de um sistema como esse?

Aulas de portas fechadas, mas com janelas abertas

No final do século XIX existiu uma escola literária chamada Parnasianismo, da qual fizeram parte nomes como Alberto de Oliveira e Olavo Bilac. Seu lema era “A arte pela arte”, por isso produziam uma poesia que presava muito pela forma, pela métrica, cujos temas passavam por vasos gregos, ornamentos árabes, animais personificados e algo de mitologia, mas ficavam longe de qualquer preocupação social.

O Parnasianismo acabou e junto com ele dissolveu-se essa visão da arte como um fim em si mesmo, que não precisa, necessariamente, ser algo engajado, preocupado com o mundo ao redor.

Pois bem, todo professor de literatura ou artes deveria ser um pouco parnasiano.

Em pedagogia fala-se muito em objetivo. Tal atividade precisa ter um objetivo, precisa estar de acordo com um plano de aula pré-definido, deve enquadrar-se com as perspectivas do aluno, ou, ainda, tal atividade está sem objetivo. Para mim, isso é correto em muitos casos, no entanto, quando falamos em arte, seja ela escrita, visual, auditiva, tátil, ou qualquer outra, é importante que, de vez em quando, paremos tudo para simplesmente apreciá-la sem objetivo algum.

Filme Matrix na Sala de AulaNa quinta aula do meu estágio em Literatura e Língua Portuguesa, continuamos falando em tecnologia, dessa vez sobre os perigos do desenvolvimento tecnológico exagerado. Comecei resgatando o que os alunos sabiam sobre o assunto e lembrei-os do enredo do filme Matrix, destacando pontos importantes daquela realidade e, inclusive, adentrando em algumas questões filosóficas superficiais que, para minha surpresa, alguns alunos entenderam e até discutiram.

Em seguida, parei a aula para assumir a postura parnasiana que aqui defendo: levei 35 minutos para indicar 8 filmes que 1°) eu tinha certeza que os alunos gostariam muito, por serem bastante atuais e populares 2°) apresentam em sua história algo relacionado à tecnologia: máquinas futuristas, simulacros, realidades virtuais, etc. Foram 35 minutos de um rico diálogo em que vários alunos contribuíram para contar a história dos filmes que já tinham assistido e que prometeram assistir novamente, dessa vez com um novo olhar.

Indicar filmes teve algum objetivo? Até que teve: proporcionar a apreciação de uma arte que os atrai bastante sob uma nova ótica, mas acima de tudo salientar aquela arte como algo que não está assim tão distante dos rígidos currículos escolares.

Logo após, voltamos para o eixo “nós temos objetivo”: lemos uma crônica de Luis Fernando Veríssimo chamada Invólucros e fizemos sua compreensão oral. O trabalho, a partir disso, foi produzir um cartaz que exporia um produto tecnológico criado por eles, a partir de uma montagem com imagens de revistas. Tal produto apresentaria vantagens e desvantagens para a humanidade, que deveriam ser listadas no cartaz para posterior apresentação oral. Um trabalho em duplas que os alunos parecem ter gostado. As apresentações serão semana que vem.

Uma batalha perdida

Aulas 6 e 7 do estágio de Língua e Literaturas de Língua Portuguesa.

Na sexta aula consegui, finalmente, levá-los até a biblioteca. Lá ficamos durante dois períodos de aula, nos quais realizei um trabalho em torno dos relacionamentos virtuais.

Lemos uma história em quadrinhos (que, na verdade, é um vídeo do youtube adaptado por mim, já que eu não teria recursos para mostrá-lo em sala de aula) chamada “Encontro Virtual”, com roteiro de Leonardo Armond. Logo após, lemos a reportagem Na hora de terminar o namoro, adolescentes preferem a internet e evitam o cara a cara, de Anderson Santiago.

Discutimos, em seguida alguns aspectos positivos e negativos em torno desse comportamento. A atividade proposta foi a criação de uma história em quadrinhos que 1) daria continuidade àquela que eles leram no início da aula, ou 2) retratasse um término de namoro via internet.

