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Minissérie Capitu e algumas citações de Dom Casmurro

Assistindo a bela minissérie exibida pela Globo, Capitu, acabei por relembrar algumas das citações contidas em nosso bom e velho Dom Casmurro.

Lembro que o li pela primeira vez no ensino médio; eu nem sequer podia ser chamado de leitor. Raramente gostava de um livro, mas fiquei fascinado com a inteligência daqueles raciocínios e os mistérios daquela história.

Ao assistir a série, tive arrepios. A impressão é de que o próprio Machado de Assis estava ali a contar a história de Bentinho e Capitu. O figurino, os elementos cenográficos, a trilha sonora, os atores e atrizes, tudo contribuiu para criar um ambiente que a maioria dos leitores deve ter sonhado quando entre as páginas de Dom Casmurro.

Se você quiser saber mais sobre os detalhes da produção, os processos de imersão propostos pelo diretor Luiz Fernando Carvalho e tudo o mais, já está à venda o livro Capitu, que trata exatamente desses aspectos, culminando com a tão aclamada série.

Livro sobre a produção da minissérie Capitu

Dividido em duas partes, o livro apresenta o processo de preparação dos atores e a “história filmada” desse clássico da literatura brasileira. Durante dois meses os atores e a equipe técnica se reuniram semanalmente e assistiram palestras sobre a obra de Machado de Assis: Sergio Paulo Rouanet, Daniel Piza, Maria Rita Kehl, Luiz Alberto Pinheiro de Freitas, Carlos Byington, Edmilson Martins Rodrigues e Gustavo Bernardo. Os textos dessas palestras compõe a primeira parte do livro e ajudam o leitor a entender todas as nuances do romance. Na segunda parte, depois de uma introdução do diretor, as imagens da minissérie e o texto do próprio Machado formam quase que uma fotonovela e contam visualmente a história de amor e ciúme de Bentinho e Capitu.

A música de entrada deve ter chamado a atenção de muita gente. Também a minha. Pesquisei e descobri que chama-se Elephant Gun, da banda americana Beirut. Veja o clip da música, em alta qualidade, no vídeo abaixo:

Quero compartilhar com vocês algumas das citações que me deixaram impressionado na época. Vou aproveitar e ilustrá-las com  imagens da minissérie da Globo, que inclusive usou algumas delas no roteiro.

Imagem  da minissérie da Globo - Capitu

Um coqueiro, vendo-me inquieto e advinhando a causa, murmurou de cima de si que não era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos com as meninas de catorze; ao contrário, os adolescentes não tinham outro ofício, nem os cantos outra utilidade.

Capítulo XII

Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar, tinha orgias do latim e era virgem de mulheres.

Capítulo XIV

Aos quinze anos, há até graça em ameaçar muito e não executar nada.

Capítulo XVI

Imagem  da minissérie da Globo - Capitu

Quantas intenções viciosas há assim que embarcam, a meio caminho, numa frase inocente e pura! Chega a fazer suspeitar que a mentira é tão involuntária como a transpiração.

Capítulo XLI

Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã, somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva. Há nisto alguma exageração; mas é bom ser enfático, uma ou outra vez, para compensar este escrúpulo de exatidão que me aflige. Entretanto, se eu me ativer só à lembrança da sensação, não fico longe da verdade; aos quinze anos, tudo é infinito.

Capítulo L

O que o mandamento divino quer é que não juremos em vão pelo santo nome de Deus. Eu não ia mentir ao seminário, uma vez que levava um contrato feito no próprio cartório do céu. Quanto ao selo, Deus, como fez as mãos limpas, assim fez os lábios limpos, e a malícia está antes na tua cabeça perversa que na daquele casal de adolescentes…

Capítulo LI

Imagem da minissérie da Globo - Capitu

Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

Capítulo LV

A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. Também as há fechadas e escuras, sem janelas ou com poucas e gradeadas, à semelhança de conventos e prisões. Outrossim, capelas e bazares, simples alpendres ou paços suntuosos.

Capítulo LVI

Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos.

Capítulo LIX

Imagem da minissérie da Globo - Capitu

…um dos ofícios do homem é fechar e apertar muito os olhos a ver se continua pela noite velha o sonho truncado da noite moça.

