Dicionários de francês: provérbios, idiomatismos, palavrões e falsos cognatos
Quem acompanha o blog sabe que além de literatura e lingua portuguesa, eu também gosto bastante de lÃngua estrangeira: meu inglês é relativamente bom, consigo ler em espanhol sem muitos problemas e sou apaixonado por francês, apesar de ter começado a estudar há pouco tempo.
O francês é visto por muitos como uma lÃngua romântica, que evoca aqueles cenários fantásticos de Paris: a Torre Eiffel, o palácio de Versailles, e outros. Tanto é visto dessa forma, que quando mostrei o novo PIP (Dicionário de Provérbios, Idiomatismos e Palavrões em uso) para algumas pessoas, a resposta foi: “Palavrões!? Dá pra xingar em francês?”.
Sim, dá pra xingar em francês!
Esse dicionário, organizado pela Cláudia Xatara e pela Wanda Leonardo Oliveira, acaba de chegar na sua segunda edição, agora com novas expressões e muito melhor organizado.
Antes de tudo, é uma ferramenta para tradutores que buscam uma fonte de referência segura para seu trabalho — as expressões idiomáticas, construções de cunho cultural que costumam desviarem-se da lÃngua padrão, ou ao menos da tradução literal, são um dos conteúdos mais difÃceis no aprendizado de lÃnguas. Porém, mais do que um guia para tradutores, ele é uma fonte riquÃssima para estudantes de francês. Com quase 700 páginas, 450 provérbios, 2459 idiomatismos do francês, 1459 do português, 1185 palavrões (!aposto que você não conhece mais do que aqueles, aqueles lá…) e uma bela encadernação em capa dura, como todo dicionário que se preze, a obra está dividida, portanto, nas três partes: Provérbios, Idiomatismos e Palavrões.
Provérbios
Os provérbios são um objeto de estudo linguÃstico-cultural de longa data. Há um texto introdutório que resume esses estudos e relaciona as classificações vigentes com suas caracterÃsticas principais.
Depois disso, começa o dicionário propriamente dito. Os provérbios estão divididos por tema e seguem a seguinte estrutura:
a| A
NOME DO TEMA
Provérbio em Português
Provérbio em FrancêsExemplo de situação de uso em português (fonte da internet)
Exemplo de situação de uso em francês (fonte da internet)
Esse é um fato que achei muito interessante: todos os exemplos de uso são retirados de fontes da internet. As autoras explicam:
Decidiu-se utilizar a web como corpus de grande dimensão, porque nas bases textuais existentes essas lexias complexas e a linguagem tabu normalmente têm baixa freqüência, uma vez que quase sempre ocorrem apenas uma vez em cada texto e é reduzida a quantidade de textos especificamente coloquiais, maior fonte de ocorrência dos fraseologismos da lÃngua oral.
Quanto ao limiar de frenqüência, considerando que:
1. a frequência na web é estimada por milhões de palavras e que em cada página internet uma expressão idiomática (EI) pode ter ao menos uma ocorrência;
2. os dados da União Latina asseguram a existência de 156,1 milhões de páginas em francês da França;
3. os estudos realizados por Evans et al. anunciam que há na Web 56 milhões de páginas em Português do Brasil;
pôde-se determinar que os provérbios, expressões idiomáticas ou palavrões erótico-obscenos considerados frenqüentes para os respectivos nativos são os que apresentaram ao menos 157 resultados diferentes no google.fr e 56 resultados diferentes no google.com.br
Um exemplo direto do livro:
h|H
HOMEM
O homem é o lobo do homem.
