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A inferioridade do Ensino Superior

Ao fim você me chamará romântico, mas ando mastigando essas coisas faz tanto tempo que esse artigo será nada menos que um grande cuspe.

Cartazes, panfletos e propagandas de televisão têm me convidado a ingressar na universidade. Uma formação superior que abrirá as portas para uma brilhante carreira profissional, com salários exorbitantes, viagens para a Europa, apartamentos em Copacabana e uma família branca, negra, índia e feliz.

São todos os sonhos deles realizados.

Passo pela prova de admissão — que exige todo o potencial de meus dois neurônios relapsos — e chego na primeira aula com meu boné, meus óculos escuros e as roupas largas que hoje impressionam as garotas (aquelas, lindíssimas, que às oito da manhã estão com 1 quilo de maquiagem no rosto) da mesma forma que o terno e a gravata impressionarão daqui cinco anos.

Sou um universitário. Dirijo o carro importado que ganhei do papai como prêmio por passar no vestibular e desfilo pelos corredores portando as últimas notícias futebolísticas. Tenho aula de filosofia, política, ética, direito, religião, mas apesar de não entender uma palavra do que falam e não me preocupar em ler aquelas absurdas quatro páginas que o professor pediu, sei que tudo isso não adicionará nenhum zero em minha conta bancária e por isso vou faltar hoje, afinal a prova final é com consulta, em dupla.

Finalmente a formatura. Minha família chorando de alegria vendo o filho receber um canudo e ser agraciado com o título de bacharel. Sou o primeiro da linhagem a alcançar tamanho sucesso. Meu currículo não é dos melhores, algumas reprovações atrasaram meus planos, mas nada que papai não resolva com aqueles amigos dele.

É bom ir para o apartamento novo, jogar fora todas as tralhas da faculdade e finalmente descansar, afinal foram seis dolorosos anos aqueles. Principalmente o último, no qual quase todas as empresas de monografias já estavam com clientes demais.

Essa é a vida do universitário médio, tipo que tem infestado o meio acadêmico. Sua simploriedade não é simplesmente textual, mas intelectual, crônica e contagiosa.

Convencionou-se, ao longo dos últimos anos, que a universidade seria uma extensão, uma continuação do Ensino Médio. Bem, ela não é. Apesar de estar se tornando.

A universidade não foi criada para ensinar profissões. Ela foi criada para, lá dentro, você ver que existem pontos de vista diferentes do seu, ver que a realidade é muito maior e mais complexa do que você sempre imaginou ou ainda vai imaginar, para entender que você só é hoje porque alguém já foi um dia — e que você está intimamente ligado a tudo que aquele alguém fez ou deixou de fazer.

Além disso, a universidade serve para dar voz às ideias que o mundo aqui fora não é capaz de compreender, tolerar ou praticar; a universidade é o lugar dos revolucionários, dos pensadores, não dos acomodados, engravatados; na universidade questionam-se regras de forma regrada, não postulam-se ideias desregradas (ou regradas demais); na universidade você dá a cara a tapas, pelo desejo de nocautear com a luva do saber; a universidade não precisa de mais prédios, mas de pessoas que saibam a hora de derrubá-los; não precisa de mais ricos alunos, mas sim de pobres incompreendidos.

Sei que essa é uma visão extremamente romântica e que você já deve estar questionando o senso prático disso tudo com questões do tipo “o que eu vou ganhar com isso?”, “de que adianta eu ser assim se ninguém mais é?”, ou até com convicção: “assim eu vou ser passado pra trás”, etc, etc. Na verdade, esse artigo desempenha exatamente o papel que a universidade deveria desempenhar: suscitar perguntas, não dar respostas.

Os melhores universitários sabem, mesmo hoje, que vão sair da universidade com pouquíssimas respostas, mas com experiências que, ao longo dos anos, servirão para formular uma pergunta que lhes guiará pelo resto da vida acadêmica.

Os demais, como alguém já disse um dia, talvez virem reitores.

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20 Comentários

1. por Deborah em
Set102009, às 20:55pm

Enfim alguém que compartilha com os meus ideais imcompreendidos. =]

2. por glauce souza em
Set112009, às 9:53am

André,

Teu texto chegou bem na hora…Na semana passada eu analisava esta situação e concluia exatamente o que você disse, simples e claramente!
Se é romantismo, então sejamos românticos!
Acredito que é bem mais verdadeiro que esta zorra que corre por aí.

