Meu sexto semestre na faculdade de Letras
Está terminado o semestre mais opressor de todo o curso. Meu sexto semestre cursando Letras mostrou-se incrivelmente mais trabalhoso em relação aos demais, já que fiz oito disciplinas, incluindo o estágio. No final, como de costume, os resultados foram muito bons e consegui realizar algumas metas que havia definido no início — como ser convidado para o Colóquio dos Estágios e esboçar em mais de 10 páginas algumas ideias para o mestrado.
Falemos um pouco sobre as disciplinas.
Análise e Produção do Texto Didático

Nessa matéria, como o nome já diz, aprendemos a escrever textos didáticos. Nas primeiras aulas, nos detemos ao aprofundamento de algumas teorias relativas a isso e também à análise de livros didáticos utilizados nas escolas, com o objetivo de verificar sua conformidade em relação àquelas teorias.
Da metade do semestre em diante, o foco foi a criação de material didático por nós, alunos. Em diversos momentos, foi-nos apresentado determinado conteúdo gramatical — como interjeições, por exemplo — e nós devíamos elaborar um material escrito que corresponderia a um capítulo de livro didático, composto por textos para estudo, conceitos, dicas de estudo, questões de fixação, tudo isso. A técnica principal utilizada aqui é chamada de transposição didática, ou seja, a transformação de um texto bastante técnico, como costuma ser o das gramáticas, para algo mais simples, que se aproxime da linguagem do aluno e que parta do texto (notícias, contos, poemas, etc., aquilo que é chamado de objeto concreto, em língua portuguesa) para os conceitos (aquilo que é abstrato).
De uma forma geral a disciplina foi boa. No entanto, achei bastante repetitiva, pois houve várias atividades que seguiam exatamente o mesmo molde explicado acima, mudando apenas o conteúdo a ser trabalhado. É possível que eu e mais alguns colegas achemos isso, pois estamos mais avançados dentro do curso e já conhecíamos boa parte de todo esse procedimento.
Meu conceito final:4
Estágio II em Língua e Literaturas de Língua Portuguesa
Já falei bastante sobre meu estágio na série Diário de um Professor estagiário. Faltou, contudo, falar sobre como foi a preparação dentro da universidade.
A disciplina de estágio começa com uma grande enxurrada de papéis, regras e datas para os estagiários. Na primeira aula tudo isso nos foi apresentado, deixando todos um tanto apavorados, o que deve ser normal. O próximo passo consistiu em ler uma pilha de textos teóricos sobre o ensino de Língua Portuguesa e Literatura (repare que ambas são abordadas juntamente, na mesma disciplina, é por isso que duas professoras dão aula em conjunto no Estágio). A partir desses textos, que incluíam autores como Irandé Antunes, Pedro Demo, Regina Zilberman e vários outros, fizemos dois debates e devíamos escrever uma resenha que serviria como texto teórico para o relatório final
- Leia a minha resenha intitulada A prática docente do professor de língua e literatura
Terminada essa etapa, era hora de iniciar a escrita dos planos de aula. Nessa altura, já sabíamos para qual turma daríamos aula (pois tivemos que observar uma aula da professora titular) e precisávamos escolher uma temática que serviria de fio condutor para nossos 20 períodos de estágio. A temática que escolhi, baseado nas conversas que observei na turma quando fiz a primeira visita, foi Tecnologias: seu brilho e suas amarras, e o conteúdo que a professora titular pediu que eu trabalhasse foi orações coordenadas. Com essas duas informações, escrevi meus planos para 20 períodos de aula, que foram apresentados para aprovação às minhas professoras na universidade, que praticamente não requisitaram nenhuma modificação.
- Leia meu tutorial sobre como fazer um plano de aula
Desde o início do semestre, eu sabia que alguns de nós, estagiários, seríamos escolhidos para um evento chamado Colóquio dos Estágios, no qual os melhores planos são apresentados para alunos de licenciatura de toda a universidade. Evidentemente, um dos meus objetivos foi ser convidado para essa apresentação, o que alcancei exatamente através das minhas aulas sobre orações coordenadas, que, segundo minhas professoras, foram uma abordagem inédita em relação a esse conteúdo. Para mim, foi uma realização muito grande.
