Novelas de Cavalaria

Quem leu um dos maiores livros da história da humanidade jamais se esquecerá das loucas aventuras de Dom Quixote de la Mancha, seu pajem Sancho Panza e seu cavalo Rocinante contadas por Miguel de Cervantes Saavedra. O autor era apaixonado por novelas de cavalaria (consideradas os primeiros best sellers da humanidade), possuindo em sua biblioteca pessoal diversas obras como: Amadis de Gaula, Palmerin
de Oliva, Palmerin de Inglaterra, Olivante de Laura, Espelho de príncipes e cavaleiros,
Tablante de Ricamonte e Tirante o branco. Novelas de Cavalaria

As novelas da cavalaria eram derivadas de poemas épicos e das canções de gesta Francesas e Inglesas, provavelmente das lendas do rei Arthur e da Távola Redonda. Descreviam cavaleiros de sangue azul que nunca existiam, separados de seus pais na infância e com a missão de fazer justiça no mundo. Estes cavaleiros tinham ideais cristãos, ajudavam reis em desgraça, damas em apuros, libertavam prisioneiros injustiçados, e lutavam contra feras que só existiam na imaginação do autor.

Estes feitos eram apresentados como verdadeiros e chegaram a enganar muitas pessoas. Em pouco tempo, nobres, classe média alta, Santa Tereza, Inácio de Loyola e muitos conquistadores da América traçaram seus caminhos inspirados nas ideias loucas das novelas.

Cervantes, que já conhecia o mundo e era aficionado ao extremo pela leitura deste gênero, soube fazer uma crítica completa sobre o fenômeno narrando Quixote. Este mal conseguiu sair de La Mancha — sua terra — onde pouco depois voltou doente. Mais tarde recuperado, Quixote saiu novamente cada vez mais fora de si, pensando somente em ser igual a aqueles heróis, fiéis aos ideais, batendo sempre de frente com a realidade e dando um exemplo de que cada louco tem em si, o cerne da verdade. Na incansável busca pela justiça acaba perdendo sua saúde física e mental, porém cultivando seus ideais.

Ao lançar seu herói no mundo, Cervantes nos apresentou um filósofo, uma forma de ver que toda moeda tem duas caras, que toda reflexão pode ser válida de acordo com o contexto. Que qualquer bússola que coloquemos em nossa vida atua diretamente sobre o nosso presente. Ao longo da obra não fica claro se ele defendeu os ideais das novelas de cavalaria ou se as expôs ao ridículo, tamanha é a quantidade de situações hilárias e sem nexo com a realidade.

Como crítico literário e admirador desta arte, Cervantes chegou ao ponto mais alto neste gênero nascente: colaborar com a gênese do romance moderno. Fazendo a sátira das novelas de cavalaria, escreveu a mais humana, profunda e bonita de todas, marcando o fim do gênero com o seu melhor trabalho.

Sobre o autor

Alejandro Rubio trabalha em um sebo e é aficionado por novelas de cavalaria.

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor de Literatura e História da Arte, pós-graduando em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e fundador do blog Lendo.org. É casado e mora em Bento Gonçalves-RS.

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