Estou até pensando em distribuir cópias do teu texto e enviar por e-mails, afinal verdades desta categoria têm que ser disseminadas para, no mínimo, haver questionamentos e provocar reflexões mais sérias.

3. por Miss Lou B em
Set112009, às 10:56am

Oi, André! Clap clap clap para seu texto, meu amigo. Entendo perfeitamente o que você está falando. Também estudo Letras, pela Universidade Federal do Ceará, e o problema é generalizado.

Estou no último semestre e também passei por essa fase que você está vivendo agora. Comecei meus estágios de Português e Literatura e o que aprendi na faculdade – mais por conta própria, do que por auxílio de todos os professores, haja vista apenas alguns terem me ajudado sem hipocrisia e olhe lá! – diria que uns 70% do que aprendi na faculdade não terá aplicabilidade para as salas de aula do Ensino Fundamental e Médio.

Nós, futuros professores, precisamos construir verdadeiras artimanhas para lecionarmos segundo aquilo que aprendemos na faculdade e adjacências, até porque na faculdade dão muitos conteúdos de nível científico, prática quase zero e sequer nos ensinam a… Ensinar! Incrível não? As disciplinas didáticas não fazem isso: trabalham com conceitos cristalizados de Piaget, Vigotski, fazem dinâmicas às turras como se fóssemos clones de palhaços para passarmos o tempo inteiro brincando, mas não nos ensinam a ensinar. Eu, pelo menos, tenho aprendido na marra, pesquisando, lidando com as situações na prática…

E quanto à esses safanões que se passam e não estudam nada, rá, dessas criaturas as universidades estão cheias!! São ervas daninhas que na frente de jequitibás – árvores centenárias que levam anos para crescerem e frutifiticar, assim como deveria ser a construção de um bom educador-professor -, os jequitibás são altos e grandes demais para se deixarem contaminar por essas ervas daninhas. Faça a sua parte e deixem esses espécies não fazerem a parte delas: quem sairá perdendo, nós já sabemos.

Outra coisa, se não se importar, vou colocar seu texto na íntegra e com as devidas referências no meu blog.

Grande abraço,
Fernanda Lima
Pseudônimos: Miss Lou B. e N.Lym

4. por André Gazola em
Set112009, às 11:04am

Obrigado pessoal, suas colocações são extremamente pertinentes e condizem com a realidade daqui também.

Quem quiser repassar o texto, com os devidos créditos, fique à vontade. Vamos tentar ao menos denunciar essa situação deplorável das universidades.

Abraços

5. por Fernando em
Set112009, às 15:17pm

Muito bom!

6. por Filipe Rodrigues em
Set112009, às 20:01pm

Realmente muito bom. Essa visão universitária de hoje está realmente formando cidadãos rídiculos. Talvez, uma visão romatica seja necessária para analisar essa situação. Gosto muito so site, parabéns!
SEE YA!

7. por Ana Kelly em
Set122009, às 11:35am

Isso não é nada, já vi coisa pior por aqui e pela interweb afora =/

E ontem mesmo estava pensando nisso, quando recebi um folhetinho prometendo tudo isso no começo do texto, só que a “universidade” (eles tiveram coragem de chamar assim -.-) é “à distância”… e você estuda pelo celular ‘-’

Tipow, você manda um torpedo pra eles (“a custo de uma ligação local de telefone fixo por torpedo, não perca!”) com o curso que quer fazer e eles te mandam toda semana torpedos com o conteúdo das matérias, aí você estuda “onde estiver e sem prejudicar sua rotina”.

Vergonha alheia já virou eufemismo com relação a essas coisas Y_Y

8. por Cíntia em
Set122009, às 18:15pm

Texto excelente! Você conseguiu sintetizar o pensamento de muitas pessoas que buscam a universidade como forma de questionar e crescer intelectualmente, mas acabam por encontrar alunos de colegial completamente alienados. Compartilho de sua opinião e faço coro pela volta desse romantismo transformador.

9. por Elizabeth em
Set142009, às 12:37pm

Parabéns….
Vc escreve muito bem, e esse tema é realmente o que se passa nas Universidades hoje!
Gostei do seu ponto de vista!!!

