Diário de um professor estagiário – A literatura como realidade paralela
Após as aulas iniciais do Estágio III, que eram referentes à matéria de língua portuguesa coesão e coerência, passamos para a parte que sempre considero mais rica na relação estabelecida pelos alunos com a disciplina: a literatura.
“Alunos interessados por literatura?”, você pergunta. E eu respondo que sim, que meus alunos envolveram-se de tal forma com a obra trabalhada que passaram a discutir situações do livro como fazendo parte não apenas de uma obra de ficção, mas de uma realidade paralela perfeitamente possível.
De forma a fazer a devida relação com a temática do plano de unidade, o livro que escolhi foi O Drácula, de Bram Stoker, um clássico que podemos chamar de tataravô dos best-sellers vampirescos de hoje em dia. Todo o trabalho feito nas primeiras aulas serviu, além de tudo, para contextualizar a obra e dar as primeiras pinceladas sobre a história, o que se mostrou ser uma ótima forma de motivação à leitura.
Planejei ler os dois capítulos iniciais, divididos, cada um, em duas partes. Como tenho uma turma ideal, não ouvi nenhuma reclamação quanto ao tamanho das divisões (cerca de 5 páginas de texto), mas, pelo contrário, ouvi pedidos para que pudéssemos ler mais em cada aula ou ler mais que dois capítulos apenas.
O método que utilizei envolve a leitura silenciosa dos alunos seguida por minha leitura em voz alta, ambas acompanhadas de um fundo musical que sirva para criar o ambiente de mistério que o texto exige (uma das músicas que utilizei foi Sonata ao Luar, de Beethoven, e aproveitei para falar um pouco sobre o grande gênio da música). Um fator importante é tornar a leitura em voz alta do professor um elemento que saliente o valor artístico da obra — entonação adequada para cada situação, voz firme e levemente diferente para cada personagem, pausas para momentos de suspense, etc. — tudo para realmente valorizar a experiência estética que a literatura proporciona.
O retorno dos alunos, com já falei, foi excelente. Uma das atividades que solicitei após a leitura do capítulo 1, por exemplo, foi a escrita de uma carta para o protagonista, Jonathan Harker, na qual o aluno deveria aconselhá-lo sobre como proceder a partir daquele momento. A turma inteira se empenhou na atividade: trocaram ideias, leram criticamente o texto dos colegas, discutiram alguns pontos já lidos, enfim, mergulharam na realidade paralela que lhes foi apresentada. Nesse sentido, minha resposta também acolheu a ideia da hiper-realidade: além de corrigir o texto, respondi carta por carta como sendo o próprio Jonathan Harker, o que causou um grande alvoroço na aula seguinte, pois todos queriam ler sua carta e a resposta recebida.
Foi um dos momentos mais emocionantes desde que vislumbrei a possibilidade de me tornar professor de literatura.







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André