L’homme est un loup pour l’homme.Fica uma advertência: para qualquer um que não tenha passado os olhos pelos livros de História a respeito do perÃodo, a descrição das barbaridades cometidas pela Igreja através da venda de indulgências e da exposição de relÃquias pode parecer exagerada. Longe disso. O homem é lobo do homem e é plenamente capaz de tais atrocidades. Mormente se sob a “chancela” de Deus (www.verbeat.org/blogs/eporaqui/arquivos/2004/12/cinematografica.html; acesso em 20/06/06)
Ce livre est un reflet de notre société actuelle, celle dans laquelle nous vivons, et montre une fois de plus que l’homme est un loup pour l’homme. (www.amazon.fr./exec/obidos/ASIN/2070421783; accès le 14/01/06)
Idiomatismos ou Expressões Idiomáticas
Idiomatismos ou Expressões Idiomáticas (EI) são construções da lÃngua que, se traduzidas literalmente, ficam simplesmente erradas. Há fatores culturais e de convivência que definem seu significado.
O PIP traz quase 4 mil dessas expressões em francês e português, com exemplos de uso e fontes da internet. Alguns exemplos:
não ser flor que se cheire “não inspirar confiança” Te adoro, apesar de você não ser flor que se cheire. (http://inforum.insite.com.br/4854; acesso em 08/10/04) = ne pas être en odeur de sainteté
num piscar de olhos (num abrir e fechar de olhos) “em um lapso de tempo bem curto” Aquilo que a natureza levou milhões de anos para desenvolver pode hoje desaparecer num piscar de olhos, graças à letalidade instantânea de nossa mais avançada tecnologia de alto impacto ambiental [...] (http://inforum.insite.com.br/informatica-veterinaria/1307463.html; acesso em 27/10/04) = en un clin d’oeil; en un tour de main
Palavrões
E agora o que todos esperavam! O dicionário traz quase 1200 das tecnicamente chamadas expressões tabu, o que conhecemos por palavrões. Eles estão divididos por campos semânticos que vão desde “A relação sexual” até “O prostÃbulo”, passando por “La Vulve”, “Le Pénis” e “Le coït Buccal”. E olha que esses são apenas os assuntos, não os palavrões em si. Alguns exemplos? É claro, mas aqui só os menos obscenos, compre o livro pra ver o resto ;-)
gostosão: Gostosão eliminado do BBB6 não quer posar nu. (ofuxico.uol.com.br/Materias/Noticias/noticia_12808.htm; acesso em 28/08/07)
garupa: Segundo eles, todos querem “pegar no volume da fartura”, “montar na garupa” ou então possuir uma “bunda exata”. (www.digestivocultural.com/arquivo/digestivo.asp?codigo=134; acesso em 14/09/07)
Dicionário de Falsos Cognatos
Das mesmas autoras, também há o Dicionário de Falsos Cognatos, que é uma obra menor, mas não menos rica, que traz mais de 3000 palavras que à primeira vista parecem significar uma coisa (devido à grafia), mas significam outra completamente diferente. No inÃcio do livro, ainda há um estudo sobre os diferentes tipos de falsos cognatos. Simplesmente outra obra indispensável para os estudiosos da lÃngua francesa.
Alguns exemplos:
génie m. Engenharia: Florence s’intéresse au génie. Cognato: gênio, genialidade
zinc m; fam. 1. Avião: Em temps de guerre, on voyait plusieurs zincs militaries survoler notre village. 2. Balcão: Tous les soirs nous pouvions observer ce triste jeune homme se pencher sur le zinc, complèment ivre. 3. Barzinho: On peut boire un verre dans quelque zinc de l’avenue Rimbaud. Cognato: zinco.





A Ilíada e a Odisséia, de Homero
As flores do mal, de Charles Baudelaire

Crime e Castigo, de Dostoiévski
Hamlet, de William Shakespeare
Madame Bovary, de Gustave Flaubert
A Divina Comédia, de Dante Alighieri
Escreva um comentário
Caros(as) leitor(as)
Seus comentários são muito bem-vindos e para que o convívio entre nós seja aprazível – mesmo quando discordarmos – antes de escrever, leia o que segue:
Não serão publicados: comentários anônimos ou com apelidos grosseiros; comentários escritos todo em MAIÚSCULAS; comentários escritos de forma incompreensível, um exemplo, todo em "miguxês"; comentários com ofensas pessoais; comentários com propagandas e spam; comentários referentes a outro post que não este.
As opiniões expostas nos comentários são de responsabilidade de quem as escreveu. Obrigado.
André