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Contos de Guimarães Rosa

Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa nasceu em 27 de junho de 1908/1967. Não preciso, creio, dizer que este gênio mineiro da literatura brasileira, dominava fantasticamente a manipulação poética de todas as coisas. E em muitas línguas…

Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito � compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.

“Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens.”

(Wikipedia)

Entretanto, com sua simplicidade de bom mineiro que pescava e ouvia as histórias de um pai “contador de causos”, rendeu-nos um maravilhoso e estupendo contador de vidas, com uma narrativa inconfundível e se eu chamasse de perfeita, ainda estaria longe de ter acertado o adjetivo. No meu primeiro semestre – estou no terceiro – fizemos uma “brincadeira” com um conto de Guimarães Rosa a pedido do nosso mestre em Narrativa Luiz Fernando Carvalho. O conto chama-se Soroco, sua mãe, sua filha.

Trata-se da história de um homem simples, Soroco, personagem do Interior, que precisa internar sua mãe e filha que ficaram loucas. Minha missão foi narrar a dor de Soroco, mas em primeira pessoa. Ou seja, eu pude entrar no universo de Guimarães Rosa, com muitos pedidos de licença e apontando meu professor como o culpado. Mas como minha nota foi dez, e não foi a única, considero que o pecado não seja tão grave assim, por isso, vou transcrever meu trabalho e me perdoem leitores, pela ousadia, mas é pelo gênio que faço isso.

Já não era sem tempo e eu vejo que era esse o tal destino de uma loucura, duas doideiras de um só amor meu. Meu compadre tanto que me avisou – “É do sangue, Soroco, não tem jeito não”. Eu no fundo, só e desconfiado me sentia até culpado… mas de que culpa eu era condenado? Só se fosse por não ser também biruta… como minha mãe. E minha filha. E é única e era tão florzinha, pequenininha, linda mesmo, cheirinho de matinho novo. Mas sem mãe, a minha virou a sua e pensei na ocasião – “Nada mal… reclamo nada! Já vi dizer tanta desgraceira nessa vida, um tal de apocalips…sei lá o nome, que pai mata filho, irmão esfaqueia irmão e o mundo até acaba em aguaceira e trovoada, o céu desce pra baixo em fogaréu dos inferno – cruz credo! Olhando assim até que é nada mal mesmo perder as duas para o hospício. “Elas ficam bem”, garantiu o homem do governo. “Não passam fome nem aperto”… Quer saber – essa barba tá roçando… – eu nem mesmo sei nada da vida. Pra que cismar tanto, acabo eu embirutando… e eu lá ia me aguentar por acaso? Ouvir minha própria garganta estremecendo em chirimia de zoar até abelha!… Mas que coitadinhas, perderam o tino. Elas ficam em paz, eu sei. Mas que bicho cismado e egoísta eu que já penso em mim mesmo, sozinho lá no mato, mastigando um mato seco e olhando pro céu firme…saudade! É isso que eu vou sentir… Uma tal de solidão… Que vergonha Soroco! Não é homem não, bicho do mato? Minha mãe e mimha filha se debatendo em ventania insana e eu querendo brisa e companhia… Ora essa! Dá um teu jeito e pronto.

Vou me despedir e acabo logo com isso. Tá todo mundo me olhando. E que raio de jeito eu arrumo pra essa maldita e palhaça lágrima não rolar em minha cara… Nem cuspe eu tenho pra engolir… Que eu to sentindo uma febre me queimando no peito, lá isso é verdade, mas que homem chora eu nunca que ouvi falar por aqui.

Elas estão me acenando um adeus que nem sabem que é adeus pra sempre mesmo. Bato um adeus com a mão no ar, que controle foi embora, minha boca treme o que era pra ser um sorriso. Mas é uma baita duma careta, aposto! E não é que as duas estão cantando a maldita música que tanto me aporrinhava!… Mas agora… minha nossa… até parece prece no entardecer, parece mesmo a hora da Ave Maria… Por que será essa chirimia virou oração? E não é que até o céu parece eu, triste e cinza, seco pra chorar…

O povo todo me olha todinho. Tremo na carne; o trem se vai e eu rodo em meu corpo fraquinho que preciso ir embora. Nada de trem sumindo pra sempre, senão não vejo mais as cara delas, a solidão eu boto é no cabresto que eu sou macho… Mas macho pode cantar e já não ligo se a tal lágrima descer… vai chover mesmo. Ou então eu to suando e… chega! Vou cantar, mas só sei de decorado essa tal chirimia. Mas macho canta. Minha voz é fraca, mas sai tudinho num ritmo certo, parece rádio que repete a mesma música sempre…

Agora se danou: parece oração de romaria do padre Francisco, ou coral de fim de ano…
Ou eu também fiquei biruta ou será toda a voz do povo a me acompanhar nesse meu canto emprestado das duas, as minhas abelhinhas sem memória… Cai lágrima, não sei mesmo te secar, nem nada da vida… Tão mesmo cantando? Se olhar pra trás eu vou saber… mas que me importa isso agora… de certo o céu não caiu e nem o mundo acabou. Elas ficam bem… Vou-me embora. Não vou mais cismar senão esqueço a canção…

16 Comentários

1. por Patrícia H. em
Jul162007, às 22:38pm

Daisy,

Parabéns pela nota 10. Foi merecida. A narrativa tem ritmo, sonoridade. MUito bem escrita mesmo.

