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O futuro digital das revistas culturais: um estudo

Infelizmente não é no Brasil. A Fundación Alternativas, da Espanha, acaba de publicar um estudo sobre as revistas culturais e o mundo digital. Não se trata de discutir sobre quem as lê ou não, mas sim em estudar de que maneira se pode incentivar a leitura no meio digital.

O trabalho entitulado “El Futuro Digital de las Revistas Culturales” (pdf) foi realizado por María Trinidad García Leiva.

Algumas de suas conclusões mais importantes apontam a necessidade de conseguir financiamento para o desenvolvimento dessas iniciativas, assim como a de gerar índices que nos permitam conhecer sua difusão e uso.

Complô anti cultural

Aqui no Brasil, ao meu ver, as revistas culturais impressas são de qualidade muito boa, mas eu não vejo movimentos de divulgação das editoras, que muitas vezes são as mesmas. Em qualquer livraria, as revistas ficam escondidas, debaixo de pilhas e pilhas de “Vejas”, “Caras” e “Playboys”.

Vejamos uma lista de algumas que gosto, com seus respectivos preços e periodicidades:

O preços são praticamente iguais às demais revistas e o conteúdo muito melhor e até mais amplo. Agora eu pergunto: por que as livrarias escondem-nas do público? Às vezes eu penso que há um “complô anti cultural” nesse país, não é possível. “Ninguém compra?”. Compra sim, mas precisa saber que existe.

Agora vejamos uma lista de algumas revistas digitais (e independentes), com seus respectivos preços e periodicidades:

A qualidade dessas revistas não deixa nada a desejar em relação às impressas. Muitas são até melhores, com opiniões mais pessoais, longe da censura cultural imposta por algumas editoras.

Mas adivinhe o que acontece? Acertou. Há pouquíssima divulgação e nenhum incentivo.

Ser uma publicação independente significa, em primeira instância, muito trabalho e dedicação. O que acaba fazendo muitos desistirem exatamente devido ao fluxo tremendo de trabalho.

Vou citar o exemplo da Revista Malagueta, da minha amiga Renata Miloni e do Alex Sens Fuziy. A idéia da revista é incentivar novos escritores, visando uma renovação do cenário literário, no qual, segundo os editores, não existe mais preocupação em publicar o que é bom, mas sim em publicar textos de pessoas famosas, “os bons”.

Ótimo, é uma idéia fabulosa, a revista começou com periodicidade mensal, com textos de qualidade muito alta e assim continua até hoje, que já está na sexta edição. Só que também foi anunciada a modificação da periodicidade para bimestral.

Isso não é um problema para o leitor, é claro. Concordo que assim os textos serão mais lidos e “absorvidos”, mas me corrijam se eu estiver errado, o motivo principal da mudança é a quantidade insuportável de trabalho.

Imagine o trabalho de duas pessoas:

  • Procurar gente para escrever, a cada edição;
  • Aguardar, confiando na palavra de desconhecidos, que os textos sejam enviados;
  • Ler e analisar todos os textos, enviando sugestões de mudança para cada autor;
  • Ler e analisar a versão com as mudanças;
  • Diagramar, separar e distribuir o conteúdo;
  • Inserir no site.

E o trabalho recomeça, no mesmo dia, para cuidar da próxima edição. Duas pessoas dão conta disso? É claro que não. E quantos leitores reconhecem esse trabalho? Poucos. E dos que reconhecem, quantos fazem algo pra ajudar, ao menos na divulgação? Menos ainda. E assim segue o processo cultural no Brasil.

Então chegamos ao ponto principal: a falta de integração. Não ocorre apenas no mercado editorial, não ocorre apenas na internet, mas ocorre em todas as áreas. Se quisermos hoje, levar adiante um empreendimento cultural, não podemos vê-lo como um produto que tem concorrentes, mas sim como um complemento para os produtos já existentes.

Vocês editores precisam unir-se em prol do objetivo que todos têm: difundir a cultura. E não isolar-se para um círculo de leitores e escritores específicos. Ajudem-se. Desenvolvam estratégias de divulgação, definam pautas em comum, discutam, criem, mudem!

Quem sabe assim nós comecemos a engatinhar no sentindo de chegar ao nível cultural de países como a Espanha, que preocupam-se sobremaneira com esses aspectos, tendo como resultado uma comunidade muito grande e engajada em todos os projetos culturais, on-line ou não.

