A Geração Y: desafios para educação dos nativos digitais

Mesa com milk shakes pela metade, com 3 notebooks da marca Apple, dois abertos, um fechado em primeiro plano.

No artigo de hoje, discutiremos sobre a Geração Y, também conhecida como Geração do Milênio ou Geração da Internet, nomes pelos quais tem sido chamado o grupo dos nascidos entre os anos 1980 e 2000, com todas suas peculiaridades e desafios que suas características impõem aos educadores.

Recentemente li dois materiais muito interessantes. O primeiro deles, um artigo publicado em 2005, Understanding and Appreciating the Communication Styles of the Millennial Generation, Jenna Reith (leia na íntegra aqui), determina que as gerações sobrepõem-se temporalmente, de modo que as características de uma estarão presentes, em maior ou menor grau, em outra. Postula, além disso, que essas características referem-se ao grupo como um todo, sendo duvidosa a análise isolada em indivíduos.

O segundo, também de 2005, The Net Generation in the Classroom, de Scott Carlson, define e caracteriza a geração do milênio com traços como:

  1. a facilidade com que usam novidades tecnológicas;
  2. a dificuldade de manter a atenção em algo (e os curtíssimos períodos que conseguem fazê-lo);
  3. a confiança em sua habilidade de fazer diversas coisas ao mesmo tempo.

Esses três tópicos, em conjunto, são uma mudança suficientemente grande para representar uma série de novos desafios para professores que se deparam com 30 integrantes da geração Y em uma sala de aula.

Características da Geração Y

O grupo pertencente à geração do milênio é grande. Nos Estados Unidos, por exemplo, há aproximadamente 80 milhões deles, segundo Howe e Strauss em Millennials Rising: The Next Great Generation (informações sobre o livro no Google Books).

A geração Y e os novos desafios da educação

O bombardeio de informações criou uma geração saturada e ao mesmo tempo confiante de que sabe tudo.

  • Eles são filhos do divórcio — apenas seis em cada 10 foram criados por ambos os pais (segundo o maravilhoso artigo desse centro de pesquisas);
  • Eles cresceram mergulhados na tecnologia, por isso se dão tão bem com ela;
  • Eles não costumam respeitar modelos tradicionais, por isso misturam o trabalho com o lazer frequentemente, por exemplo;
  • Eles são espertos, porém impacientes;
  • Eles esperam resultados imediatos;
  • Eles carregam um arsenal de eletrônicos.

Carlson nota, além das três últimas características, que os membros da geração Y chegaram à escola numa época em que o trabalho em grupo era largamente incentivado, por isso esse estilo de trabalho e aprendizado continua sendo o preferido da maioria.

Vale notar que, por terem mais acesso à educação que seus pais, eles esperam ganhar mais, muito mais, mesmo a partir de seu primeiro emprego.

Desafios na educação da Geração do Milênio

Os indivíduos dessa geração têm sido notados como mais aptos a controlar o próprio aprendizado e escolher métodos tecnológicos e não convencionais para aprender melhor. O crescimento do ensino à distância, com o uso de vídeos ao invés de aulas presenciais, é um ótimo exemplo dessa característica.

As próprias faculdades, ao perceberem esse tipo de mudança em seu público, estão diminuindo o tempo das aulas e aumentando o tempo de discussão em grupo — além de, cada vez mais, ignorar aquele estudante “multitarefas” que fica no Facebook durante as aulas, no fundo da sala.

Tecnologia e a Geração Y: Educando nativos digitais

Estudantes que fazem parte da geração Y não respondem muito bem a métodos tradicionais de ensino. Eles querem interação, elementos visuais e multimídia. Carlson salienta que:

“A geração do milênio consome e aprende através de uma larga variedade de fontes midiáticas, geralmente de forma simultânea. Eles não conseguem prestar atenção por muito tempo e isso se deve não apenas à grande quantidade de informação que recebem, mas também ao fato de não serem incentivados a um comportamento diferente. [tradução livre]”

Têm sido notadas, além disso, suas capacidades de combinar habilidades visuais e espaciais — talvez pelo tempo que passam jogando videogames — e de aprender melhor através da descoberta, não da simples instrução tradicional. Eles são multitarefas, isto é, “possuem a habilidade de mudar sua atenção de uma coisa para outra facilmente”, conforme Oblinger & Oblinger no livro Educating the Net Generation (baixe o livro na íntegra aqui).