A maioria dos alunos gostou da atividade, cujo resultado final foi bastante satisfatório.

Obviamente, dei liberdade, durante toda a aula, para que os alunos olhassem os livros, e fizessem o empréstimo dos mesmos.

A aula 7 foi um tanto mais estressante. Estava programada a apresentação do trabalho proposto na aula 5, que era a elaboração de cartazes com um produto ainda não inventado, listando suas vantagens e desvantagens. Apenas 3 duplas apresentaram. Alguns esqueceram o trabalho em casa, outros deram alguma desculpa para apresentar na próxima aula.

Como previ que algo assim aconteceria, dei prosseguimento ao meu planejamento, adiantando o conteúdo da aula seguinte.

Analisei dois anúncios publicitários e mostrei como eles utilizam elementos visuais e verbais para nos persuadir. O trabalho, a partir disso, foi a produção de um “anúncio publicitário sincero”: os alunos deveriam escolher um produto já existente e anunciá-lo com o objetivo de vendê-lo. O problema é que tanto as coisas boas quanto as possíveis coisas ruins daquele produto precisariam aparecer no anúncio.

A turma estava bem dispersa e, dessa vez, não consegui atrair a atenção de todos. Na próxima aula, continua a produção do anúncio publicitário, que terá, ainda, uma fase de reescrita orientada por mim.

Fim do Estágio no Ensino Fundamental

Para finalizar nossa série sobre a primeira grande jornada de um(a) professor(a), é bom refletir sobre o papel do estágio em uma licenciatura: os avanços que representa, os conflitos que se manifestam e são solucionados, as perspectivas que dele se desprendem.

Ensinar, para mim, sempre foi uma necessidade. Apesar de ter percebido que precisava ser professor só 1 ano após terminar o ensino médio, transmitir conhecimento sempre foi algo natural em minha vida, seja na escola, onde frequentemente era o monitor ou ajudante da professora, seja em trabalhos voluntários em que, aos 15 anos, ensinava xadrez para estudantes do ensino fundamental, seja no meu primeiro ano de trabalho com informática, em que eu estudava muito a fim de modificar tudo que fosse possível com base em alguma teoria, escrevia em fóruns especializados e até num blog – que acabou quando resolvi deixar aquele mundo dos chips para adentrar no universo da educação.

Com o estágio, pela primeira vez estive em uma posição formal de ensino na qual era chamado professor. Essa posição permitiu-me, em primeiro lugar, confrontar a minha visão da educação com a minha prática docente. Ou seja, eu pude testar minha adaptação à realidade de uma escola pública com base na visão da educação que eu já tinha, não com o objetivo de verificar se estava certa ou errada, mas de analisar como seria minha relação e a relação que eu estabeleceria entre a teoria, a prática e o meu próprio pensamento como professor.

Essa percepção é algo primordial a qualquer pessoa que pretenda fazer algo pela educação.

Em segundo lugar, ser chamado de professor sanou aquela necessidade da qual falei no início, que é algo essencial a qualquer um que pretenda ser chamado professor. Um legítimo educador, para mim, deve ser aquele que tenha, sob a forma mais íntima, essa necessidade de ensinar, precise disso para que sua vida faça sentido, seja plena. Um legítimo educador precisa depender totalmente, a nível existencial mesmo, do desejo de mudar a realidade que o cerca.

Para você que não tem esse desejo ou não acredita que possa realizá-lo, por favor vá fazer outra coisa. Não é de você que a educação precisa.

Minha turma não foi excepcional como algumas, não fez festinha de despedida na última aula como algumas, não me presenteou como flores ou bombons como algumas, mas me deu dois presentes que para mim foram muito mais valiosos: a certeza de que quero fazer isso para o resto da vida e o pedido em coro “Professor, fica com nós até o fim do ano?”

Baixe aqui meu relatório de Estágio do Ensino Fundamental Completo, com todos os planos de aula e materiais que utilizei.

