Oriente, Ocidente, de Salman Rushdie

O texto a seguir é uma colaboração da leitora Violeta Ayumi Teixeira Araki.

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Tal qual muitos de seus personagens, o anglo-indiano Salman Rushdie parece também um ser preso entre dois mundos segregados. Nasceu na antiga Bombaim, atual Mumbai, mas passou boa parte da vida num país de princesas muito belas e rainhas muito velhas chamado Inglaterra. O Oriente nunca saiu de seu sangue e se manifestou de alguma forma em todos os seus romances. O Ocidente, porém, estava logo ali, visível pela janela, e Rushdie não pôde ignorá-lo a cada frase que escrevia. A tentativa de junção desses universos totalmente distintos aparece em várias de suas obras (Em Fúria, por exemplo, a vivência nos EUA é contada a partir da visão de um oriental).

Ao que tudo indica quando ameaçados de morte os escritores aprimoram ainda mais seu talento literário. Foi o que  aconteceu com Rushdie. Depois de lançar o polêmico Os Versos Satânicos em 1989, foi sentenciado à execução no Irã, por ter desrespeitado o profeta Maomé, segundo os fundamentalistas da época. A bem da verdade, a obra pretendia condenar o islamismo devido a condutas violentas de repressão a cristãos e hindus. Salman Rushdie afirmava, através do livro, já não crer mais na religião muçulmana. Teve que viver anos se escondendo, período, aliás, em que se penitenciava por não ser um pai presente para o filho pequeno. Haroun e o mar de Histórias nasceu justamente da necessidade que tinha de explicar a seu filho porque não tinha mais liberdade de expressão. Foi somente em 1998 que o Irã retirou a sentença contra o autor. Mas o tempo de escuridão há havia passado. “Eu consegui atravessar o túnel do medo e hoje levo uma  vida normal”, disse Rushdie em entrevista à Veja em 2003*. Nessa mesma entrevista o autor revela o que pensa a respeito dos romances literários. Para ele, o gênero tem uma flexibilidade única, por sua imensa capacidade de registrar a realidade e comenta ainda que os grandes romances  informam mais do que qualquer outro documento sobre uma determinada época da sociedade.

livro Oriente, Ocidente, de Salman Rushdie Oriente, Ocidente une todos os requisitos necessários para que não se consiga largá-lo. A comicidade, o drama, a  pretensão, o inesperado. Em cada história cresce a ânsia de saber logo o que vai acontecer com seus personagens insólitos. Entre uma fina ironia e uma técnica de narração precisa, espontânea, Rushdie parece tecer suas frases num ritmo delirante. É com este  mesmo toque suave de sarcasmo que vai sendo construída a ponte que pretende ligar os dois pólos, o misterioso e  indecifrável mundo oriental e o nem sempre civilizado, mas de qualquer modo inflexível mundo ocidental. São ambos  fascinantes e contados sob uma ótica poética e adjetivada parecem ficar ainda mais caracterizados.

A obra é o tipo do que se pode chamar de “drama cômico”. Podemos refletir sobre os dramas pessoais dos personagens de  cada conto, mas ao tempo as risadas são inevitáveis porque as situações se mostram exageradas e eles fazem coisas pelas  quais não esperamos. “Descobriram-no dirigindo na contramão da estrada, a cem por hora, com uma daquela máscara de dormir nos olhos”.  Mesmo que não sejam tão implausíveis, muitas passagens do livro nos remetem sobretudo a uma identificação. Afinal, quem  nunca se sentiu pressionado a decidir entre dois caminhos? “E o passaporte libertou-me, de várias maneiras.  Permitia-me ir e vir, fazer escolhas que não as que papai desejaria. Mas também eu tenho cordas em torno de meu pescoço,  puxando para esta e aquela direção, Oriente e Ocidente, os laços apertando, ordenando: escolha”. A derradeira mensagem  de Rushdie é essa mesma. Seja por um lado ou outro, todos nós temos que escolher o rumo a seguir.

*entrevista publicada na edição de Veja n°1802, de 14 de maio de 2003.

Citações do livro

(…) aqueles olhos fizeram mal ao tubo digestivo dele.

No luminoso teatro de sombras das labaredas, todos nós parecíamos insanos.

Aos dezesseis anos a gente não ouve o sussurro do pai em nosso sangue.

(…) uma jornada na contramão da escuridão.

(…) e as quentes e escuras marés do oceano índico subiam toda noite por suas veias.

(…) ele iria encontrar outra forma de erguer uma ponte entre o aqui e o acolá, entre minhas alteridades, meu duplo não  pertencer. Naquele mundo de mágica e poder, parecia existir a espécie de fusão de visões de mundo, européia ameríndia  oriental nas quais eu desesperadamente queria acreditar.

Naquelas caixas de delírio encontrei centenas de páginas sem destinatário certo e incompletos discursos contra o  universo em geral.

Se você senta num escritório não tem sequer a mínima idéia de como é o mundo real. O mundo dos feitos, das coisas que  são feitas e que também podem ser desfeitas. O mundo da vida e da morte.

A tragédia não é a maneira como alguém morreu. É a maneira como alguém viveu.

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor de Literatura e História da Arte, pós-graduado em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e fundador do blog Lendo.org.

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