Literatura: leitores & leitura, de Marisa Lajolo

Eu já tinha decido antes de terminar o semestre: nas férias, eu ia dar um tempo nas leituras, e ler um pouco mais.

Acabei agora pouco de ler esse simpático livrinho da famosa professora da Unicamp. A surpresa é que ele conseguiu fazer uma confusão tremenda com o conceito que eu tinha de literatura.

Explico. Através de 15 capítulos de conversa direta com o leitor e análise de alguns períodos históricos, juntamente com as diversas formas de literatura que os acompanharam, Marisa questiona aquela visão erudita do conceito de literatura: apenas livros; apenas clássicos; apenas autores “bons”.

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Ela pretende, através da amostra de exemplos literários de 25 séculos, desde Platão e Aristóteles até o mais novo best-seller, mostrar que a literatura não pode ser definida, ou melhor, pode sim, mas somente pelo próprio leitor, individualmente e naquele instante da sua vida.

Com uma linguagem muito leve, beirando, muitas vezes, um papo entre adolescentes, a autora utiliza trechos de músicas, poemas, obras, pichações, cantigas e histórias populares conhecidas para ilustrar que literatura é tudo isso, não apenas aquilo que os círculos acadêmicos preconceituosos vivem nos dizendo.

Ser ou não ser literatura é assunto que se altera com o tempo e desperta paixões.

Até um conceito que é ensinado nas escolas e inclusive na faculdade é desmentido pela autora:

Não é o uso da linguagem que define sua literariedade, mas a relação que as palavras estabelecem com o contexto, com a situação de leitura.

Não se pode falar em distinções rígidas e pré-estabelecidas entre linguagem literária, e por exemplo, linguagem coloquial. O que torna qualquer linguagem literária ou não, é a situação de uso.

Qualquer um que já tenha estudado um pouco de literatura sabe que aí está uma revolução considerável nas bases da teoria literária ensinada nas escolas.

Além de tudo isso, há uma análise da literatura do séc. XX e XXI, coisa que eu não tinha visto em livros ainda. Basicamente, sobre a produção literária atual, diz-se o seguinte:

  • Ocorreu uma globalização da literatura. Nunca fomos tão traduzidos e nunca traduzimos tanto (lembre-se, novelas de TV também são consideradas literatura);
  • Devido ao aumento do mercado, há literatura de todas identidades: infantil, de autoria feminina, negra, indígena, homossexual (Elas sempre existiram, mas agora adquiriram seu espaço, foram desmarginalizadas);
  • Assim, há a expansão e democratização do conceito de literatura;
  • A literatura do séc. XXI é marcada pela metalinguagem e pela intertextualidade.

Pra terminar, uma frase de Fernando Pessoa que ilustra muito bem a idéia da obra, de que não apenas livros devem ser considerados literatura:

Livros nada mais são do que papéis pintados com tinta.

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor de Literatura e História da Arte, pós-graduado em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e fundador do blog Lendo.org.

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