Contos gauchescos, de Simões Lopes Neto

Questões de Vestibular Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto

Contos Gauchescos, livro cobrado como leitura obrigatória anualmente no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), reúne os textos de ficção produzidos por Simões Lopes Neto em 1912/13, assinalando o início da maturidade da ficção sul-riograndense.

Hoje publicado normalmente unido à obra Lendas do Sul, os contos gauchescos são narrativas regionais, pois estão profundamente ligadas ao registro direto dos tipos, da linguagem, das tradições e dos costumes típicos do espaço cultural gaúcho, constituindo um valioso documento sociológico.

Apesar disso, a obra de Simões Lopes Neto ultrapassa em muito o mero fato regional para alcançar uma qualidade literária inerente aos grandes clássicos: a universalidade. O escritor desenvolve um esforço de elaboração literária que vai além da mera observação da realidade para universalizar o seu texto, mediante o refinamento dos meios expressivos.

A linguagem coloquial, o aproveitamento do folclore, o processo de animalização da natureza, a humanização das personagens são recursos que identificam o estilo de Simões Lopes Neto e convergem para estabelecer a marca de identidade do seu mundo de ficção: a mescla entre o real e o fantástico.

Situado num período histórico em que a literatura brasileira se encontra a meio caminho entre a herança naturalista do século XIX e as primeiras experiências modernistas, o escritor gaúcho prenuncia, assim, um dos traços mais importantes de nossa ficção contemporânea — a reunião da fotografia social com a invenção de um universo mítico. Isso abre um caminho inteiramente novo no panorama cultural gaúcho, sempre voltado para a valorização da cor local, e situa Contos Gauchescos, e Lendas do Sul como o antecedente direto da poesia de Augusto Meyer, do romance histórico de Érico Veríssimo, que aí buscaram elementos para a construção de suas respectivas obras, algumas décadas depois.

Bem assim, no que se refere à literatura nacional, estas narrativas ocupam uma posição privilegiada e pioneira, pois não só precederam em sua época o regionalismo de Afonso Arinos e Hugo de Carvalho Ramos, como fundaram uma tradição em cujo processo de desenvolvimento surgiria, já em nossos dias, o conto de João Guimarães Rosa.

Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto

Versão da Editora Globo, com Glossário de Aurélio Buarque de Holanda.

Tal resultado explica a fortuna crítica que vem acompanhando a obra de Simões Lopes Neto desde o seu aparecimento e a sua revalorização na atualidade quando as literaturas da América Latina empreende a redescoberta de seu rico caudal mítico.

  • Você pode baixar Contos Gauchescos grátis, pois o livro está em domínio público. Essa versão, no entanto, não apresenta o glossário, tão essencial para o entendimento do livro.

Algo que costuma afastar o leitor menos experiente ou o estudante que está preparando-se para o vestibular é a linguagem dos contos, que, por adentrar no universo gaúcho dos pampas e das tradições, acaba por praticamente fugir do nosso idioma para alcançar um vocabulário desconhecido até mesmo pela maioria dos gaúchos. Sempre sugiro aos meus alunos o volume da editora Globo, que traz um glossário que facilita em muito a leitura.

Compre a edição de Contos Gauchescos com glossário que facilita a leitura.

Características gerais de Contos Gauchescos - vestibular UFRGS 2015

Resumo dos contos principais

É essencial a leitura dos contos originais para que você possa ter um entendimento profundo sobre o que representa a obra. Ainda assim, devido aos obstáculos que a linguagem nos impõe, torna-se interessante ler um resumo dos contos gauchescos para melhor entendimento de detalhes das histórias que possam ter passado desapercebidos. Aqui destaco os mais importantes e mais cobrados em provas.

Vale lembrar um dado muito importante: todos os contos são narrados por Blau Nunes, um personagem criado por Simões Lopes Neto e que conta as histórias que viveu ou ouviu ao longo de sua experiência nos pampas. Blau é um vaqueiro, pertence às classes não favorecidas e usa a linguagem típica do povo gaudério.

Trezentas Onças

Essa é uma história vivida pelo próprio Blau Nunes. Ele conta que certa vez estava a caminho de cumprir uma tarefa delegada a ele por seu patrão: comprar uma tropa de gado com o dinheiro que ele lhe dera. Tratava-se de uma fortuna, as trezentas onças citadas no título do conto.