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LIBRAS
A Língua Brasileira de Sinais passou a ser parte obrigatória dos currículos de Letras faz pouco tempo. Nessa disciplina, que também é ministrada por duas professoras, uma delas surda, não somos introduzidos apenas a uma nova língua, mas também a uma nova maneira de ver deficiências como a surdez. Descobrimos, além disso, que os surdos têm uma cultura própria, entramos em contato e produzimos materiais didáticos para surdos e ainda vemos que a inclusão não é algo tão desejado assim por aqueles que são incluídos.
Sabe-se que quando aprendemos uma língua em um ambiente formal, acabamos por não praticá-la em sua totalidade, já que é excluída a parte pragmática, a parte situacional de um diálogo. Eu percebi isso quando, já nas férias, a 400Km da universidade, encontrei minha professora surda enquanto passeava pelo centro da cidade de Pelotas. Fiquei muito feliz por ter conseguido conversar com ela através daquilo que ela mesma havia me ensinado. Foi uma forma ótima de concluir a disciplina, mesmo depois de terminada.
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Fonética e Fonologia
Aprender os aspectos fonéticos e fonológicos de uma língua parece bem estranho à primeira vista. O que importa saber que [p], [t] e [k] são consoantes oclusivas surdas e [b], [d] e [g] são consoantes oclusivas sonoras, por exemplo? Demorei um tempinho para perceber que a maioria dos problemas de escrita dos alunos estão relacionados a aspectos de ordem sonora e que a resolução desses problemas torna-se muito mais fácil quando possuímos uma gama de conhecimentos que partem do princípio no qual fonema é a menor parte significativa e abstrata de uma língua.
Uma disciplina bastante técnica, mas muito útil.
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Temas de Teoria e Crítica Literária
Essa foi, sem dúvida alguma, a disciplina em que mais aprendi coisas novas em todo o curso. Com uma bibliografia enorme, digna de uma pós-graduação, segundo a professora, tivemos uma panorama de todas as escolas de crítica literária, desde os formalistas russos, passando pela estilística, new criticism, estruturalismo e pós-estruturalismo, estética da recepção, literatura e psicanálise, sociologia da literatura, até, por fim, os recentes estudos culturais.
Foi algo extremamente trabalhoso, pois tivemos leitura e debates sobre mais de 600 páginas de texto altamente técnico, mas, ao mesmo tempo, incrivelmente produtivo pelo aprendizado e pela base sólida que nos deu para o mestrado.
A bibliografia é tão rica que me sinto obrigado a indicar a você que estuda literatura:
I – A especifidade da Teoria da Literatura e do seu objeto de estudo. A noção de valor.
- CULLER, Jonathan. O que é Teoria?, do livro Teoria Literária. Uma Introdução.
- EAGLETON, Terry. Introdução: o que é literatura?, do livro Teoria da literatura: uma introdução.
- COMPAGNON, Antoine. O Valor, do livro O Demônio da Teoria. Literatura e senso comum.
II. A reflexão teórica soe a literatura no século XIX: percurso teórico-crítico, principais tendências.
2.1 O biografismo, o Impressionismo e o Positivismo
- AGUIAR e SILVA, Vítor M. Origem e desenvolvimento dos modernos estudos de História e Crítica literárias, do livro Teoria da literatura.
- PEREIRA, Lúcia Miguel. Machado de Assis, do livro História da Literatura Brasileira: prosa de ficção – de 1870 a 1920 (aplicação do método biografista à interpretação da literatura).
- ROMERO, Silvio. Segunda fase do Romantismo e seu momento culminante: o indianismo de Gonçalves Dias, do livro Compêndio de História da Literatura Brasileira (aplicação do método Positivista à interpretação da literatura).
- SILVA, João Pinto da. Vultos do meu caminho (aplicação do Impressionismo à interpretação da literatura).
III. A reflexão teórica sobre a literatura no século XX: percurso teórico-crítico. Principais tendências teóricas.
- SOUZA, Roberto Acízelo de. Outras questões, do livro Teoria da literatura.
- CULLER, Jonathan. Apêndice: Escolas e Movimentos Teóricos, do livro Teoria Literária. Uma Introdução.