Capítulo LXIV

A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente.

Capítulo LXIV

Imagem da minissérie da Globo - Capitu

Ora, há só um modo de escrever a própria essência, é contá-la toda, o bem e o mal.

Capítulo LXVIII

O destino não é só dramaturgo, é também o seu próprio contra-regra, isto é, designa a entrada dos personagens em cena, dá-lhes as cartas e outros objetos, e executa dentro os sinais correspondentes ao diálogo, uma trovoada, um carro, um tiro.

Capítulo LXXIV

Imagem da minissérie da Globo - Capitu

A máxima é que a gente esquece devagar as boas ações que pratica, e verdadeiramente não as esquece nunca.

Capítulo CXXVII

A vida é tão bela que a mesma idéia da morte precisa de vir primeiro a ela, antes de se ver cumprida.

Capítulo CXXXIII

A alopatia é o catolicismo da medicina…

Capítulo CXLIII

Capitu foi uma grande contribuição e ao mesmo tempo uma grande homenagem à obra de Machado. Além disso, pode servir como um ótimo caminho para apresentar a literatura aos nossos alunos; espero que os professores saibam aproveitar isso criando atividades em sala de aula baseadas na obra de Luiz Fernando Carvalho. (O DVD deve estar à venda em breve)

18 Comentários

1. por Alexandre Lemke em
Dez142008, às 15:30pm

“Ao assistir a série, tive arrepios. A impressão é de que o próprio Machado de Assis estava ali a contar a história de Bentinho e Capitu.”

Claro que esse é o tipo de discussão que não chega a nenhum lugar, mas não vejo problema em iniciá-lo.

Não só não tive a impressão de ser o próprio machado ali a contar a história, como achei que a produção matou qualquer personalidade “machadiana”. Bentinho não parecia um adulto consumido pelo ciúme, parecia um louco psicopata. O uso de músicas modernas e de imagem do presente não conseguiu transportar a obra, simplesmente quebrou o clima. Acho que a idéia era *parecer* inovador em *detrimento* de ser bom.

Desculpa a crítica mal feita, mas estou sóbrio demais para algo mais elaborado :]

2. por André Gazola em
Dez142008, às 15:45pm

Alexandre, acho que aí depende da percepção de cada leitor. Eu, quando li Dom Casmurro, vi exatamente a imagem de um Bentinho psicótico, mesmo. Comprova-se isso pela tentativa de assassinato do filho e diversas passagens que beiram a loucura (falo do livro, a minissérie só o reproduziu).

Quanto às músicas, concordo em parte com você. Tive essa impressão no primeiro episódio, que teve até Sex Pistols na trilha. Apesar disso, acho que a maioria delas, apesar de modernas, não quebraram o clima clássico em boa parte do tempo. A proposta do Luiz sempre foi reproduzir histórias clássicas utilizando recursos avançados de cenografia e sonoplastia. Na minha opinião isso enriquece a produção, afinal, eu não gostaria de ver algo em preto e branco, com imagem ruim, como se fosse um filme do Chaplin em 2008 (adoro Chaplin, mas ele já teve seu espaço).

É bom também pensarmos na minissérie como uma ferramenta social e educacional. Muita gente que a assistiu nunca leu Machado, agora pode ser que leia, já que a visão “atual” que a minissérie passou pode ter quebrado aquela visão de que “Machado de Assis/literatura é chato”.

Enfim, eu acho que conseguiram atingir os objetivos de uma forma muito boa, se não a melhor possível.

Abraços!

3. por JLM em
Dez142008, às 17:27pm

eu não aguentei esperar o dvd, já tenho todos os episódios no pecê. coisas da internet…

4. por André Gazola em
Dez142008, às 17:32pm

Digamos que eu também sou impaciente, Jefferson ;-)

5. por Joice Guimarães em
Dez142008, às 23:05pm

Segue outra citação maravilhosa de Dom Casmurro:
“Não precisa correr tanto; o que tiver de ser seu às mãos lhe há de ir.”

