Meu oitavo (e último) semestre na faculdade de Letras

Como são dadas as notas na UCS

A trajetória de 4 anos finalmente está chegando ao final. Centenas de livros lidos, de páginas escritas, de discussões travadas dentro e fora da universidade, de reflexões sobre o ensino, de emoções e problemas com as práticas nas escolas.

Com certeza algo que vai ficar na memória pelo resto da minha vida.

Mas pretendo fazer um texto reflexivo mais extenso daqui uns dias. Hoje vou apenas falar das 3 últimas disciplinas que cursei:

Língua Latina

Aprender latim. Soa estranho, não é? Admito que essa não fui uma das matérias mais divertidas do curso — e ainda bem que foi no final, sei de universidades que têm latim no primeiro semestre de Letras — mas não deixou de ser esclarecedora em alguns aspectos. O foco é realmente aprender a língua e toda sua estrutura — sintática, morfológica, fonológica. Estudando isso, você acaba entendendo muito mais o português, principalmente as questões etimológicas.

É uma língua difícil, mas que possibilita, após dominar pelo menos o básico, aprender as demais línguas românicas (ou seja, derivadas do latim) muito mais rápido. A grande dificuldade, só para dar um exemplo, é que além de conjugar os verbos, como fazemos em português, em latim também é preciso “conjugar” (chama-se declinar, nesse caso) os substantivos e adjetivos conforme a sua função dentro da frase. Se uma palavra é sujeito, se escreve de tal modo, se é objeto direto, se escreve de outro, sem contar que também há declinações diferentes se a palavra está no plural ou no singular. Enfim, uma palavra pode assumir até 12 formas diferentes, em latim. No final, percebi que realmente há bons motivos para estudar latim.

Minha nota final na disciplina: 4.

Linguística Românica

Praticamente uma extensão da disciplina de Língua latina. O foco é estudar as línguas derivadas do latim e como elas surgiram, transformaram-se e evoluíram. O início da matéria tem um caráter bastante histórico. Estuda-se a expansão do Império Romano e como isso contribuiu para que o latim se espalhasse por boa parte da Europa, dando origem, depois, às chamadas línguas romance, que depois evoluíram para português, italiano, francês, espanhol, catalão, romeno, sardo e outras. Aliás, você sabia que todas essas línguas surgiram a partir do latim vulgar (ou seja, do latim falado pelo povo) e não do latim clássico? Foi só no Renascimento que, com o resgate da cultura clássica, entraram na língua, por via erudita, palavras derivadas do latim clássico.

A segunda parte da matéria é mais voltada para a cultura lusófona, ou seja, dos países de língua portuguesa. Fizemos um trabalho em que cada grupo estudava um país que tivesse a língua portuguesa como oficial em seu território. Ficamos informados sobre números de falantes e coisas do gênero, mas também sobre aspectos culturais de Brasil, Portugal, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Angola, Macau, Guiné-Bissau e Timor Leste.

Minha nota final na disciplina: 4.

Estágio IV em Língua ou Literaturas de Língua portuguesa

O último dos estágios, que substitui o TCC de Letras na minha universidade. Nesse, o objetivo era desenvolver atividades em um grupo de ensino não-formal, ou seja, fora de uma sala de aula convencional. Podia ser um grupo de idosos, uma ONG, contação de histórias em feiras do livro, um grupo de funcionários de alguma empresa e onde mais a criatividade do estagiário pudesse chegar.

Eu desenvolvi uma oficina dentro da minha universidade, com alunos convidados por mim, chamada A literatura em tempos de microchips e aceleradores de partículas (clique no link para ler mais detalhes sobre ela). Foi, com certeza, a melhor experiência de todo o curso.

Minha nota final na disciplina: 4.

Agora é esperar a formatura dia 12 de janeiro. Enquanto isso, guardar materiais, arrumar livros e selecionar a lista enorme de leituras que agora vou ter tempo de fazer!

