Neve, de Orhan Pamuk

Finalmente criei coragem (sabia? precisa de coragem sim!) para escrever sobre esse livro que provocou, admito, grandes abalos em alguns de meus conceitos: Neve, de Orhan Pamuk

O próprio Orhan Pamuk diz que este é seu primeiro e último livro sobre política, mas não deveria. Apesar de trazer esse assunto espanta leitores, Neve conta a história do poeta e jornalista Ka, um exilado político que vive na Alemanha, mas que volta para sua cidade natal na Turquia, chamada, vejam só: Kars (que significa Neve, em Turco).

Capa do livro Neve, de Orhan PamukKa pretende escrever uma matéria sobre Kars para um popular jornal da Alemanha e também investigar o estranho aumento repentino de suicídios entre as jovens da cidade. Durante a viagem, ele lembra de uma antiga colega chamada Ïpek, uma moça divinamente bela, pela qual ele se apaixona em um piscar de olhos.

O conflito político e religioso é intenso e envolvente, ao mesmo tempo que mistura o romance entre Ïpek e Ka, impregnado com os valores quase exóticos da cultura oriental.

As duas facções principais são os islamitas radicais e os chamados secularistas (ou ateus), que inclusive estão disputando as eleições na cidade. A principal escola – a Escola Secundária – proíbe as moças de entrarem vestindo seus mantos, que são uma marca bem forte de sua religião. É a partir daí que se iniciam as especulações de Ka, que tenta entrevistar familiares das suicídas, apesar de não ter muito sucesso.

Entre as muitas casas de chá de Kars e muita neve, Ka volta a escrever seus poemas, ele se sente inspirado novamente, pelo amor de Ïpek talvez, mas mais do que nunca pelo amor que sente por Deus. O Ka ateu da Alemanha volta a acreditar nesse ser divino quando chega a Kars, volta a querer ser feliz, volta a saber o que é o amor.

Revelando-se apenas no final do livro, o narrador é um amigo de Ka chamado Orhan Bei, que narra a história do poeta quatro anos após sua visita a Kars, relembrando cada um de seus passos, baseado em suas cartas e anotações.

As aberturas de cada capítulo são elementos curiosos, Pamuk usa como título principal alguma fala marcante que esteja por vir, enquanto usa como título secundário o verdadeiro nome do capítulo. É no mínimo instigante.

Outro fato interessante é que apesar de o livro tratar da religião islamita — na qual Deus se chama, na verdade, Alá — esse nome não aparece sequer uma vez no romance e também pouquíssimas vezes o nome do profeta Maomé é citado. Isso me levou a pensar se não foi um caso de censura da tradução — que partiu do Turco para o inglês e daí para as demais línguas. Será?

Trechos do Livro Neve, de Orhan Pamuk

Depois que Ka e Ïpek fizeram amor, ficaram na cama abraçados; por algum tempo, nenhum dos dois se mexeu. O mundo estava envolto em silêncio.

A felicidade de Ka era tão grande que o abraço parecia durar um tempo muito longo. Só isso pode explicar por que ele foi tomado de súbita impaciência e pulou da cama para ir olhar pela janela. Mais tarde, iria considerar aquele demorado momento de silêncio compartilhado como sua mais feliz recordação e se perguntaria por que interrompera tão bruscamente aquela felicidade inigualável, saindo dos braços de Ipek. A resposta é que ele se deixou dominar pelo pânico. Era como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer do outro lado da janela, na rua coberta de neve, e ele precisasse estar lá antes que acontecesse.

“Então do que estamos falando afinal?”, perguntou Necip. “O que Deus, em sua sabedoria, pretende quando me faz pensar tanto em Kadife?”

Com um ar infantil que surpreendeu Ka, ele abriu os grandes olhos verdes, um dos quais iria ser estourado dentro de cinqüenta e um minutos.

“Não sei”, disse Ka.

“Sim, você sabe, só não quer me dizer.”

“Eu não sei.”

“Oh, um escritor devia ser capaz de falar sobre tudo o que é importante”, disse Necip teimosamente. “Se eu fosse um escritor, iria querer falar sobre todas as coisas sobre as quais as pessoas não falam. Você não pode me dizer tudo, só desta vez?”

“Então pergunte.”

“Há uma coisa que todos queremos na vida, não é?”

“É verdade.”

“Então, você pode me dizer o que é?”

Ka sorriu e não disse nada.

