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Clarice Lispector – Uma flor ucraniana do Universo

Uma bela voz…

Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada… Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro…

Falar de Clarice Lispector além de ser uma alegria, é como se fosse sempre pela primeira vez. Porque é inesgotável, é incomensurável, de uma beleza tão infinita que até rosas se calariam para ouvir a estória de uma menina ucraniana que veio para o Brasil plantar suas flores em forma de contos e poesia. Mas essas flores não murcharam e nem morreram, porque são as flores de Clarice.

Clarice Lispector – Um pouco de seu íntimo por ela mesma

Escrever, Humildade, Técnica

Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de… de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse “estilo” (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em “humildade” refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.

Texto extraído do livro A Descoberta do Mundo

Clarice Lispector nasceu em 1920, Tchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de dezembro, tendo recebido o nome de Haia Lispector, terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector. Seu nascimento ocorre durante a viagem de emigração da família em direção à América.

A Descoberta do Mundo - Clarice LispectorA Descoberta do Mundo Compare preços e economize dinheiro

Às vezes penso que Clarice Lispector é do mundo, não tem pátria, um chão onde pudesse se apegar, um patrimônio universal, por este motivo seu nascimento no meio do mundo, flutuante. Incrivelmente poético.

Em 1920 a família se insatala em Pernambuco onde seu pai inicia uma nova vida. Uma história um pouco triste já que a mãe adoece e fica paralítica e a irmã Elisa passa a cuidar de toda família.
Morre a mãe de Clarice no dia 21 de setembro. Nessa época, com nove anos, matricula-se no Collegio Hebreo-Idisch-Brasileiro, onde termina o terceiro ano primário. Estuda piano, hebraico e iídiche. Uma ida ao teatro a inspira e ela escreve “Pobre menina rica”, peça em três atos cujo originais foram perdidos. É nesse ano que o pai resolve adotar a nacionalidade brasileira – que orgulho!

Em 1935 viaja para o Rio de Janeiro, em companhia de sua irmã Tania e de seu pai, na terceira classe do vapor inglês “Highland Monarch”. Vão morar numa casa alugada perto do Campo de São Cristóvão. Ainda nesse ano, mudam-se para uma casa na Tijuca, na rua Mariz e Barros. No colégio Sílvio Leite, na mesma rua de sua casa, cursa o quarta série ginasial. Lê romances adocicados, próprios para sua idade.

Em 1936 termina o curso ginasial. Inicia-se na leitura de livros de autores nacionais e estrangeiros mais conhecidos, alugados em uma biblioteca de seu bairro. Conhece os trabalhos de Rachel de Queiroz, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Dostoiévski e Júlio Diniz.

Clarice Lispector

Em 1937 matricula-se no curso complementar (dois últimos anos do curso secundário) visando o ingresso na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Então em 1939 inicia seus estudos na Faculdade Nacional de Direito. Faz traduções de textos científicos para revistas em um laboratório onde trabalha como secretária. Trabalha, também como secretária, em um escritório de advocacia.
Seu conto, Triunfo, 1940, é publicado em 25 de maio no semanário “Pan”, de Tasso da Silveira. Em outubro desse ano, é publicado na revista “Vamos Ler!”, editada por Raymundo Magalhães Júnior, o conto Eu e Jimmy. Esses trabalhos não fazem parte de nenhuma de suas coletâneas. Após a morte de seu pai, no dia 26 de agosto, a escritora — talvez motivada por esse acontecimento — escreve diversos contos: A fuga, História interrompida e O delírio. Esses contos serão publicados postumamente em A bela e a fera, de 1979. Passa a morar com a irmã Tania, já casada, no bairro do Catete. Consegue um emprego de tradutora no temido Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP, dirigido por Lourival Fontes. Como não havia vaga para esse trabalho, Clarice ganha o lugar de redatora e repórter da Agência Nacional. Inicia-se, ai, sua carreira de jornalista. No novo emprego, convive com Antonio Callado, Francisco de Assis Barbosa, José Condé e, também, com Lúcio Cardoso, por quem nutre durante tempos uma paixão não correspondida: o escritor era homossexual. Com seu primeiro salário, entra numa livraria e compra “Bliss – Felicidade”, de Katherine Mansfield, com tradução de Erico Verissimo, pois sentiu afinidade com a escritora neozelandesa.

Clarice também foi voluntária na Segunda Guerra, cuidando de soldados brasileiros nos EUA.

Quando Sabino leu seus contos, classificou-os como “obras de arte”. Clarice Lispector jamais parou de escrever, sua compulsividade levou seus trabalhos a serem editados na Europa.