IV. Teorias Textualistas
4.1 O Formalismo Russo
- AGUIAR e SILVA, Vítor M. O Formalismo Russo, do livro Teoria da literatura.
- TADIÉ, Jean-Yves. Os Formalistas Russos, do livro A crítica literária no século XX.
4.2 O New Criticism
- AGUIAR e SILVA, Vítor M. O New Criticism, do livro Teoria da literatura.
4.3 A Estilística
- AGUIAR e SILVA, Vítor M. O Estilística, do livro Teoria da literatura.
- CÂMARA Jr, Joaquim Mattoso. Cão e cachorro no Quincas Borba. O discurso indireto livre em Machado de Assis. Machado de Assis e as referências ao leitor, do livro Ensaios machadianos (aplicação da estilística à interpretação dos textos literários)
- CÂMARA Jr, Joaquim Mattoso. Contribuição à estilística da língua portuguesa.
- ROTH, Wolfgand. Tendências atuais na estilística. Letras Hoje. Porto Alegre: PUCRS, n. 55, março de 1984.
- MARTÍN, Jose Luis. Crítica Estilística. Madri: editorial Gredos, 1972.
4.4 O Estruturalismo
- AGUIAR e SILVA, Vítor M. A problemática do estruturalismo, do livro Teoria da literatura.
- TODOROV, Tzvetan. Análise estrutural da narrativa, do livro As Estruturas Narrativas.
- LEPARGNEUR, H. Lévi-Strauss e a Etnologia, do livro Introdução aos Estrutralismos.
- SANT’ANA, Affonso. O cortiço, do livro Análise estrutural de romances brasileiros (aplicação do método estruturalista à interpretação de texto literário)
V. Sociologia da literatura
- RICCIARDI, Giovanni. Digressão histórica, do livro Sociologia da Literatura.
5.1 Teorias de orientação sociológica
5.1.1 O Marxismo
- EAGLETON, Terry. Forma e conteúdo. O escritor e o comprometimento em arte, do livro Marxismo e Crítica Literária.
- CANDIDO, Antonio. A literatura e a vida social, do livro Literatura e Sociedade.
- BERTUSSI, Lisana. A cidade e o campo nas novelas de Reynaldo Moura: uma leitura a partir da crítica sociológica, do livro Mestres em Letras (aplicação do método sociológico, com a crítica genética, à interpretação de textos literários).
5.1.2 Estética da Recepção
- JAUSS, Hans R. A Estética da Recepção: colocações gerais, no livro organizado por LIMA, Luís Costa, intitulado A literatura e o leitor.
- ZILBEMANN, Regina. Paralelas que se encontram em algum lugar da teoria. Projetando a noa história da literatura e Helena: um caso de leitura, do livro Estética da Recepção e História da Literatura.
- JAUSS, Hans R. A história da literatura como provocação à teoria literária.
- BERTUSSI, Lisana. Resenha. In: Revista Chronos. Caxias do Sul: EDUCS, 1990. v. 23, n. 2.
5.1.3 Bakhtin e Dialogismo
- FRANK, Joseph. As vozes de Mikhail Bakhtin, do livro Pelo prisma russo: ensaios sobre literatura e cultura.
- PEYTARD, Jean. O autor, o espaço e o tempo do romance, do livro Mikhail Bakhtin: Dialogismo e Análise do discurso.
VI. Psicanálise e Literatura
- TADIÉ, Jean-Yves. A crítica psicanalítica, do livro A crítica literária no século XX.
- SCHNEIDERMAN, Mirian. Psicanálise e poesia, do livro O hiato convexo: literatura e psicanálise.
- PASSOS, Cleusa Rios. As divisas da trajetória: possíveis confluências. Clarice Lispectos: os elos da tradição, do livro Confluências: Crítica Literária e Psicanálise (aplicação do método psicanalítico à interpretação de textos literários)
- GONÇALVES, Robinson Pereira. Percurso do aprendiz: literatura e psicanálise. Sta Maria: UFSM, 1977. (aplicação do método psicanalítico à interpretação de textos literários).
- BETTELHEIN, Bruno. Psicanálise dos contos de fadas (aplicação do método psicanalítico à interpretação de textos literários).
