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Literatura Islâmica – Oportunismo?

Sabemos que após aquele surpreendente e inesquecível 11 de Setembro, muitas coisas mudaram pelo mundo. Por aqui, nesse nosso habitat ocidental, além da suspeita “revolução” de Hugo Chávez e seus aliados, um fator chama atenção pelo exotismo e “capitalismo”: O recente boom de livros da cultura Islâmica.

Eu sei que antes da maldita explosão (todas o são), algumas escritoras árabes já se mobilizavam, na tentativa de divulgar ao mundo a insatisfação com sua cultura retrógrada e dogmática. Mas, de alguma forma — e não sou feminista — críticos e formadores de opinião voltam a oprimir essas escritoras. Pelo fato de se estar discutindo por aí a qualidade de romances islâmicos.

En 1978, o estudioso Edward Said lançou o livro Orientalis, no qual defendia uma tese em que o Oriente teria se construido a partir do pensamento ocidental, misturando-se ao leste da Europa, numa “bagunça” de exotismo e inferioridade (!). Este livro foi reeditado pela Companhia das Letras, e pode ser lido ou relido hoje, sob uma outra perspectiva, em meio a este boom editorial islâmico. O mundo ocidental passou a ficar curioso em relação à cultura árabe. (a crase vai cair dentre outras formas ortográficas a partir de 2008).

Eu tive, há alguns anos, o prazer de nutrir amizade com uma família árabe (iraquianos) e o que pude perceber é que, apesar de serem radicais em sua fé e cultura, não abrem mão da honestidade e sinceridade com os amigos e a todos a quem amam. Pude notar que esta tese de Edward Said é muito discutível, a menos que tivéssemos provas concretas — antropológicas e históricas. Mas mesmo assim, está aí uma boa pedida, este livro pode fazer pensar. Até mesmo porque nosso Brasil também tem lá suas distorções no exterior — samba, inferno maravilha do carnaval, mulheres nuas.

Mas se você estiver pensando em escrever um livro sobre a cultura islâmica, aí vão algumas dicas de como escrever um romance exótico:

  • Seu livro deve discutir a condição feminina no Islã. Mostre mulheres infelizes, para comover o leitor.
  • O cenário tem que ser um lugar bem distante, bem fim do mundo. Afeganistão está manjado.
  • Se não houver mártir, vai estar arriscando. Homens -bombas é infalível.
  • Agora, acabe com o sofrimento do protagonista. Ele pode aparecer exilado e feliz numa linda praia do Ocidente (Copacabana?) hehehe!
  • Assine com um pseudônimo masculino, porque tudo indica que o belo movimento feminino literário que timidamente começou lá atrás, caiu por terra (opa! perdoem-me o infeliz trocadilho, ou gafe).

Por acaso meu livro de pensamentos diários de Tolstoi ainda está aqui na mesa. Por curiosidade abri no dia 11 de Setembro:

” A verdadeira fé atrai as pessoas para si não por prometer o bem àqueles que crêem, mas por ser o único meio de escapar não só de todos os problemas, angústias e infortúnios de nossa vida, como também do medo da morte.”

Leon Tolstoi

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4 Comentários

1. por André Gazola em
Jun282007, às 9:30am

Eu estou lendo o que se pode chamar de “marco contemporâneo” da Literatura Islâmica.

Do Prêmio Nobel de Literatura de 2006, Orhan Pamuk: Neve.

Até agora eu estou adorando, exatamente por possuir essas características que vc citou. O islã político, os conflitos, o islã religioso, o ateísmo (ou secularismo, como chamam) e principalmente o papel da mulher naquelas sociedades. Quando terminar eu escrevo uma resenha pra postar aqui :)

Mas eu sempre lembro que a literatura do oriente começou ainda há muito tempo atrás, com as histórias das Mil e uma noites, até evoluir para a crítica social radical que vemos hoje.

Isso é bom, para a sociedade, para a humanidade, para o mundo. :)

Beijos!

2. por Daisy Carvalho em
Jun282007, às 9:53am

Beleza esta informação, vou procurar ler sim. Em vésperas de atropelos apocalípticos, informações contemporâneas são essenciais para toda a compreenção do ser humano.
Bj, André.

3. por Rodrigo em
Jun282007, às 11:08am

Curioso que também vejo esse oportunismo no cinema. Mesmo que marginalizados salas específicas, está surgindo uma série de filmes com este tema…

4. por Daisy Carvalho em
Jun282007, às 12:18pm

É o capitalismo, Rodrigo… neste mundo selvagem tudo se vende. Ainda bem que existem pessoas sensíveis como vc, que tem a boa vontade de entender o drama alheio. Mas falar de cinema para mim é meio suspeito porque sou roteirista e amo tudo de audiovisual… mas vc está certo sim, a qualidade peca e o oportunismo exagera…
bjk,
Daisy.

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