Seu primeiro livro de contos Laços de Família deveria ser lido como uma “entrada” no mundo de Clarice Lispector.

Laços de Fam�lia - Clarice LispectorLaços de Família Compare preços e economize dinheiro

O incêndio

Em 1966 Clarice dorme com um cigarro na boca e provoca incêndio cruel de onde sai bastante queimada, ficando entre a vida e a morte. Se recupera mas as cicratizes horrendas a deixam complexada e deprimida. Os amigos ajudam e Clarice volta a escrever como nunca. Jamais parou. Um fenômeno da Literatura.

Trabalhou em vários jornais e como tradutora por muito tempo. Também foi ghost-writer da atriz Ilka Soares em uma revista feminina. Era formada em Direito mas prevalece a escritora, a obra prima de arte em pessoa.

Faleceu em 9 de dezembro de 1977, de complicações internas (ovários) na véspera de fazer 57 anos. Foi-se o anjo.

Essa é apenas uma parte da riqueza que é a vida de Clarice. O melhor de tudo é que ela é acessível, se lermos um só conto seu, já estaremos “contaminados” de amor e paixão. Leiam Laços de família, garanto que será um prazer inenarrável, um deleite para a alma e calma serena num mundo de poesia… o mundo de Calrice Lispector. E é sua a última palavra – entrevista concedida à um jornalista d’O Globo quando não mais falava com a Imprensa, foi por telefone:

J.C. — Por que você escreve?

C.L. — Vou lhe responder com outra pergunta: — Por que você bebe água?

J.C. — Por que bebo água? Porque tenho sede.

C.L. — Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva.

20 Comentários

1. por Eliane em
Ago192007, às 14:36pm

Obrigada por essa pitada de Clarice que eu não sabia…

2. por Alexandre Kovacs em
Ago192007, às 20:31pm

De Clarice em “A Hora da Estrela”: “Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aço espelhados”.

Realmente não é fácil escrever. É necessário desvendar um pouco de si mesmo, muitas vezes de uma região desconhecida até do próprio autor. Obrigado pela visita e elogios que, no final, fazem valer a pena esta atividade estranha de manter um blog.

3. por Daisy Carvalho em
Ago192007, às 22:07pm

E à vc agradeço por compartilhar com o Lendo.org essa alegria constante que é ter Clarice entre nós :)

Beijo Eliane, volte sempre!

4. por Daisy Carvalho em
Ago192007, às 22:12pm

Alexandre Kovacs, será que era tão duro assim escrever, para Clarice, talvez a dificuldade fosse por doer profundo cada obra que criava por ser de tão perfeita beleza etérea. Gosto muito de “Feliz Aniversário” – a condensação do espírito humano em trágica comédia dos costumes bizarros que temos.

Obrigada à você, querido ;)

Beijos!

5. por Daisy Carvalho em
Ago192007, às 22:43pm

E Kovacs… manter blogs é certamente uma árdua mas agradável tarefa, um desafio a cada dia, mas gratificante quando trocamos figurinhas interessantes, não é?… ;)

6. por Daniela em
Ago242007, às 12:03pm

Clarice foi uma das minhas companheiras na adolescência e até hoje me emociono ao ler suas palavras.

7. por Daisy Carvalho em
Ago242007, às 12:14pm

Olá, Daniela :)

É a questão da “eternidade”, inegável, não é mesmo…

Beijo querida! Brigada :)

8. por Liliane em
Set212007, às 18:00pm

Por favor, será que tem como você citar algum comentário sobre “Hisória de Coisa” ? Pois eu li e reli e não entendi muito bem,
apesar de adorar a Clarice e fazer ótimas interpretações sobre as suas obras.

Atenciosamente,
Liliane Bittencourt

Beijinhos Muito Obrigada!

9. por daisy em
Set212007, às 21:28pm

Olá, Liliane!

Os contos de Clarice, assim como toda literatura, ou qualquer segmento artístico, nos dão o direito subjetivo de interpretação, como você mesma disse já haver feito interpretações em suas obras.

No “História de coisa”, eu vejo uma clara associação da autora com o silêncio do telefone. E é um texto datato porque o telefone era novidade. Assim, Clarice mistura emoções as mais diversas: surpresa, expectativa de falar com alguém distante (saudade de poetas), silêncio e solidão. Nota-se que a escritora está definitivamente enamorada pelo aparelho que faz pontes em sua comunicação, o que para escritores é fundamental.

Apenas uma interpretação. :)

Beijos!