Durante essa trajetória, falei muitas vezes aqui no blog sobre mestrado. O fato é que decidi parar pelo menos um ano para digerir melhor todo esse aprendizado, ler muitos dos livros que acabaram ficando para trás e decidir realmente o que quero estudar em seguida — e se preciso da burocracia acadêmica para isso.

Para você que está interessado(a) em fazer Letras ou quer ler ou reler todos os textos em que conto, semestre por semestre, minha história dentro do curso, abaixo estão os links para cada um dos artigos:

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor de Literatura e História da Arte, pós-graduando em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e fundador do blog Lendo.org.É casado e mora em Bento Gonçalves-RS.

Comente!

5 Comments

  1. Estou simplesmente sem palavras!
    Adorei o blog, suas experiências, e esse contato mais profundo com o curso de Letras, já que sou estudante do primeiro ano, pela Uninter.
    Parabéns pelo conteúdo, sinceridade e, principalmente, iniciativa. Boa sorte nessa sua nova carreira!
    Willa Martins – Graduanda de Letras.
    Piracicaba – SP

  2. Ei, André.
    Como já disse recentemente num outro post, acompanhei seus relatos e já os reli duas vezes, portanto, estou convencido em fazer Letras. Contudo…

    Estou me inscrevendo para vários vestibulares e, geralmente, as grades curriculares do curso de Letras variam muito de universidade. Tenho vontade de fazer um que estude Português e Inglês, pois gosto das duas lí­nguas e literaturas, mas me inscrevendo para a UnB, me deparei com um impasse: só possui o curso de Letras Português e Letras Inglês separados. Olhei as duas grades e me apaixonei. Gostaria de estudar a literatura inglesa e norte-americana tanto quanto tenho vontade de estudar a portuguesa e brasileira, então estou super confuso e indeciso. Nenhum dos dois cursos dá brecha í  literatura do outro (Português só tem sua respectiva literatura e o mesmo par o Inglês). E aí­, o que fazer quando se quer o máximo das duas lí­nguas e literaturas? Passar 8 anos me graduando não é uma proposta muito agradável… haha

    Me desculpe pelo desabafo, acabou sendo algo muito pessoal. Mas pensei em vir aqui e ver se você teria alguma sugestão para me dar. Então, existe alguma saí­da mais adequada para mim que não seja a de passar 8 anos na faculdade? Me dê sua opinião, se possí­vel. Estou desesperado! haha

    Desde já agradeço!

    • Herick,

      infelizmente não temos muito o que fazer em relação a isso, pois esse é o perfil exato dos cursos de Letras do Brasil: ou priorizamos radicalmente as produções em lí­ngua portuguesa, praticamente desprezando as outras literaturas, ou estudamos esse termo genério chamado literatura estrangeira e esquecemos das Letras de Camões.

      A solução que encontrei para isso foi estudar num curso de Letras que prioriza a Literatura Brasileira (até porque as universidades buscam professores com essa especialização, principalmente) e depois estudar sozinho as outras literaturas. Se serve como sugestão, eis a dica ;-)

      Um abraço!

  3. Olá André!
    Após ter lido seus posts e tantas informações instigadoras aqui, não podia evitar de fazer um comentário.
    Parabéns por sua iniciativa. É simples, motivadora e gratificante de ler. Através dos seus textos contando suas experiências no curso de letras, fiquei admirada com tanto esmero ao descrever cada perí­odo, estudo, dicas e etc, relacionadas a sua graduação. Sem dúvida, foi uma vivência acadêmica extraordinária. Muito obrigada por todo incentivo direto e indireto.
    Sucesso e muita felicidade.

    Raiza Araujo

  4. Parabéns! A sua iniciativa foi muito louvável, uma verdadeira viagem sobre o curso de letras, pra mim que farei letras, foi uma contribuição e tanto. Abraço e sucesso!