11 Comentários

1. por Renata Miloni em
Out192007, às 14:33pm

O comentário ficou enorme, publico mesmo assim. Mas antes: gostei muito de você ter tocado nesse assunto. :-)

Há pouquíssima divulgação e nenhum incentivo.

Até que a divulgação tem melhorado e o incentivo vai crescendo, mas não é nada que ajude a revista a ficar bem conhecida. Uma coisa que temos usado é a participação de escritores mais conhecidos para incentivar os novos a escrever, a publicar com a gente, a perceber que todo mundo tem uma chance. E é uma forma de atrairmos mais leitores também.

Mas, por outro lado, sofremos um preconceito pesadíssimo por parte das pessoas por aí, a maioria com blogs literários famosos até. Não sei se é o nome da revista (a Copa também sofre um pouco por causa disso), mas o povo sempre sempre sempre olha de lado para nós, achando que estamos aqui de brincadeira, que montamos apenas mais uma revista. Ou então ficam se perguntando de onde saímos com tamanha ambição, se ninguém nos conhece. Nesse mundo, as pessoas precisam ser famosas para trabalhar? Como assim? hehehe Não é assim, a gente leva isso muito a sério. O problema é que essa carga negativa que as pessoas fazem questão de jogar na revista às vezes impede um ou outro passo. Mas isso, creio e espero eu, vai mudar com o tempo. Não deveria ser assim, mas… Brasil.

… o motivo principal da mudança é a quantidade insuportável de trabalho.

Isso está certo em partes. hehehe A gente tem como prioridade a qualidade da revista em todos os sentidos. E fazer as coisas na pressa sempre dá errado, Murphy é companheiro. hehehe
Nem todos os autores publicados são procurados por nós, algumas pessoas mandam seus trabalhos. Sempre recebemos alguma coisa. Essa de confiar em desconhecidos é um perigo, mas até agora o povo tem sido honesto com a gente. Espero que continue assim. :-)

Duas pessoas dão conta disso?

Opa se dão. Na verdade, são três. Meu marido cuida mais da parte de códigos e eu e o Alex selecionamos os textos, convidamos as pessoas e tal. E eu edito os textos. Esse intervalo maior que decidimos colocar entre uma edição e outra é para facilitar nesse ponto também. Mas outra intenção que temos com isso é esperar que mais gente mande mais trabalho.

E quantos leitores reconhecem esse trabalho?

No momento em que cada edição é lançada, vários e vários. Mas creio que nosso trabalho é bem reconhecido. Não é o tanto que gostaríamos, mas é.
Sobre a divulgação, você tem razão, poucos divulgam. Até mesmo alguns (poucos) autores. E sinto que é um pouco daquele preconceito que citei no início.

E não isolar-se para um círculo de leitores e escritores específicos.

Na Malagueta a gente quer é fugir exatamente disso. A cada edição, a revista é divulgada para mais pessoas, chegando a vários tipos de leitores e escritores. Mas ouso insistir naquele preconceito de novo. A gente faz a nossa parte, mas chega uma hora em que somos barrados.

Estamos num país onde esse tipo de iniciativa é o mesmo que nada. Temos bastante trabalho para publicar a revista de graça e, ainda assim, não é valorizada. Cito, também, outro tipo de preconceito. Hoje, a internet é tomada por pseudo-leitores que acham que são donos dos gostos mais refinados. É aquela coisa de virar a cara sem mesmo conhecer. Recebemos isso com uma freqüência enorme.

Então, é isso, acho que nessa questão de união não adianta um ou outro se mover se todo o resto bloqueou a estrada, entende? E se olham tão torto assim, fica difícil uma aproximação.

O ponto principal, André, é bem simples: as pessoas não se preocupam com nada disso.

De novo, gostei mesmo de você ter levantado esses pontos, tocado nesse assunto. Se ninguém prestar atenção no que você disse, o que só confirma minha teoria, pelo menos uma divulgação foi feita. hahaha

Beijos e obrigada.

2. por André Gazola em
Out192007, às 14:59pm

Só por esse comentário seu, meu texto já valeu e muito Renata!

Eu não pensei nesse preconceito de que você fala. Realmente é mais um ponto a discutir. É mais um efeito dos tais “intelectuais literários” que tem por aí.

E quando eu falo de incentivo, eu falo de dinheiro mesmo, de governo metendo a mão, ajudando. Ou até de empresas privadas, mas falando assim, soa até utópico demais, infelizmente.

E por fim, eu sei que as pessoas não se preocupam, mas não custa tentar criar essa preocupação, né?

Boa sorte na Malagueta e parabéns Renata!