O fato é que no caminho ele resolveu tomar banho em um arroio (espécie de rio pequeno) e quando chegou ao local onde iria passar a noite percebeu que tinha perdido todo o dinheiro. Ele volta a todo o trote ao local onde tomara banho e no meio do caminho cruza com um grupo de tropeiros que ia em sentido contrário.

Chegando ao local, vê que o dinheiro não está lá. Pensa que nunca conseguiria pagar a dívida ao patrão, que poderia inclusive acusá-lo de ladrão. Em vista disso, resolve suicidar-se. No momento em que vai cometer o ato, sente seu cão lambendo seus dedos, o barulho do riacho, as estrelas no céu, o canto dos grilos e o relincho de seu cavalo. Essa simbiose com a natureza o faz desistir da ideia da morte e voltar à estância para passar a noite.

Chegando lá, surpreende-se ao ver as Trezentas Onças em cima da mesa, o grupo de tropeiros tomando mate e o questionando qual tinha sido o tamanho do susto.

Assista ao vídeo-conto de Trezentas Onças:

O negro Bonifácio

Nadico era apaixonado por Tudinha. Ela e a mãe foram ver a carreira (nome para as corridas de cavalo) nas terras do Capitão Pereirinha.

Lá, o temido Negro Bonifácio, que também gostava de Tudinha, chegou à carreira acompanhado, mas logo dispensou a moça. Ele desafiou Tudinha para uma aposta: caso o Nadico ganhasse a corrida ele pagaria à moça uma libra em doces.

A aposta é ganha por tudinha, ou seja, o vencedor da corrida é Nadico, então Bonifácio foi lhe entregar os doces, mas Tudinha disse que ele deveria entregá-los a sua mãe. O Negro insistiu, então Nadico pegou os doces e jogou-os em Bonifácio. Nisso, começou a confusão entre Nadico, Bonifácio e os outros pretendentes de Tudinha, que também tinham contas a ajustar com o Negro.

Na luta sangrenta que se segue, Nadico teve a barriga aberta e logo morreu, agarrado por Tudinha.

A partir desse ponto, a narrativa atinge um ar típico de um desfecho das tragédias gregas clássicas: Fermina joga água fervendo no negro que, depois de urrar como um animal selvagem, trespassou-a com o facão. Ao mesmo tempo, um bolaço atirado por um homem (com uma arma do gaúcho chamada boleadeira) acertou a cabeça do negro, que caiu. Veja o simbolismo presente aqui: o negro estava sendo atacado por muitos, levara um tiro, facadas e uma panela de água fervente foi atirada nele, mas quem consegue derrubá-lo é, afinal das contas, um gaúcho com sua arma típica — é o gaúcho herói de Simões Lopes Neto.

Tudinha, que não chorava mais pelo Nadico morto e pela mãe Fermina, que estava morrendo, pulou com raiva sobre Bonifácio, pegou o facão e cortou os olhos dele (veja a referência à Édipo Rei).

Depois cravou o facão debaixo da bexiga (leia-se os órgãos sexuais): “várias vezes cravou o facão afiado como quem ataca uma cobra cruzeira, numa toca, como quem quer reduzir a restos uma prenda que foi querida e agora é odiada.”

Então surgiu um juiz de paz. Depois de todo o ocorrido Blau veio a saber que fora o Negro Bonifácio quem havia tirado a virgindade de Tudinha.

Blau termina o conto com a seguinte expressão: “– Ah! Mulheres!… Estancieiras ou peonas, é tudo a mesma cousa… tudo é bicho caborteiro…; a mais santinha tem mais malícia que um sorro velho…”

Outra questão interessante é prestar atenção aos nomes dos personagens principais:

  • Tudinha: é “tudo”, a mais bela e mais cobiçada das moças;
  • Nadico: é “nada”, só mais um dos pretendentes que acaba morrendo nas mãos do inimigo;
  • Bonifácio: “bom”+”e”+”fácil” — veja que pode ser uma referência à questão da sexualidade ocorrida entre o negro e a moça.

No manantial

Novamente Blau conta uma história que teria vivido (ele faz parte do grupo de empregados que vai em direção à casa quando ocorrem as mortes). Ele diz que em certo lugar chamado de tapera do Mariano há um manantial, ou seja, um banhado, um pântano, e no meio dele uma roseira plantada por um defunto.