A Geração Y e as Redes Sociais

A Geração Y e as Redes Sociais – Você não conseguirá separá-los

Klopfer e seus coautores, em seu artigo de 2009, Using the Technology of Today, in the Classroom of Today: The Instructional Power of Digital Games, Social Networking, Simulations and How Teachers can Leverage Them (leia o artigo completo em PDF) também apontam os efeitos que o contato com a tecnologia produzem na Geração Y.

“Todos os dias, muitos estudantes passam incontáveis horas imersos nas tecnologias mais populares — como Facebook ou MySpace, World of Warcraft, ou Sim City — o que, à primeira vista, parece ser uma perda de tempo, e de neurônios. Porém esses gêneros tecnológicos — redes Sociais, jogos e simulações — merecem um segundo e mais profundo olhar.”

Através dessas tecnologias, alunos tornam-se familiares com algumas das necessidades do mundo contemporâneo. Por exemplo, eles adoram o sistema de “missões” que muitos jogos apresentam, o que não passa de uma forma de interação que necessita pesquisa, planejamento e trabalho em grupo para que o objetivo (do jogo) seja alcançado — o mercado de trabalho precisa de profissionais com esse perfil, ao mesmo tempo autônomos e abertos para trabalho em equipe.

Essas conclusões abrem caminho para o uso de jogos no aprendizado, algo que já testei com sucesso com alunos da oitava série, numa aula sobre mitologia na qual usei o jogo God of War para criar um ambiente de imersão e interação direta com personagens que estudávamos.

Vozes contrárias: uma nova abordagem é realmente necessária?

Nem todo mundo pensa que as necessidades especiais dessa geração devam ser alvo de tantas mudanças — alguns duvidam até mesmo da real existência desse tipo de necessidade. Essa abordagem que parte do princípio de que tudo tornou-se obsoleto e que a geração Y precisa de um sistema de ensino inteiramente novo também parece-me duvidosa, uma vez que todos nós fomos educados por métodos tradicionais — mesmo os pertencentes à geração do milênio, como eu.

A confiança que esses indivíduos têm em sua habilidade de multitarefas, por exemplo, é totalmente infundada, já que sabemos o suficiente sobre a mente humana para entender suas limitações nesse ponto. A maioria das pessoas realmente precisa focar-se em algo para gerar um aprendizado autêntico, não havendo razão nenhuma para os membros da Geração Y serem diferentes do restante de sua espécie.

Embora eles compartilhem características com todas as demais gerações, a Geração Y possui traços bem marcantes, que os diferenciam, sim, das demais, o que não os impede de ter muitos desafios pela frente, em relação à tecnologia.

O que esse grupo de nativos digitais pode alcançar, no entanto, ainda está para ser visto.

Referências: Aprenda mais sobre a Geração Y

Carlson, S. (2005). The net generation in the classroom. Chronicle of Higher Education, 52(7), p. A34-37.

Howe & Strauss. Millennials rising: The next great generation. New York: Vintage, 2000.

Klopfer, E., Osterweil, S., Groff, J., & Haas, J. (2009). Using the technology of today, in the classroom of today: The instructional power of digital games, social networking, simulations and how teachers can leverage them. The Educational Arcade. p. 1-21. Boston: MIT.

Oblinger, D.G. & Oblinger, J., Eds. Educating the net generation. Boulder, CO: Educase, 2005. Disponível em: <http://www.educause.edu/research-and-publications/books/educating-net-generation>. Acesso em 19 dez. 2012.

Pew Research Center. (2010). Millennials: Confident. Connected. Open to Change. Disponível em: <http://www.pewsocialtrends.org/2010/02/24/millennials-confident-connected-open-to-change/>. Acesso em 18 dez. 2012.

Reith, Jenna. (2005). Understanding and appreciating the communication styles of the Millennial Generation. Vistas. Disponível em: <http://counselingoutfitters.com/vistas/vistas05/Vistas05.art70.pdf>. Acesso em 18 dez. 2012.

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor de Literatura e História da Arte, pós-graduado em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e fundador do blog Lendo.org.

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