VII. A fenomenologia e Literatura
- RAMOS, Maria Luiza. Considerações teóricas. O elemento poético em Grande sertão: veredas, do livro Fenomenologia da obra literária.
VIII. Pós-Estruturalismo
- EAGLETON, Terry. Pós-Estruturalismo, do livro Teoria da literatura: uma introdução.
IX. Pós-Modernismo/Estudos Culturais
- CEVASCO, Maria Elisa. Situando os “Cultural Studies”, no livro organizado por SCHMIDT, Rita, Nações/narrações: nossas história e estórias.
- CULLER, Jonatthan. Literatura e Estudos Culturais, do livro Teoria Literária. Uma Introdução.
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Linguística Textual
Nessa disciplina, como o nome já diz, o objeto de estudo é o texto. Dessa forma, vimos os conceitos de texto, os tipos de texto (descritivo, dissertativo e argumentativo) e os mecanismos que contribuem para sua formação, como coerência e a coesão.
Basicamente, foi uma retomada de matérias que vimos no início do curso, mas de forma mais aprofundada.
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Universidade e Sociedade
A outrora denominada Realidade Brasileira é uma disciplina que se mostrou muito mais produtiva do que eu esperava. Através de um resgate histórico acompanhado por análises interessantíssimas do professor, pudemos entender melhor vários mecanismos que regem a sociedade de nosso país e que estão por trás da mídia e dos meios de comunicação em geral.
Aprendi uma coisa chamada registros culturais, que são marcas que se fixam no comportamento de uma sociedade devido a forma de evolução histórica que lhe acompanhou, e que esses registros, no Brasil, são:
- Descompromisso x Criatividade
- Progresso x Intervenção
- Utopia x Realização
- Dependência x Autonomia
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Literatura Brasileira III
Na literatura desse semestre estudamos o período do Modernismo. Sob o viés campo-cidade, lemos e analisamos poemas de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Mário Quintana e Vinícius de Moraes. Além disso, ainda estudamos o romance de 30 e o regionalismo através das obras:
- Menino de engenho, de José Lins do Rego
- O quinze, de Raquel de Queiroz
- Vidas secas, de Graciliano Ramos
- Os ratos, de Dyonélio Machado
- Caminhos Cruzados, de Érico Veríssimo
O trabalho final do semestre consistiu em escrever um artigo acadêmico sobre algum tema relacionado ao Modernismo. Minha opção foi analisar as obras de Carlos Drummond de Andrade e do francês Charles Baudelaire sob um viés que, apesar de praticamente inexistente nos estudos literários, vem me intrigando bastante: a heresia. Dessa forma, o título do meu artigo foi A heresia em Drummond e Baudelaire: Literatura e imaginário de uma nova era, cujo resumo é:
A heresia sempre representou uma forma de subversão religiosa ou social vista com maus olhos pelos detentores do poder. Com Baudelaire e Drummond, ela aparece como questionamento das formas de poder vigentes e, seguindo a concepção de modernidade baudelaireana, pode ter sido um elemento fundamental na constituição do imaginário social que possibilitou que novas experiências e visões de mundo rompessem com a chamada tradição. É esse papel da heresia como mecanismo de subversão que o presente trabalho pretender analisar.
Meu conceito final:4
Como você pode ver, foi um semestre bastante longo, lotado de informações e conteúdos novos. Chegando na reta final do curso, já percebo uma evolução bastante grande de conhecimento em relação ao início, o que muitas vezes é difícil de perceber devido àquele sentimento de que “não li muita coisa”, “não sei muita coisa”. É hora de começar a pensar seriamente no mestrado em literatura da UFSC, no qual pretendo ingressar em 2011.
As disciplinas que cursarei no próximo semestre são:
- Estágio III em Língua e Literaturas de Língua Portuguesa
- Estudos Discursivos
- Literatura Brasileira IV
- Literatura sul-riograndense
- História da Cultura
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O Processo, de Franz Kafka
Guerra e Paz, de Leo Tolstoy

Ulisses, de James Joyce
Édipo Rei, de Sófocles
Madame Bovary, de Gustave Flaubert
A Divina Comédia, de Dante Alighieri
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André