Pela humanidade literária
Hoje acordamos máquinas. Despertamos com um barulho estridente que liga automaticamente nosso piloto automático, iniciando mais uma vez o processo que chamamos de rotina, mas que poderia facilmente ser denominado sequência produtiva. Já não pensamos, fazemos; não questionamos, obedecemos; não refletimos, concordamos; não andamos ou falamos, dirigimo-nos; não amamos, temos relações afetivas.

Ao mesmo tempo em que nos tornamos androides, escravos de nós mesmos, há quem questione a validade do ensino das ciências humanas como algo sem fins práticos, produtivos, ou objetivos, e nesse questionamento a literatura costuma ser o principal alvo daqueles que não conseguem enxergar além da tela de seus computadores e de suas pretensas ciências exatas que, como a filosofia constatou há muito tempo, só são exatas por serem abstratas.
Na sociedade pós-moderna, ao contrário do que pensam os cavaleiros do apocalipse literário, a literatura assume um papel que vai muito além da propagandística “viagem” ou do fantasmagórico “mundo fantástico” que ela pode criar. Essa ideia de mundo imaginário, apesar de importante para leitores experientes, acaba por reafirmar o conceito, às vezes doentio, de fuga do real – um sentido prático que a literatura não necessita e que, aliás, faz proliferar livros de autoajuda nas prateleiras das livrarias. Literatura não é fuga, é encontro; uma forma de termos contato e de entendermos nossas facetas mais íntimas, nossos comportamentos mais inesperados, nossas reações mais previsíveis. As nossas e as dos outros, pois é no outro que constituímos nossa identidade e passamos a conhecer melhor o ser humano que somos.
Nesse sentido, há diversos gêneros literários capazes de nos lembrar ininterruptamente de que, por trás daquele monte de páginas, existe uma vida – uma vida com seus conflitos, seus prazeres e seus pesares.
Mas certamente nenhum deles é tão intenso como o gênero autobiográfico.
Revivendo as memórias de uma personalidade modelo, somos levados a refletir não apenas sobre simples fatos cronológicos de sua vida, mas também sobre nossa própria postura perante o mundo, nossas vivências e comportamentos em situações das mais diversas. Somos outra pessoa após acompanhar, por exemplo, a trajetória de vida de Érico Veríssimo em seu Solo de Clarineta, livro de memórias no qual o autor de O Tempo e o Vento, expõe de forma vívida e sonora as personagens que fizeram parte de sua vida e como suas relações com cada uma delas vieram a formar, antes de um dos maiores escritores brasileiros, o homem que vê a própria vida como um grande concerto no qual a falência da família, a separação dos pais, as dificuldades para estudar e trabalhar, a falta de perspectivas, e profundas reflexões sobre o ato de escrever contrastam com fatos caricatos da infância, leituras maravilhosas, idas ao cinema, experiências no internato, a felicidade e a agonia das primeiras publicações, viagens pelo mundo, sucesso repentino, casamento e filhos.
Não pense você, contudo, que uma simples narração de fatos acontecidos é suficiente para criar uma obra de arte da envergadura de Solo de Clarineta. Os acontecimentos em si, aliás, são elementos secundários na narrativa que prima por um teor artístico que acaba por criar, em muitas passagens, um ambiente que beira o ficcional – ou ao menos nos faz refletir sobre a impossibilidade de narrar a Verdade de qualquer episódio de uma vida, já que tudo passa pelo filtro de nossa interpretação, de nossa visão de mundo. Ao longo da narrativa, muitos assuntos são abordados com um toque metafísico bastante incomum, principalmente para uma literatura sul-riograndense e toda sua tradição construída em torno do macho guerreiro, imperador do pampa, que dificilmente admitiria que suas palavras “como que se desfaziam em geada no ar”, ou metáforas semelhantes das quais Érico se utiliza.
Portanto, é essa possibilidade de representar as notas mais graves, bem como as mais agudas, sem descuidar-se dos meios-tons, muito bem explorada por Veríssimo e vários outros escritores, que torna a literatura um meio (e não, como muitos querem, uma mecânica ferramenta) de manter humana uma sociedade cujos valores aproximam-se cada vez mais de uma desumanidade maquinal e mórbida, regida por padrões de produtividade, metas e estatísticas, ao invés de metamorfoses de sentimentos, valores universais ou bilhetinhos para a namorada.



A Ilíada e a Odisséia, de Homero
As flores do mal, de Charles Baudelaire

Ulisses, de James Joyce
Édipo Rei, de Sófocles
Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes
A Divina Comédia, de Dante Alighieri
Escreva um comentário
Caros(as) leitor(as)
Seus comentários são muito bem-vindos e para que o convívio entre nós seja aprazível – mesmo quando discordarmos – antes de escrever, leia o que segue:
Não serão publicados: comentários anônimos ou com apelidos grosseiros; comentários escritos todo em MAIÚSCULAS; comentários escritos de forma incompreensível, um exemplo, todo em "miguxês"; comentários com ofensas pessoais; comentários com propagandas e spam; comentários referentes a outro post que não este.
As opiniões expostas nos comentários são de responsabilidade de quem as escreveu. Obrigado.
André