10. por Liliane Bittencourt em
Set252007, às 12:06pm

Daisy Muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito Obrigada pela sua ajuda, com as poucas palavras que vc escreveu ,ficou muito mais claro e fácil de entender ” História de Coisa ”

Beijos!!!!
Valeu!

11. por Daisy Carvalho em
Set252007, às 14:14pm

Eu é que fico feliz :)

Por poder encontrar pessoas com tamanha sensibilidade assim.

Beijos, Liliane.

12. por Jose Luis Ferraz em
Mar042008, às 10:24am

Como leitor assiduo da revista EntreLivros reconheci parte do texto. Por que nao menciona a fonte?

13. por Daisy em
Mar042008, às 12:25pm

Vou responder dentro de minhas limitações:
Este foi um dos meus primeiros trabalhos na net. Hoje eu sei que existe uma corrente babaca reinvindicando autorias virtuais.
Minha idéia sempre foi e será passar adiante conhecimento e amor à literatura.
Caso o senhor não saiba, muitos textos meus (autorais – poesias e contos) estão – eu o soube há pouco – publicados em língua estrangeira.
Não faço a mínima questão de ser autora de biografias de escritores, pois que sou, eu mesma, um deles.

Mas, caso queira informar a fonte do historiador, sinta-se à vontade. Eu agradeço.

Passar bem.

Daisy Carvalho, roteirista de audiovisual com propensões ao mundo da literatura honesta.

Beijo, linda Clarice :)

14. por Daisy em
Mar042008, às 12:29pm

“Falar de Clarice Lispector, além de ser uma alegria, é como se fosse sempre pela primeira vez. Porque é inesgotável, é incomensurável, de uma beleza tão infinita que até rosas se calariam para ouvir a estória de uma menina ucraniana que veio para o Brasil plantar suas flores em forma de contos e poesias. Mas essas flores não murcharam e nem morreram, porque são as flores de Clarice.”

DAISY CARVALHO :)

15. por Jose Luis Ferraz em
Mar042008, às 13:19pm

oLHA, EU ADMIRO MUITO TODAS AS FORMAS DE DIFUNDIR A LITERATURA. EU TAMEBM FAÇO ISSO , MAS DE OUTRA FORMA , OU SEJA, EU COMPRO E FAÇO CIRCULAR LIVROS ENTRE AS PESSOAS DE MINHA RELAÇÃO, TANTO PESSOAL QUANTO PROFISSIONAL. HOJE TENHO CERCA DE 400 LIVROS , DE BOA LITERATURA, QUE PASSAM DE MÃO EM MÃO. O TRABALHO NÃO É PERFEITO , MAS NEM POR ISSO CHAMO AQUELES QUE ME CRITICAM DE BABACAS.
COM CERTEZA VOU PASSAR BEM, POIS NÃO SOU MESQUINHO.

16. por Daisy em
Mar042008, às 16:32pm

Tens razão, meu amigo. Pegou-me num momento de fúria íntima. De qualquer forma não foi minha intenção agredí-lo. Não foi e não poderia ser pessoal.
Dentre tantas palavras usadas por mim, eu não me canso da
mais humilde e apaziguadora delas: a palavra ‘perdão’.
Espero ter podido me redimir.

E aceite um aperto de mão sincero, Jose Luis :)

Daisy Carvalho

17. por Jose Luis Ferraz em
Mar042008, às 16:38pm

o perdão esta aceito. Gostaria de saber se posso continuar a usufruir do blog.
Confesso que ainda não domino a “etiqueta” do blogueiro, mas estou disposto a aprender.
Eu tambem peço perdão.

18. por Daisy em
Mar042008, às 16:41pm

Será um prazer tê-lo entre nós. E seja mais um blogueiro amante da literatura. Se quiser contactar-me…

daisyescriba@hotmail.com

Abraço :)

19. por Jônatas em
Jul252008, às 9:15am

Amigos, sou um pesquisador iniciante da obra de Clarice Lispector e preciso da colaboração de vocês para fazer boas interpretações dos contos da obra Laços de Família. Um comentário que a princípio pareça tolo poderá me trazer uma revelação pertinente. Não desprezarei nada! Por favor, penso que, se conseguir adentrar com segurança nesse enigmático mundo de Clarice com a ajuda de vocês, ganharemos um estudo de qualidade. Aguardo respostas!
Jônatas

20. por nanda em
Nov032009, às 19:07pm

Oiie´estou fazendo uma gincana, e gostaria de um nome bom para se colocar de acordo com o n0me de clarice lispector…
quem poder me dar por favor agradeço by: nanda ;)

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