Coisas que uma menina de 8 anos pode lhe ensinar sobre conhecimento e poesia
Eu sempre odiei diminutivos. Minha mãe diz até hoje “André, come mais um bifinho; Vem comer uma sopinha; Leva um sanduichinho de lanche”.
ODEIO. Não sei, deve ser algum troço de infância que alguma daquelas teorias psicológicas deve explicar.
Mas enfim, o fato é que minha irmã sempre achou uma graça o fato de eu ficar irritado com os diminutivos e, baseada nisso, aos oito anos de idade — hoje ela tem doze — fez uma poesia cujo personagem principal sou eu.
Inho, não!
Andrezinho tem três anos
e já se acha bem grandão,
é por isso que não gosta
de diminutivos, então.
Não suporta que lhe digam:
“dá a mãozinha” (em vez de mão),
Ou que mandem: “a boquinha
abre e come coração!”
Inho, inha, ito, ita
São para ele humilhação.
O diminutivo o irrita
o Andrezinho prefere um “ão”!
Chama “gala” a galinha,
não aceita correção,
“Escrivana” a escrivaninha,
e o vizinho é “vizão”.
Chama “coza” a cozinha
O toucinho é “toução”
É “campana” a campainha
e ele próprio é o “Dézão”…
Juliana Gazola
Nada mal para uma menina da segunda série, não?
Quando eu li isso, além da gargalhada automática, impressionou-me a profundidade de entendimento de um conteúdo tão denso — flexão de grau (para a escola tradicional); processo derivacional (para a gramática moderna) — por, repito, uma menina de oito anos.
Isso mostra, mais uma vez, como a utilização de idéias concretas, a produção de sentido e um tema relacionado com a vida do aluno podem contribuir maravilhosamente com o entendimento da matéria.
É importante observar que essa produção de sentido de que falo é o principal objetivo que TODO professor de língua e literatura deve ter. Os alunos chegam ao ensino médio, vestibular, ou faculdade sem saber nada de interpretação porque ninguém nunca estimulou-os ou indicou-lhes o caminho para interpretar um texto ou situação.
Da mesma forma, em tudo que escrevemos, devemos prezar pela concretude, uma das qualidades essenciais do texto. Uma vez que lidamos com situações concretas, fica muito mais fácil a relação com nossa realidade; a produção de sentido dá-se de forma espontânea a partir de nosso conhecimento prévio.
A aprendizagem é garantida.

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