Receba Atualizações

Assinantes do Feed

Junte-se aos milhares de leitores que assinam o feed ou recebem os textos por e-mail.

Lendo.org | Livros, literatura e resenhas

Pesquisa personalizada

Pela humanidade literária

Hoje acordamos máquinas. Despertamos com um barulho estridente que liga automaticamente nosso piloto automático, iniciando mais uma vez o processo que chamamos de rotina, mas que poderia facilmente ser denominado sequência produtiva. Já não pensamos, fazemos; não questionamos, obedecemos; não refletimos, concordamos; não andamos ou falamos, dirigimo-nos; não amamos, temos relações afetivas.

Pela humanidade na Literatura

Ao mesmo tempo em que nos tornamos androides, escravos de nós mesmos, há quem questione a validade do ensino das ciências humanas como algo sem fins práticos, produtivos, ou objetivos, e nesse questionamento a literatura costuma ser o principal alvo daqueles que não conseguem enxergar além da tela de seus computadores e de suas pretensas ciências exatas que, como a filosofia constatou há muito tempo, só são exatas por serem abstratas.

Na sociedade pós-moderna, ao contrário do que pensam os cavaleiros do apocalipse literário, a literatura assume um papel que vai muito além da propagandística “viagem” ou do fantasmagórico “mundo fantástico” que ela pode criar. Essa ideia de mundo imaginário, apesar de importante para leitores experientes, acaba por reafirmar o conceito, às vezes doentio, de fuga do real – um sentido prático que a literatura não necessita e que, aliás, faz proliferar livros de autoajuda nas prateleiras das livrarias. Literatura não é fuga, é encontro; uma forma de termos contato e de entendermos nossas facetas mais íntimas, nossos comportamentos mais inesperados, nossas reações mais previsíveis. As nossas e as dos outros, pois é no outro que constituímos nossa identidade e passamos a conhecer melhor o ser humano que somos.

Nesse sentido, há diversos gêneros literários capazes de nos lembrar ininterruptamente de que, por trás daquele monte de páginas, existe uma vida – uma vida com seus conflitos, seus prazeres e seus pesares.

Mas certamente nenhum deles é tão intenso como o gênero autobiográfico.

Solo de Clarineta vol. 1 - Érico Veríssimo

Revivendo as memórias de uma personalidade modelo, somos levados a refletir não apenas sobre simples fatos cronológicos de sua vida, mas também sobre nossa própria postura perante o mundo, nossas vivências e comportamentos em situações das mais diversas. Somos outra pessoa após acompanhar, por exemplo, a trajetória de vida de Érico Veríssimo em seu Solo de Clarineta, livro de memórias no qual o autor de O Tempo e o Vento, expõe de forma vívida e sonora as personagens que fizeram parte de sua vida e como suas relações com cada uma delas vieram a formar, antes de um dos maiores escritores brasileiros, o homem que vê a própria vida como um grande concerto no qual a falência da família, a separação dos pais, as dificuldades para estudar e trabalhar, a falta de perspectivas, e profundas reflexões sobre o ato de escrever contrastam com fatos caricatos da infância, leituras maravilhosas, idas ao cinema, experiências no internato, a felicidade e a agonia das primeiras publicações, viagens pelo mundo, sucesso repentino, casamento e filhos.

Não pense você, contudo, que uma simples narração de fatos acontecidos é suficiente para criar uma obra de arte da envergadura de Solo de Clarineta. Os acontecimentos em si, aliás, são elementos secundários na narrativa que prima por um teor artístico que acaba por criar, em muitas passagens, um ambiente que beira o ficcional – ou ao menos nos faz refletir sobre a impossibilidade de narrar a Verdade de qualquer episódio de uma vida, já que tudo passa pelo filtro de nossa interpretação, de nossa visão de mundo. Ao longo da narrativa, muitos assuntos são abordados com um toque metafísico bastante incomum, principalmente para uma literatura sul-riograndense e toda sua tradição construída em torno do macho guerreiro, imperador do pampa, que dificilmente admitiria que suas palavras “como que se desfaziam em geada no ar”, ou metáforas semelhantes das quais Érico se utiliza.

Portanto, é essa possibilidade de representar as notas mais graves, bem como as mais agudas, sem descuidar-se dos meios-tons, muito bem explorada por Veríssimo e vários outros escritores, que torna a literatura um meio (e não, como muitos querem, uma mecânica ferramenta) de manter humana uma sociedade cujos valores aproximam-se cada vez mais de uma desumanidade maquinal e mórbida, regida por padrões de produtividade, metas e estatísticas, ao invés de metamorfoses de sentimentos, valores universais ou bilhetinhos para a namorada.