Dizem que o local é mal-assombrado, pois pessoas que acamparam por essa região teriam visto duas almas: uma chorando e a outra praguejando loucamente.

O narrador, então, muda o tempo da narrativa para contar o que teria levado a essa situação.

Com Mariano morava a filha Maria Altina, duas velhas, a avó da menina e a tia-avó, e a negra Tanásia. Tudo em paz e harmonia.

Certa vez foram a um terço (ou seja, rezar um terço) na casa do brigadeiro Machado. Lá Maria Altina conheceu o furriel (posto militar entre cabo e sargento) André, e os dois se apaixonaram, tendo o rapaz lhe dado uma rosa vermelha que a moça plantou e que, para sua surpresa, cresceu e floresceu uma roseira muito bonita. O amor entre ambos estava selado.

Chicão, filho de Chico Triste, andava interessado em Maria Altina, que não se interessava por ele e, inclusive, tinha medo dele.

Certa vez, na casa de Chico Triste, houve um batizado. O pai e a tia-avó de Maria Altina foram ajudar. Foi então que Chicão aproveitou-se e foi à casa do Mariano, matou a avó e quis pegar à força Maria Altina. Esta, vendo a avó morta, pegou o cavalo e saiu correndo, entrando no manantial. Chicão atrás. Ela afunda no banhado e só fica a rosa do chapéu boiando.

Mãe Tanásia, que se escondera e vira tudo, vai à procura de Mariano. Nesse meio-tempo chegaram os campeiros para comer. Vendo a velha morta, uns ficaram para averiguar o ocorrido e outros foram avisar Mariano e procurar Maria Altina.

Mariano apavorou-se, pensando que a filha tinha fugido com o Chicão. Nisso chegou a mãe Tanásia para contar o sucedido. Todos vão ao manantial e encontram Chicão atolado, boiando. Mariano pega sua arma, atira e acerta Chicão no ombro. Quando está pronto para dar outro tiro, o padre que ali está coloca a cruz na frente da arma e pede que não atire mais. Mariano, louco de raiva, entra no lamaçal, luta com Chicão e os dois afundam e morrem.

A avó foi enterrada também na encosta do manantial. Uma cruz foi benzida e cravada no solo pelos quatro defuntos.

Como lembrança do trágico acontecimento, ficou, sobre o lodo, ali no manantial, uma roseira baguala, roseira que nasceu do talo da rosa do chapéu de Maria Altina que ficou boiando no lodaçal naquele dia.

O boi velho

Em uma estância havia dois bois muito mansos que levavam a família Silva para tomar banho de arroio, puxando a carroça. Os bois Dourado e Cabiúna eram adorados pelas crianças, sendo praticamente animais de estimação.

As crianças cresceram e os bois continuaram na fazenda com a mesma função. Certo dia Dourado amanheceu morto, pois tinha sido picado por uma cobra. Cabiúna ficou ao redor do amigo pastando, esperando que ele se levantasse.

A família, vendo o boi magro e velho, resolveu soltá-lo no mato, pois já não podia desempenhar suas funções. O tempo passou e Cabiúna retornou à fazenda, e a família, agora composta por aquelas crianças que tanto haviam brincado com os bois, resolveu matá-lo para vender o couro, a carne e tudo o mais que pudessem.

Há uma cena tocante no momento em que o peão afunda o facão no coração do boi: Cabiúna dirige-se à antiga carroça que puxava e coloca o pescoço nas cordas, como se quisesse levar uma vez mais todos para passear ou achasse que estava sendo punido por estar atrasado para a tarefa.

É um conto que mostra a animalização do homem devido à ganância, de um lado, e a humanização do animal, de outro.

Assista ao vídeo-conto de Melancia-Coco Verde:

Contrabandista

Novamente um conto com desfecho típico de uma tragédia de Sófocles.

O contrabandista é Jango Jorge, que está acostumado com a tarefa e tem muita experiência na área. Tem uma filha muito bonita que está prestes a se casar, então ele sai para comprar o vestido e os demais acessórios para o casamento — tudo será contrabandeado, evidentemente.