Estágio no Ensino Médio

Na reta final do curso de Licenciatura em Letras, o Estágio III em Língua e Literaturas de língua portuguesa é a continuação natural da prática iniciada semestre passado no Ensino Fundamental.

O Ensino Médio constitui uma experiência bastante diferente para um professor iniciante, pois, além de o conteúdo precisar ser trabalhado de forma diferente — agora sim a estrutura da língua, a gramática, adquire um destaque maior — , a faixa etária dos alunos também exige uma abordagem diferente por parte do professor, que lida agora com adolescentes e todos seus conflitos.

A estrutura da disciplina é  a mesma do Estágio II: o estagiário deve escolher uma turma, observar ao menos 2 períodos ministrados pela professora titular e elaborar planos de aula baseados em uma temática que julgue interessante para aquela realidade. Tais planos devem compor 20 períodos de aula, divididos em:

  • 4 h/a para usos da língua a partir de gêneros textuais;
  • 4 ou 5 h/a para leitura e interpretação de gêneros textuais;
  • 1 h/a para produção textual;
  • 1 h/a para reescrita da produção textual;
  • 1 h/a para leitura dos textos produzidos;
  • 8 ou 9 h/a para literatura.

No momento que escrevo este texto, acabo de ministrar meus dois primeiros períodos de usos da língua. Minha turma é de 1º ano, composta por 28 alunos. Ao contrário daqueles da 7ª série do semestre passado, esses são bem mais disciplinados, participativos e maduros, o que, me parece, vai permitir um trabalho muito mais rico.

Os conteúdos de que devo abordar são Coerência e Coesão, em gramática, e o Romantismo, em literatura. Para isso, escolhi a temática culturas urbanas para guiar nossas aulas, ou seja, as conhecidas tribos dos jovens. Nesse sentido, selecionei textos como reportagens, notícias, poemas e contos que tratem (ou ao menos tenham elementos que tornem possível uma relação) de emos, góticos, skatistas, rappers e vários outros desses grupos com os quais os jovens costumam se identificar.

O objetivo é tratar dessas culturas urbanas como manifestações sociais que se desenvolveram através de uma série de fatores históricos, que serão analisados em aula através de textos, imagens, e muito diálogo. Evidentemente, através do conhecimento desses grupos, muitas vezes rivais, pretendo ao menos amenizar o preconceito que muitos têm em relação aos jovens de outras tribos.

Nesse semestre, pretendo novamente expor minhas experiências em cada uma das aulas. A inovação vai ser a publicação, junto com tais experiências, dos planos de aula completos, com todo o material utilizado, para você que é professor e gostaria de testar, modificando a seu gosto, minhas propostas de ensino.

Tenho certeza que poderemos compartilhar muitas coisas boas para, juntos, contribuirmos com a educação em nosso país.

Aprenda como escrever um relatório e depois baixe os modelos que estão ao longo deste artigo.

A Turma Ideal

No semestre passado, quando fiz estágio em uma turma de 7ª série do Ensino Fundamental, enfrentei um grupo extremo em questão de disciplina. Houve professores que disseram ser a pior turma já vista em sua carreira. No entanto, para quem se lembra, entrei lá ignorando tais comentários e o trabalho foi muito satisfatório.

Dessa vez, pelo contrário, estou num grupo com pouquíssimos problemas disciplinares, que se mostra bastante interessado e participativo nas minhas aulas, fazendo todas atividades propostas e mostrando capacidade de opinar sobre as diversas questões que levanto ao longo do período. Tenho uma daquelas tão sonhadas, até míticas, turmas ideais.

Como um professor deve encarar esse tipo de turma?

Comemorar, agradecer aos céus e continuar dando suas aulas planejadas antes de, efetivamente, saber de sua fortuna, seria uma atitude normal, mas passiva.

O modo ativo de encarar a situação é ver aquele grupo como um desafio ainda maior que o proporcionado por problemas disciplinares.