5 Comentários

1. por paula mello em
Jul132010, às 10:11am

André, que delícia de post, tão bom quando vc escreve assim. Eu pensava que tudo isso só acontecia com a História, mas vejo que todas as ciências humanas passam pela má vontade dos que se dizem “exatos”. Exatos em quê? Só se for na rigidez de fórmulas que eles mesmos, vez por outra, admitem estar erradas… Vivemos um mundo desconhecido ainda, tal qual o próprio homem. A máxima de Sócrates continua mais importante do que nunca, só sei que nada sei, e essa é a grande viagem que a Humanidade precisa querer fazer, mas que só vai conseguir quando se olhar no espelho com honestidade.
Érico Veríssimo é sempre uma grande aventura. Adorei a dica e vou colocar na lista de leituras.
E as cruzadas tb estão ótimas. Enfim, qualidade e conteúdo para mais de metro.
Boa semana!

2. por André Gazola em
Jul132010, às 10:49am

Paula, fico muito feliz que goste desse tipo de post :)

E você tem toda razão, a humanidade cada vez mais se encaminha para o “saber tudo”, quando na verdade isso nunca será possível.

Obrigado, e boa semana!

3. por Michely Looz em
Jul132010, às 19:37pm

Olá André!
Nossa! Tirasse palavras de nossas bocas…hehe
A humanidade acha que tem o poder de saber, o que na verdade é quase que uma ironia. O mundo tem que querer saber, e isso já basta por hora.
Como a Paula mesmo disse, esse tipo de coisa só irá acontecer quando a humanidade olhar-se no espelho com honestidade.
É como diz meu colega de noites Jostein Gaarder, “pois quando a gente entende que não entende alguma coisa, é que a gente está prestes a entender tudo”.
Sem mais…
Parabéns pelo post.
Abração

4. por Jorge Leberg em
Jul132010, às 20:38pm

“(…) uma sociedade cujos valores aproximam-se cada vez mais de uma desumanidade maquinal e mórbida, regida por padrões de produtividade, metas e estatísticas (…)”

Nossa, me identifiquei muito nessa tua crítica. Trabalho no IBGE e, portanto, lido todo expediente com algumas de tais culminâncias dessa sociedade dita pós-moderna em que vivemos. E as ciências exatas só se arrogam a tal posto por serem abstratas, como você mesmo frisou, classificação que tem se desconstruído com o tempo: alguns estudiosos já defendem a possibilidade da Matemática não ser deveras uma ciência exata, e leis/conceitos da Física Clássica foram demolidos em partes pela Teoria da Relatividade de Einstein, dentre outras. As contradições da vida podem ser encaradas poética e filosoficamente como um reflexo das próprias contradições do universo, estas desnudadas por teorias como a própria de Einstein (inclusive existe uma partícula, perdoem-me a ignorância por não saber seu nome e tampouco explicá-la melhor, que contradiz leis da Física por ocupar o mesmo espaço de outros corpos; a luz é onda e partícula simultaneamente; etc).

Aliás, a própria ciência – não propriamente a exata – é aceita segundo noções de validade científica, e não de verdades indissolúveis. É o método científico, uma teoria/tese vale enquanto não surgir outra mais completa ou que explique mais satisfatoriamente um fenômeno, não raro contradizendo a anterior (quebra de paradigmas).

Aliás, quando você se referiu aos cavaleiros do Apocalipse literário, não apenas me lembrei daqueles que “profetizaram” e ainda “profetizam” o fim do romance (e/ou da literatura como a concebemos), mas da renovação do romance (pós-)moderno e do fato de que a literatura ainda continua firme e forte. Até Nostradamus se equivocou, não?

5. por Elaine em
Jul142010, às 10:23am

Concordo plenamente com você, André. É triste constatar a existência da marginalização literária no meio da sociedade, um mal que começa pela mecanização dos processos originados do moderno sistema informatizado e globalizado que temos hoje. Escravos deste sistema, nos tornamos menos humanos e mais robóticos com certeza, como consequência a inversão dos valores, e também, a literatura entra neste “bolo”…uma pena.

bjs

Escreva um comentário

Caros(as) leitor(as)

Seus comentários são muito bem-vindos e para que o convívio entre nós seja aprazível – mesmo quando discordarmos – antes de escrever, leia o que segue:

Não serão publicados: comentários anônimos ou com apelidos grosseiros; comentários escritos todo em MAIÚSCULAS; comentários escritos de forma incompreensível, um exemplo, todo em "miguxês"; comentários com ofensas pessoais; comentários com propagandas e spam; comentários referentes a outro post que não este.

As opiniões expostas nos comentários são de responsabilidade de quem as escreveu. Obrigado.

André

Lendo.org - Literatura e Resenhas de Livros ©2006-2010

Todos os direitos reservados - Não copie sem prévia autorização