Manifesto da Educação – A Literatura, o Professor e o Aluno
A Educação no Brasil é um caso sério. Nosso sistema de ensino, desde a primeira Constituição, deixa a desejar, para dizer o mínimo. O professor está desmotivado, os alunos alienados e os governantes sequer estão.
Porém, há muitos professores que fazem a diferença, aqueles que apesar de todas as dificuldades ainda conseguem ter e trabalhar com a esperança de que nem tudo está perdido, de que nossos alunos merecem mais do que isso.
Encontrei no Blog Diário da Lulu, um manifesto que relaciona diversos dos aspectos da educação com a literatura, os professores e alunos. Impossível não transcrever alguns trechos e impossível não recomendar que seja lido na íntegra.
O aluno não precisa gostar do livro lido. Inclusive, é livre para odiá-lo.
Eu não gosto dos mesmo livros que meu marido gosta, nem que meus amigos gostam, e há uma série de livros clássicos, que eu sei que são bons e tudo, para os quais não tenho o menor saco, que simplesmente não rolam para mim. Eu amo Tolstói, choro toda vez que leio Anna Karenina mas a maioria das pessoas que conheço acha um porre, especialmente as enormes digressões a vida no campo, deus e a natureza e tal. Por outro lado, do Guerra e Paz, agüento só a parte da Paz, quando chega na parte da guerra e aquelas horas de descrições infinitas sobre estratégias militares, ai que sono. E isso não faz de mim uma leitora nem uma pessoa melhor nem pior, são gostos, ué, mas parece que aos alunos não é concedido o direito do gosto. Eles têm que gostar do que se convencionou que é bom, ou do que os professores gostam, e se isso não ocorre é um problema. Por quê? Normal, não gostar de algo que todo mundo gosta, tem gente que não gosta de chocolate, ué, nem de lasanha, tem que achar Machado de Assis legal?
Ao aluno deve ser oferecido sempre o que há de melhor na literatura universal, passando por todos os gêneros.
Cada vez mais tenho a convicção de que a escola deve sempre oferecer o que há de melhor para os alunos lerem. Meus alunos lêem comigo somente grandes autores e grandes livros, que eu leio e me emociono lendo, que fazem sentido, em excelente português e excelentes traduções. Pode ser Poe, Arséne Lupin, Kafka, Tolkien, Machado, Clarice, Drummond, enfim… Esse ano a oitava pediu até para ler Dostoievski, por que não? Que leiam, que curtam, ou não, mas se lerem uma página e curtirem, já valeu, e não há porque diminuir. Uma página do Dostoievski vale cem do Sidney Sheldon, e pronto. Mas não… pensamos assim:
“Desculpa… você só vai comer batata frita e bife porque é muito novo para experimentar caviar, sushi, Boeuf a la Bourguignonne, carne seca, sei lá.”
Se você decide que seus alunos são idiotas, eles serão, se você decide que eles são super inteligentes, juro, serão também.
Aos alunos deve ser apresentada a maior variedade possível, de gêneros, épocas, estilos. Quadrinhos, ficção científica, terror, romance, poesia, crônicas,comédia, teatro. Dentro de cada gênero, o melhor.
A literatura não é objeto santificado, sagrado nem de culto máximo.
E, por fim, é sempre importante matar esse senso-comum preconceituoso de que leitura é algo inerentemente lindo e que todos devem sempre ler mais e mais e mais. Leitura não faz de ninguém uma pessoa melhor. Leitura é bom pra quem gosta de ler e para quem tem carreiras que dependam de domínio da língua. Dependendo da criança, do seu tipo de inteligência e das suas inclinações, pode ser mais saudável passar seus dias praticando esportes, resolvendo quebra-cabeças, jogando videogames, tocando guitarra, construindo móveis, etc etc, do que passivamente lendo.
Esse mito do valor inerente da leitura só existe porque as pessoas que gostam de ler têm um lobby mais influente do que as pessoas que gostam de passar o dia se bronzeando na praia ou jogando bola em terreno baldio.