Quando eu estudei Guimarães na faculdade, a proposta foi analisar uns contos selecionados de Primeiras Estórias, dentre eles “Soroco…”

Segue aí um trechinho do trabalho:

Sôroco, sua mãe, sua filha, já não é tão fantástico quantos os dois primeiros, mas tem uma cena – os três últimos parágrafos – mais envolvente do que qualquer outra. Sôroco e uma multidão, tomados como num transe coletivo, cantando a canção de loucura que sua mãe e sua filha cantavam. Sôroco tinha naquela canção a sua identidade, apesar de negá-la enquanto as duas ainda estavam com ele. Restou então, assumir tal identidade, cantando o canto de loucura e aceitando a realidade que apesar da ilusória sempre foi dele.

Se quiser ler a análise toda, tá aí o link: http://letrariaa.blogspot.com/2006/04/primeiras-estrias-realidade-ilusria-em.html

Grande beijo!

2. por André em
Jul172007, às 8:28am

Que fantástico Dai! Merecia muito mais que uma nota 10! Talvez até uma publicação!

Adorei! Beijos!

3. por Daisy Carvalho em
Jul172007, às 9:03am

Oi, Pat querida, vindo de você que fez uma análise tão bonita e rebuscada sobre Guimarães Rosa, eu até fico mais calma rs. Li toda sua análise e sobre o conto A Vaca, é mesmo o mais fantático, aquela vaca já me fez alcançar altos picos de emoção.
Quanto ao filme “A terceira margem do rio”, que pena, nunca assisti =[
Obrigada mesmo por suas palavras que para mim fazem a diferença.
Muitos beijos, amiga! :)

4. por Daisy Carvalho em
Jul172007, às 9:07am

Brigada, Dé… Sabe que estive insegura ao publicar mas você, como sempre, me apoiando com tanto carinho.:*
Por isso nossa amizade é tão bonita, não é meu amor… :)

Beijão!

5. por Isadora em
Abr022008, às 9:06am

Parabéns pela nota ! Merecia muito mais :)
Amo Guimarães e amei sua reportagem !
Sucesso !
Muitos beijos, Isa .

6. por Dai em
Abr032008, às 9:49am

Muito obrigada, querida.
Beijos :)

7. por Ester gomes de oliveira em
Ago262008, às 14:42pm

SEM DÚVIDA gUIMARÃES rOSA FOI UM DOS MAIORES ESCRITORES DO BRASIL PARABÉNS PELO ARTIGO !!!!
MERECE NOTA 1000

8. por Prof. Antônio Queiroz Barbosa em
Out172008, às 11:06am

Daisy, bem bolada a “conversão” de pessoa do discurso que você fez. Em se tratando de Rosa, até isso é difícil. Embora suspeito para falar da incrível “mineirice” de Rosa (sou mineiro também, tenho 63 anos e escrevo, já que professor de L. Potuguesa), sempre descubro novidades na obra dele, e você foi mais uma. Parabéns pela idéia (ou pela realização da mesma, caso não seja sua). Não consigo entender como pode ter cabido tanta coisa na cabeça de um só homem! Pena que o gênios e os deuses também morram. Deveriam ser eternos como suas obras… Como ele, vivi no sertão mineiro e conheço bem isso; por isso tenho, também, um sertão dentro de mim, e escrevi:
Quando eu era pequenino,
na fazenda, meu sertão,
eu via meu céu tão perto
no fundo do ribeirão.
Abraços.
Prof. Queiroz – Ponta Grossa-PR

9. por Daisy em
Out172008, às 11:59am

Olá Prof. Queiroz,
Não sei se poderia dizer que a idéia é minha, uma vez que partiu da genialidade de Rosa. Sim, escrevi, ou melhor, cada aluno da faculdade fez lá sua versão.
Longe de vaidades, sinto sim, orgulho de ter tido o prazer de compartilhar esse estupendo homem-deus da literatura.
Sua composição, professor, é quase telúrica, meiga e linda. Escreva sempre.
Muito obrigada pela visita. Caso queira dar o prazer de sua visita em meu sítio onde escrevo ‘por conta própria’ http://www.carva1.wordpress.com
Um forte abraço.
Daisy Carvalho

10. por Rosangela gonçalves em
Mai182009, às 10:29am

Ola,Daisy, adorei sua conversão, sei que é complicado a obra de GR estou fazendo minha monografia e o tema é o misticismo nos contos : “O Espelho,” “A Terceira Margem do Rio,” “A Menina de lá.” Estou sofrendo, mais estou amando.

11. por André em
Nov302009, às 13:08pm

Não gostei do que li, ok!!!!!

12. por Thania em
Mar022010, às 12:08pm

bom, gostei, devia mostrar os contos que ele fez, adorei, devia publicar maias coisas como esta!!!só que com os contos dele

13. por jaqueline silva em
Mar192010, às 8:16am

PARABÉNS os seus livros sâo maravilhosos de se ler vc é nota 10 nos livros gostei muito .ass:jaqueline de acopiara-ceará

14. por milu em
Mai172010, às 8:29am

Eu amo Guimaraes rosa rosa…..*-*

15. por THAIS REGINA em
Mai172010, às 8:35am

adoro, ainda ireiconhecer CODISBURGO se DEUS quiser……….vc é nossa historia.PARABENS

16. por Jéssica em
Ago172010, às 21:09pm

Oiiiiiiiiiii tu é um boi?

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