“Para mim, é bem simples”, disse Necip com orgulho. “Eu quero me casar com Kadife, viver em Istambul e me tornar o primeiro escritor islâmico de ficção científica. Eu sei quenenhuma dessas coisas é possível, mas mesmo assim as desejo. Se você não ppuder me dizer o que deseja, tudo bem, porque eu o entendo. No futuro serei como você. E meu instinto me diz o seguinte: quando voce olha para mim, vê sua própria juventude, e é por isso que gosta de mim.”

Um sorriso feliz e espero começou a aflorar em seus lábios, causando um certo desconforto em Ka. “Quer dizer que vocÊ seria como a pessoa que eu fui vinte anos atrás?”, perguntou ele.

“Sim. Vai haver uma cena exatamente igual a esta no romance de ficção científica que um dia ou escrever. Desculpe-me, posso pôr a mão em sua testa?” Ka inclinou um pouco a cabeça para frente. Com a facilidade de um gesto costumeiro, Necip pôs a palma da mão na testa de Ka.

“Agora vou lhe dizer o que você estava pensando vinte anos atrás.”

Finalmente criei coragem (sabia? precisa de coragem sim!) para escrever sobre esse livro que provocou, admito, grandes abalos em alguns de meus conceitos: Neve, de Orhan Pamuk O próprio Orhan Pamuk diz que este é seu primeiro e último livro sobre política, mas não deveria. Apesar de trazer esse assunto espanta leitores, Neve conta a história do poeta e jornalista Ka, um exilado político que vive na Alemanha, mas que volta para sua cidade natal na Turquia, chamada, vejam só: Kars (que significa Neve, em Turco). Ka pretende escrever uma matéria sobre Kars para um popular jornal da Alemanha e também investigar o estranho aumento repentino de suicídios entre as jovens da cidade. Durante a viagem, ele lembra de uma antiga colega chamada Ïpek, uma moça divinamente bela, pela qual ele se apaixona em um piscar de olhos. O conflito político e religioso é intenso e envolvente, ao mesmo tempo que mistura o romance entre Ïpek e Ka, impregnado com os valores quase exóticos da cultura oriental. As duas facções principais são os islamitas radicais e os chamados secularistas (ou ateus), que inclusive estão disputando as eleições na cidade. A principal escola - a Escola Secundária - proíbe as moças de entrarem vestindo seus mantos, que são uma marca bem forte de sua religião. É a partir daí que se iniciam as especulações de Ka, que tenta entrevistar familiares das suicídas, apesar de não ter muito sucesso. Entre as muitas casas de chá de Kars e muita neve, Ka volta a escrever seus poemas, ele se sente inspirado novamente, pelo amor de Ïpek talvez, mas mais do que nunca pelo amor que sente por Deus. O Ka ateu da Alemanha volta a acreditar nesse ser divino quando chega a Kars, volta a querer ser feliz, volta a saber o que é o amor. Revelando-se apenas no final do livro, o narrador é um amigo de Ka chamado Orhan Bei, que narra a história do poeta quatro anos após sua visita a Kars, relembrando cada um de seus passos, baseado em suas cartas e anotações. As aberturas de cada capítulo são elementos curiosos, Pamuk usa como título principal alguma fala marcante que esteja por vir, enquanto usa como título secundário o verdadeiro nome do capítulo. É no mínimo instigante. Compre o livro no Submarino Outro fato interessante é que apesar de o livro tratar da religião islamita -- na qual Deus se chama, na verdade, Alá -- esse nome não aparece sequer uma vez no romance e também pouquíssimas vezes o nome do profeta Maomé é citado. Isso me levou a pensar se não foi um caso de censura da tradução -- que partiu do Turco para o inglês e daí para as demais línguas. Será? Trechos do Livro Neve, de Orhan Pamuk Depois que Ka e Ïpek fizeram amor, ficaram na cama abraçados; por algum tempo, nenhum dos dois se mexeu. O mundo estava envolto em silêncio. A felicidade de Ka era tão grande que o abraço parecia durar um…

8.8

pontos, em 10 possíveis.

Avaliação de André Gazola

Confira a avaliação do prof. André Gazola e decida sua próxima leitura!

Linguagem Acessível

9

Preço

6

Diagramação

10

Qualidade do Enredo

10

9

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor de Literatura e História da Arte, pós-graduado em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e fundador do blog Lendo.org.

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