Ora, se tenho alunos interessados em aprender, devo lhes proporcionar esse aprendizado indo além daquilo que o sistema de ensino costuma esperar deles, principalmente quando sabemos que o nivelamento é feito por baixo. É preciso subir um degrau, dois, três, até que vejamos qual o verdadeiro limite.

O professor de uma turma ideal precisa ser tão interessando e ativo quanto seus alunos, do contrário ele só contribuirá para a manutenção daquele sistema que espera pouco e está satisfeito com pouquíssimo.

Pergunte, levante novos assuntos, veja a opinião deles, mostre vários lados de uma mesma questão, polemize, compare, ironize, expanda, aprofunde, faça exercícios mais difíceis, desafie, argumente, exija, comprometa, resgate, trace paralelos históricos, explique, deixe explicar, entenda e deixe entender.

Permita que seus alunos usufruam de toda a sua capacidade de ver o mundo sobre os mais diversos ângulos, refletindo e formando opiniões sobre cada um deles. Esse é o verdadeiro desafio.

A literatura como realidade paralela

Após as aulas iniciais do Estágio III, que eram referentes à matéria de língua portuguesa coesão e coerência, passamos para a parte que sempre considero mais rica na relação estabelecida pelos alunos com a disciplina: a literatura.

“Alunos interessados por literatura?”, você pergunta. E eu respondo que sim, que meus alunos envolveram-se de tal forma com a obra trabalhada que passaram a discutir situações do livro como fazendo parte não apenas de uma obra de ficção, mas de uma realidade paralela perfeitamente possível.

Drácula, de Bram StokerDe forma a fazer a devida relação com a temática do plano de unidade, o livro que escolhi foi O Drácula, de Bram Stoker, um clássico que podemos chamar de tataravô dos best-sellers vampirescos de hoje em dia.

Todo o trabalho feito nas primeiras aulas serviu, além de tudo, para contextualizar a obra e dar as primeiras pinceladas sobre a história, o que se mostrou ser uma ótima forma de motivação à leitura.

 

Planejei ler os dois capítulos iniciais, divididos, cada um, em duas partes. Como tenho uma turma ideal, não ouvi nenhuma reclamação quanto ao tamanho das divisões (cerca de 5 páginas de texto), mas, pelo contrário, ouvi pedidos para que pudéssemos ler mais em cada aula ou ler mais que dois capítulos apenas.

O método que utilizei envolve a leitura silenciosa dos alunos seguida por minha leitura em voz alta, ambas acompanhadas de um fundo musical que sirva para criar o ambiente de mistério que o texto exige (uma das músicas que utilizei foi Sonata ao Luar, de Beethoven, e aproveitei para falar um pouco sobre o grande gênio da música).

Um fator importante é tornar a leitura em voz alta do professor um elemento que saliente o valor artístico da obra — entonação adequada para cada situação, voz firme e levemente diferente para cada personagem, pausas para momentos de suspense, etc. — tudo para realmente valorizar a experiência estética que a literatura proporciona.

O retorno dos alunos, com já falei, foi excelente. Uma das atividades que solicitei após a leitura do capítulo 1, por exemplo, foi a escrita de uma carta para o protagonista, Jonathan Harker, na qual o aluno deveria aconselhá-lo sobre como proceder a partir daquele momento.

A turma inteira se empenhou na atividade: trocaram ideias, leram criticamente o texto dos colegas, discutiram alguns pontos já lidos, enfim, mergulharam na realidade paralela que lhes foi apresentada.

Nesse sentido, minha resposta também acolheu a ideia da hiper-realidade: além de corrigir o texto, respondi carta por carta como sendo o próprio Jonathan Harker, o que causou um grande alvoroço na aula seguinte, pois todos queriam ler sua carta e a resposta recebida.

Foi um dos momentos mais emocionantes desde que vislumbrei a possibilidade de me tornar professor de literatura.

Baixe aqui meu relatório de Estágio do Ensino Médio Completo, com todos os planos de aula e materiais que utilizei.

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor de Literatura e História da Arte, pós-graduando em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e fundador do blog Lendo.org.É casado e mora em Bento Gonçalves-RS.

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