A Metamorfose, de Franz Kafka

O cara acordou com um amargo gosto na alma cansada e no corpo sem graça. Ele olhou em volta e desistiu da vida, dos sonhos, da família e de si, por fim.

Era cinzenta manhã de trabalhar, de tomar o desejum, bocejar e ir à luta…mas que luta teria para lutar um homem sem amor, sem sexo direito, sem beijo na boca, sem cinema ou praça de piquenique…

A Metamorfose, de Franz KafkaEste homem magro e sem cor não pensava mais em nada além da provável insignificância de seu ser; na abstrata condolência de sua gente, na ofuscada performance de um homem que pouco mais era que um monte de nada.

Este homem olha em volta, as paredes desertas de seu quarto enxangue, as teias antigas das aranhas velhas e descobre que ele próprio poderia facilmente ser confundido com qualquer móvel ou pedaço de cortina mal lavada pela irmã mais nova.

Um homem que nada recebe do pai a não ser a mão estendida esperando o pagamento por tê-lo posto no mundo, o salário miserável que só os competentes homens para o fracasso recebem.

As janelas fechadas, o escuro das manchas na parede o fuzilam com o olhar… é… mesmo objetos inanimados vivem mais que Gregor.

É este seu nome, Gregor.

Um homem avestruzando pela vida, de língua pastosa, sem aquele beijo de namorada.

Gregor se arrasta até a pia de má vontade, se prepara para sair do quarto, tomar o café daquela manhã dissoluta e ir trabalhar.

Eu disse “se arrasta”?

Céus, Gregor não está nada bem. Talvez tenha febre ou cólera inerente aos desgraçados. Ou, quem sabe, ele nem seja mais um desgraçado… nem gente!

A Metamorfose de Kafka, filosoficamente falando, tem a ver. Quem ainda não leu o livro, ainda é tempo (evite resumos); quem já leu, se não se transformou, leia outra vez.

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor de Literatura e História da Arte, pós-graduando em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e fundador do blog Lendo.org. É casado e mora em Bento Gonçalves-RS.

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