3. por Renata Miloni em
Out192007, às 15:07pm

Pois é, eu seria até capaz de falar que a gente nem sonha com a possibilidade de alguém querer investir na Malagueta. Mas nunca se sabe. Da mesma forma que no Brasil esse tipo de coisa simplesmente não tem espaço suficiente, pode acontecer de encontrarmos uma boa alma. hehe

Eu me preocupo bastante com essas coisas. Sinto um desânimo terrível ao perceber que faço parte de uma minoria, mas continuo lutando do meu jeitinho. Alguma coisa precisa ser feita, afinal. Acho que estamos fazendo, mesmo ainda no que se pode chamar de começo. ;-)

Obrigada de novo. Beijos!

4. por Daniel em
Out192007, às 17:55pm

André, eu também adoro ler a Entre Livros. Essa que você citou são muito boas, embora eu só acompanhe mesmo a EL (e as outras, de política). A Cult também é legal, e a Bravo! é um lixo – muito cara e pouquíssimo conteúdo.

5. por Alexandre Kovacs em
Out192007, às 20:04pm

Difundir a Cultura…

Parece uma tarefa absurda e irreal, principalmente levando em conta um país com tantas prioridades emergenciais. Que bom que existem pessoas como a Renata, André e Daisy.

Parbéns a todos que persistem nesta tarefa, mesmo sem nunhum incentivo.

6. por Daisy em
Out192007, às 23:13pm

É, Alexandre, eu, aqui no Rio me envolvo com iniciativas culturais desde 1992, inclusive temos alguns ótimos projetos em Brasília. As Lonas Culturais daqui, por exemplo é um projeto nosso (meu, do Ricardo Affonso e do Carlos Santana) que a prefeitura ‘roubou’ e ficamos a ver navios he he, porém já basta saber que deu certo. São várias Lonas espalhadas pela cidade onde além de apresentações musicais, vez por outra montam-se teatro e saraus de poesia como vc deve saber. A do meu bairro (a última! hehe) talvez fique sob nossa administração cultural.
No campo da literatura, tivemos alguns núcleos de novos escritores e encontros e fóruns de poetas, etc… Por aí vai. E ano que vem estaremos lançando livros de contos com apoio da faculdade Estácio de Sá. Serão 20 novos escritores sendo lançados.
E tudo isso sem ganhar um níquel. Mas compensa e dá prazer saber que fazemos algo por nosso país e principalmente pela arte e a cultura.

Beijos em todos e em especial nessa menina Renata Miloni que, com minha experiência, noto que é mais uma ‘guerreira’ da cultura brasileira.

Boa sorte!!! :)

7. por _Maga em
Out202007, às 23:32pm

André, intrometendo-me no seu trabalho, porque não trasformas o comentário da Renata em um post próprio? Acho que mais gente vai se interessar pelas respotas…

aqui em Londrina temos uma revista cultural a Coyote. ( http://www.digestivocultural.com/blog/default.asp?codigo=976 ) . No link eles estavam comemorando 4 anos, mas agora já comemoraram 5 anos! Também comemoram o patrocínio do PROMIC (programa municipal de incentivo a cultura – com seus prós e contras, eu morro de orgulho de morar em uma cidade que possui seu próprio programa de incentivo a cultura).

Eu gosto demais dessas revistas uma pena que não seja leitora assídua… (por motivos vários…)

beijos

8. por André em
Out222007, às 12:01pm

Oi Maga, as informações da Renata sobre a revista foram realmente ótimas, mas acho que seria exposição demais para a Malagueta, ao fazer um post único. Talvez eu aborde o caso de uma forma mais geral, em breve :)

E eu também não sou leitor muito assíduo e o principal motivo é o preço, hehe.

Beijos

9. por Gilson Camargo em
Dez302008, às 15:24pm

Assino embaixo da análise, com a experiência de quem mantém uma revista mensal independente há cinco anos. Para além da batalha por conteúdo de qualidade e de anunciantes para manter a publicação (já se foram dois apartamentos e muito dinheiro do próprio bolso), o desafio é não cair no lugar-comum e fugir do complexo de vira-lata a que toda publicação independente está sujeita. A concorrência e a sabotagem é enorme e a gente sonha com um projeto de incentivo que possa dar fôlego à publicação. Não para ganhar dinheiro, mas para reinvestir em grandes pautas.
Abraço
Gilson Camargo
Editor – Revista Carta Capilé
São Leopoldo RS

10. por Gilson Camargo em
Dez302008, às 15:26pm

Com o perdão pelos erros de concordância!

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