Livros inteligentes devem ser tratados com inteligência
Aí você pede para que os alunos leiam, vamos lá, As aventuras do Rei Artur. E marca uma data de prova. E na prova, faz perguntas do tipo: “qual era o tipo de armadura usada pelos cavaleiros quando foram em busca do cálice sagrado?” ou… “de que matéria era feito o cálice sagrado?” ou… “quantos anos tinha o Lancelote quando… ” Oh, pelas barbas brancas de Merlin!!
Genteee… literatura é para ser legal, divertida, bacana, engraçada, emocionante. Não é teste de memória, nem de saber enciclopédico. Vamos lá, conversemos sobre o livro, pensemos sobre as personagens, palpitemos, leiamos juntos os trechos mais legais, encenemos, façamos debates, sei lá. O julgamento da Capitu, “inocente ou culpada?”, já se tornou um clássico nas escolas. Essa nem é A questão do livro, mas os meninos se esbaldam defendendo ou condenando a pobrezinha. Ou discutir impressões sobre o livro, o que sentiu, o que achou, conversar sobre as personagens como quem fofoca: ah.. aquela é uma chata!! Ce viu o jeito como ela fala? E o outro? Eu acho que na verdade ele ama a mocinha, mas está sem coragem de saber… Ou dar questões mais cabeças mesmo, e ver o que sai.O fato é que, muitas vezes, livros inteligentes e alunos inteligentes, são tratados de maneira burra. Ou desconfiada.
Se o aluno não lê nada, mas nada mesmo, é porque, provavelmente, não sabe ler.
Ser alfabetizado não quer dizer saber ler. E muitas vezes, inúmeras vezes, diria que infinitas, quando o aluno chega e diz: odeio ler, nunca li nada na vida que gostasse, aliás nunca li nenhum livro, aliás nem sei porque existem livros, é porque o aluno, simplesmente, não entende aquilo que lê. Não estou falando do aluno que leu e não gostou,não incorporou esse hábito em sua vida, estou falando do aluno que não leu nunca, nada, e não lê de maneira alguma. Se ele não leu nem Christiane F., sei lá, nunca leu nem uma porcariazinha qualquer, nem quadrinhos, nem nadica de nada; se não consegue ler um capítulo, nem o suficiente para entender o contexto geral e dar uma enrolada na prova, há algo de errado.
Os alunos têm direito a excelentes bibliotecas e a livros baratos.
Todo mundo tem direito a bibliotecas públicas, a sebos baratos, a livros baratos. Porque ler se aprende lendo, experimentando, testando, e para isso, os livros têm que ser acessíveis. Simples assim.
Os alunos têm direito a professores ultra bem remunerados e com tempo para dedicarem-se a eles.
Todo professor, por obrigação de ofício, tem que ser um ser pensante e sensível, crítico, exigente, conhecedor de seu ofício e da matéria ensinada, seguro para não transferir suas frustrações pessoais para a relação com os alunos e capaz de se colocar no lugar do outro, percebê-lo, capaz de pensar em cada aluno como um ser vivente, com uma história própria. Todos alunos têm direitos a professores assim, todos os pais e mães querem professores assim para seus filhos, do CEO da empresa multinacional ao faxineiro da mesma empresa. De todos os direitos elencados aqui nesse manifesto, esse é o mais básico e o mais importante. Quando damos dez, doze, sei lá quantas aulas por dia, isso simplesmente não acontece.
Os professores devem sim ser criticados, mas a solução para os problemas que existem tem que, necessariamente, passar por aumento de salário. Sem salário digno para os educadores, não é possível um sistema educacional que seja realmente bom.


A Ilíada e a Odisséia, de Homero
As flores do mal, de Charles Baudelaire

Ulisses, de James Joyce
Hamlet, de William Shakespeare
Madame Bovary, de Gustave Flaubert
A Divina Comédia, de Dante Alighieri
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