Todos estão aguardando ansiosos pela volta do pai, pois o casamento estava para começar, quando chegam os amigos de Jango com seu cadáver e uma caixa: o vestido branco, belíssimo, banhado em sangue, formando um contraste aterrorizante — o pai fora pego e recusara-se a soltar a caixa do vestido, sendo morto por isso.

Exercícios e Questões de Vestibular sobre Contos Gauchescos

Para o estudante, é muito importante, além de ler o livro, análises, resumos e comentários, exercitar seu entendimento através da prática de questões de provas de vestibular.

Pensando nisso, elaborei uma compilação de todas as questões sobre o Contos Gauchescos, revisei os gabaritos (pois na internet tem muita coisa errada) e adicionei questões inéditas formuladas por mim, totalizando 50 exercícios para você resolver.

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Questões de Vestibular Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto

Assim que eu verificar seu pagamento você receberá um e-mail com o arquivo anexo. Em caso de dúvidas, deixe um comentário ao final do post ou então escreva para andre.a.gazola@gmail.com.

Questões de Vestibular Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto

Contos Gauchescos, livro cobrado como leitura obrigatória anualmente no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), reúne os textos de ficção produzidos por Simões Lopes Neto em 1912/13, assinalando o início da maturidade da ficção sul-riograndense. Hoje publicado normalmente unido à obra Lendas do Sul, os contos gauchescos são narrativas regionais, pois estão profundamente ligadas ao registro direto dos tipos, da linguagem, das tradições e dos costumes típicos do espaço cultural gaúcho, constituindo um valioso documento sociológico. Apesar disso, a obra de Simões Lopes Neto ultrapassa em muito o mero fato regional para alcançar uma qualidade literária inerente aos grandes clássicos: a universalidade. O escritor desenvolve um esforço de elaboração literária que vai além da mera observação da realidade para universalizar o seu texto, mediante o refinamento dos meios expressivos. A linguagem coloquial, o aproveitamento do folclore, o processo de animalização da natureza, a humanização das personagens são recursos que identificam o estilo de Simões Lopes Neto e convergem para estabelecer a marca de identidade do seu mundo de ficção: a mescla entre o real e o fantástico. Situado num período histórico em que a literatura brasileira se encontra a meio caminho entre a herança naturalista do século XIX e as primeiras experiências modernistas, o escritor gaúcho prenuncia, assim, um dos traços mais importantes de nossa ficção contemporânea -- a reunião da fotografia social com a invenção de um universo mítico. Isso abre um caminho inteiramente novo no panorama cultural gaúcho, sempre voltado para a valorização da cor local, e situa Contos Gauchescos, e Lendas do Sul como o antecedente direto da poesia de Augusto Meyer, do romance histórico de Érico Veríssimo, que aí buscaram elementos para a construção de suas respectivas obras, algumas décadas depois. Bem assim, no que se refere à literatura nacional, estas narrativas ocupam uma posição privilegiada e pioneira, pois não só precederam em sua época o regionalismo de Afonso Arinos e Hugo de Carvalho Ramos, como fundaram uma tradição em cujo processo de desenvolvimento surgiria, já em nossos dias, o conto de João Guimarães Rosa.

Versão da Editora Globo, com Glossário de Aurélio Buarque de Holanda. Tal resultado explica a fortuna crítica que vem acompanhando a obra de Simões Lopes Neto desde o seu aparecimento e a sua revalorização na atualidade quando as literaturas da América Latina empreende a redescoberta de seu rico caudal mítico. Você pode baixar Contos Gauchescos grátis, pois o livro está em domínio público. Essa versão, no entanto, não apresenta o glossário, tão essencial para o entendimento do livro.

Algo que costuma afastar o leitor menos experiente ou o estudante que está preparando-se para o vestibular é a linguagem dos contos, que, por adentrar no universo gaúcho dos pampas e das tradições, acaba por praticamente fugir do nosso idioma para alcançar um vocabulário desconhecido até mesmo pela maioria dos gaúchos. Sempre sugiro aos meus alunos o volume da editora Globo, que traz um glossário que facilita em muito a leitura.

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7.9

nota final

Avaliação da obra Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto

Veja a avaliação desta obra em diferentes critérios e decida adicioná-la a sua lista de leituras ou não.

Preço acessível
A história prende o leitor
Cultura de mundo proporcionada
A linguagem é de fácil entendimento
8

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor de Literatura e História da Arte, pós-graduado em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e fundador do blog Lendo.org.

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