Preconceito Linguístico: O Português do Brasil apresenta uma unidade surpreendente

Dando início a série de artigos nos quais vamos desmistificar diversos aspectos da língua portuguesa, quero dizer que este mito, o de homogeneidade linguística, é possivelmente o mais grave entre todos.

Mesmo nos meios científicos e acadêmicos, entre grandes gramáticos e estudiosos da língua, ainda há a idéia de que no Brasil se fala um português totalmente uniforme, sem dialetos. Sinceramente, eu não sei onde essas pessoas vivem, pode ser em qualquer lugar, menos no Brasil.

O fato é que os dialetos existem em enorme quantidade em nosso país, e não estou falando de sotaques. Não precisamos sequer ir muito longe para perceber que, em diferentes cidades, às vezes muito próximas de nós, há palavras diferentes para designar coisas diferentes. Querem um exemplo?

A palavra peixeira.

No nordeste, ela serve para designar um tipo de faca de grande porte, usada geralmente em trabalhos agrícolas. Já, aqui no sul, uma peixeira significa, no máximo, uma mulher que vende peixes, nada mais.

Mas vamos além. Lá no interior do nordeste, em uma família pobre, de nenhuma forma alguém vai falar em peixeira, mas sim em pexêra. E alguém aí acha que está errado? Que as pessoas vão pensar: “Pexêra? Mas de que diabos ele está falando?”. É claro que não, todo mundo vai entender perfeitamente.

E qual o problema de tudo isso, vocês me perguntam?

Como nós podemos pensar em uma educação ideal, no momento em que a escola tenta impôr suas normas linguísticas como se todos os 170 milhões de brasileiros falassem uma língua comum?

Para Marcos Bagno (2002, p.16):

Embora a língua falada pela grande maioria da população seja o português, esse português apresenta um alto grau de diversidade e de variabilidade, não só por causa da grande extensão territorial do país — que gera as diferenças regionais, bastante conhecidas e também vítimas, algumas delas, de muito preconceito –, mas principalmente por causa da trágica injustiça social que faz do Brasil o segundo país com a pior distribuição de renda en todo o mundo. São essas graves diferenças de status social que explicam a existência, em nosso país, de um verdadeiro abismo linguístico entre os falantes das variedades não-padrão do português brasileiro — que são a maioria da nossa população — e os falantes da (suposta) variedade culta, em geral mal definida, que é a língua ensinada na escola.

A escola precisa entender que o aluno chega lá falando o português de sua comunidade, que geralmente é uma variedade não-padrão, e que seu papel é acrescentar – e não substituir — a norma culta da língua ao aprendizado da criança.

Infelizmente somos um país em que boa parte da população não tem acesso à educação. Essa privação, faz com que muitas pessoas não consigam usufruir de todos seus direitos, exatamente pelo fato de não conhecerem o português padrão.

Um exemplo real e que acontece todos os dias por todo o Brasil? Em uma entrevista de emprego, diversas empresas dispensam candidatos qualificados e competentes, simplesmente por não utilizarem a norma culta ao falar.

Nosso país será cada vez mais elitista, se as instituições de ensino e a própria população “culta”, não admitir a existência de milhares e milhares de línguas portuguesas.

Referências

BAGNO, Marcos. Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. São Paulo – SP, Edições Loyola, 2002, 18 ed.

Preconceito Linguístico: O Português do Brasil apresenta uma unidade surpreendente by

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor de Literatura e História da Arte, pós-graduando em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e fundador do blog Lendo.org.É casado e mora em Bento Gonçalves-RS.

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