Abs!
Joice

6. por Janaina Amaral em
Dez152008, às 16:39pm

Eu simplismente amei a minissérie… É como se estivesse lendo o livro…

7. por Dálete em
Dez212008, às 11:23am

Oi André,
Adorei o seu post e não vou me estender no excesso de elogios pelo que você escreveu, porque compartilho 100% do que disseste. O primeiro capítulo da série é a materialização visual das primeiras páginas do livro.
Obrigada por compartilhar. Vamos levar isso pra discussão no grupo. Super importante!
Abração e um Feliz Natal pra ti.

8. por Rosâmgela em
Dez272008, às 22:25pm

Excelente minissérie,tocante, nuances poéticas e teatrais, atuações, figurino, trilha, etc…tudo me deixou bastante emocionada. O jogo de trazer coisas atuais, misturadas com o clássico deu um ar “modermo e inovador”. Acredito que até os Machadianos e parnasianos, apreciaram essa bélissima obra de arte, sendo pra mim, a melhor coisa q já vi na rede globo.

9. por Carla Cristina em
Dez292008, às 3:59am

Imagino o quanto foi dificil produzir uma minisserie tao boa, tendo em vista a riqueza do livro do Machado. E claro que para os amantes do livro, dificilmente uma minisserie que tente inovar possa ser considerada a altura da obra original. Concordo com o Alexandre em relacao a alguns exageros na personalidade do Bentinho, nao gostei do fato de ele se mostrar tao melancolico mesmo quando narrava sua infancia, no livro nao foi esta a impressao que tive. Mas a trilha sonora foi excelente, os atores perceberam muito bem o clima da historia, Jose Dias nao poderia ter sido melhor! Capitu tambem, que espetaculo! A primeira cena da sala da casa do Bentinho me deixou maravilhada, tao identica foi a descricao do Machado. Show de bola, fazia tempo que a Globo nao aparecia com algo tao bom.

10. por fernanda em
Abr152009, às 21:02pm

a minissérie foi simplismente PERFEITAAA

11. por Gustavo Rocha em
Mai072009, às 22:14pm

Desculpe-me a franqueza. A minissérie em relação a querer incentivar o público leigo a ler, foi sem dúvida formidável, mas pessoalmente prefiro meus pensamentos e minhas imaginações a respeito do romance. Afinal, é na imaginação que você sai de si sem sair do lugar. Abraços a todos!

12. por Aline Rocha em
Mai172009, às 11:40am

Foi maravilhosa a minissérie , a obra ´´Dom casmurro´´ foi inteiramente preservada . Revelou muito a intensidade dos personagens atraves do comportamento , figurino .
as cenas filmadas com efeito luz e sombra , revelando a parte psicologica conhecida e o mar da alma do desconhecido.. a presença feminina indipensável forte e marcante numa sociedade matriarcal .

muitas pessoas que nao leram o livro, agora talvez tenham curiosidade de ler essa belíssima obra e tirem a imagem de um Machado assim que so escreve livros chatos e difíceis .

13. por Elaine Mascarenhas em
Jun082009, às 14:12pm

Foi mais que perfeita, dava pra acompanhar com o livrooo!!! aff!
=]] e lindaaaaaa e o Bentinho eu imaginava do jeito que eh na serie! e a psicose de Dom Casmurro tbm, jah que parecem ser duas pessoas totalmente diferentes! ;)

14. por Bianca Évelin Ferreira de Menezes. em
Nov272009, às 14:35pm

EU SIMPLISMENTE AMEI A MINISSÉRIE………………..

Bianca Évelin.

15. por walmir avila em
Dez092009, às 16:40pm

embora tardio mando meu comentário… a minisserie foi na sua exencia o que se espera da televisão entretenimento de forma inteligente…. sem falar no elenco que foi incrivel parabens a todos que trabalharam nessa obra.

16. por Breno Marlen em
Abr082010, às 9:19am

essa minissérie foi um lixo.

17. por Socorro em
Mai222010, às 8:57am

Tenho 40 anos e desde os 14 sou ávida em leitura, fiquei impressionada com a maneira que o livro foi exposto na minissérie, o paralelo entre a inocência de Bentinho e a “psicose” de Dom Casmurro existe no livro e foi passado de forma inteligente e perspicaz na telinha.
Parabéns a todo o elenco, até meus filhos adolescentes que acham literatura chata, amaram a minissérie e percebi neles um desejo de conhecer melhor a literatura brasileira.

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