Paz Guerreira, de Talal Husseini
Durante meu curso universitário tive um contato bastante precário e num nível bastante acadêmico com filosofia. Falou-se de Platão, Kant, Nietzsche, e alguns outros, com suas contribuições para a educação e para a literatura, sempre de modo bem teórico. Assim, nada foi visto em relação ao sentido prático da filosofia, que na sua origem, na antiguidade clássica, era o que realmente importava.
Certo dia, visitando a biblioteca pública da minha cidade, encontrei um panfleto curioso de uma instituição chamada Nova Acrópole, informando ser uma escola de filosofia à maneira clássica.
Era um prato cheio para um literato recém saído da universidade.
Fui até o local indicado no panfleto, na data e hora em que seria dada uma aula inaugural-demonstrativa do curso desenvolvido pela escola. Era uma sala pequena e simples. A professora mostrou-me a pequena biblioteca com diversos títulos magníficos — todos de filosofia, obviamente — e explicou-me sobre o que se tratava no curso e o que era a Nova Acrópole.
Minha surpresa foi grande quando soube que aquela instituição, fundada em 1957, existe em mais de 50 países, contando com mais de 10 mil membros ativos e centenas de milhares de simpatizantes! A Nova Acrópole, através de seus cursos, busca ser um local onde é possível compartilhar ensinos sobre diferentes tradições espirituais e filosóficas da humanidade, recuperando assim, o ideal clássico da filosofia como meio para se viver uma existência mais humana e completa. Seu fundador, o professor Jorge Angel Livraga Rizzi, dedicou a vida à fraternidade entre os indivíduos e os povos, ao combate da miséria material e moral de seus contemporâneos e à defesa da liberdade de consciência e de expressão onde estivessem ameaçadas. São esses mesmos ideais que a escola vem mantendo e disseminando até hoje.
Nem preciso dizer que resolvi fazer o curso de primeiro nível e que estou gostando bastante, afinal esses princípios estão alinhados à teoria da humanidade literária a qual sou adepto e desenvolvi ao longo de diversos textos, acadêmicos ou não.
Outra coisa que descobri é que a Nova Acrópole possui publicações próprias — inclusive uma revista muito boa chamada Esfinge. A mais recente dessas publicações é um livro que ganhei da minha professora e que me surpreendeu bastante: Paz Guerreira, de Talal Husseini.
Para resgatar o que há de humano no próprio ser humano — o objetivo principal da escola — é preciso destacar algumas das características que acabaram ficando para trás na sociedade atual. É a partir daí que surge a ideia do caminho das dezesseis pétalas, uma metáfora utilizada ao longo do enredo como forma de representar cada um desses valores: humildade, admiração, força, liderança, obediência, nobreza, honra, cavalaria, retidão, coragem, respeito, regulamento, paciência, valor, determinação e destino.
Não pense você, no entanto, que se trata de mais um daqueles livros que tentam lhe ensinar questões comportamentais através de conceitos repetitivos e contraditórios. Ao longo dos desesseis capítulos de Paz Guerreira você será levado a um universo épico comparável àquele representado em O Senhor dos Anéis, onde conflitos milenares e missões impossíveis permeiam duas realidades paralelas em que sonho e realidade se confundem para culminar com uma grande batalha que decidirá o destino da humanidade.
Com referências filosóficas abundantes para um olho mais acurado — eu, que não tenho grande conhecimento da área, identifiquei conceitos de Platão e Kant, principalmente — , a questão dos valores é tratada de forma representativa nas ações e decisões das personagens, o que leva o leitor a reflexões bastante necessárias hoje em dia, como, por exemplo, o problema do egoísmo em conflito com o altruísmo.
Paz Guerreira é um livro no qual a combinação de fantasia, aventura e filosofia deu muito certo no sentido de alcançar seu propósito, que é apresentar a filosofia de forma menos acadêmica ao leitor médio, permitindo que outras formas de pensar sejam difundidas e, quem sabe, adotadas por muitos que desejam um mundo em que o ser humano tome consciência de tudo aquilo que o diferencia de um animal irracional.
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- Leia mais: Paz Guerreira, livro brasileiro, é comparado a Harry Potter e O Senhor dos Anéis
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