10. por Rosana Garcez em
Set152009, às 20:45pm

Eu sinceramente não me pré ocupo com esse tipo de universitário…a vida se encarregará deles.
Mas dá pena de quem paga a faculdade,o carro,a mesada,as baladas…que muitas vezes é o investimento que os pais “pensam” que estão fazendo… :(

Beijos

11. por Daisy Carvalho em
Set172009, às 10:01am

André,
Além de estar escrevendo muito bem, notei um toque literário, meio crônica, meio conto, o que certamente atrairá uma variedade de leitores. É um estilo, creio.
Minha opinião é que a realidade mudou muito pouco depois de minha geração. Eu costumava dizer que por estas razões (precariedade no ensino superior), é que nasceu uma casta, ou mutantes, sei lá. O fato é que aí estão açougueiros da medicina, professores escrevendo com dificuldades e erros imperdoáveis (o que não é seu caso), prédios caindo aqui na minha cidade, com o tal “choque de ordem” da prefeitura, onde vemos quão devastador pode ser um mau engenheiro. E por aí vai.
Ser ou estar formado, se bem ou mal, não nos cabe julgar, desde que não venham esses maus profissionais colocar em risco a vida humana, tanto prática quanto psicológica. Muito bom o texto reflexivo, exemplar. Os universitários que freqüentam aqui podem e devem divulgar, para que se expandam esses planfetários helps na educação. Seria bom se daqui a um tempo, não se tivesse notícia de uma mulher que conviveu anos com uma tesoura cirúrgica no estômago, padecendo dores atrozes. Ou se um aluno, ao imitar o professor, não se tornasse um obtuso ser social, invalidando anos de estudos pagos, em sua maioria. Ou advogados do diabo que defendem sempre a causa contrária ao bem estar da sociedade. Etc..
É isso aí, pessoal. Boca no trombone. Mas um bem afinado trombone. Um grito profissional e maduro.
Abraço, professor.

12. por Nayara em
Set202009, às 12:02pm

Eu ainda não entrei na universidade, mas já consigo identificar os tipos descritos, mesmo no meu cursinho pré-vestibular.

Pagam caro para estudar num curso considerado de elite, matam todas as aulas ou vão namorar no banheiro, sentam-se lá atrás e passam o tempo a identificar defeitos nas pessoas que no conceito deles vai desde a cor da pele até a marca do sapato. E provavelmente ano que vem estarão ocupando os bancos de faculdades particulares pagas pelo papai. Sairão muito provavelmente do mesmo jeito que entraram vazios…

13. por JLM em
Set202009, às 14:48pm

Olá

Tem um doido aí sorteando os dois livros do Dexter, aquele serial killer que mata serial killers. Pra saber como particpar, clique aqui.

1 abraço

14. por Cecília em
Set212009, às 10:07am

Olá, André. Meu nome é Cecília e trabalho na Edelman, que é a agência de comunicação da Jorge Zahar Editor. Estou deixando meu primeiro comentário no seu blog, que já venho acompanhando.
Concordo com você quando diz que que a universidade deveria suscitar as perguntas. Parabéns pelo texto e pelas colocações interessantes.
Abraços

15. por Morgana em
Set232009, às 17:48pm

Oi !
Adorei seu artigo, é muito interessante perceber que esse quadro de apatia não acontece só aqui onde moro.
E essa idéia da Universidade como uma continuidade do Ensino Médio é bem verdadeira.
A Universidade é um lugar de descobertas cientificas, de engedrar ações e idéias para gerações futuras, mas que pena que poucos pensam assim.

16. por Patricia Gonçalves em
Set282009, às 0:22am

“A Universidade é um lugar de descobertas cientificas, de engedrar ações e idéias para gerações futuras, mas que pena que poucos pensam assim.”

Faço dessas palavras da Morgana, as minhas. Eu mesma passo por isso todos os dias na minha turma de futuros biomédicos! E olha que falta apenas 2 anos para nos formar! E parece que nada do que os professores falam e das matérias que estudamos (pq além das relacionadas à saúde humana, tb estudamos o Homem), eles não conseguem ver que iremos lidar com vidas daqui a pouco.. E isso me faz querer dar uns sopapos neles de vez em quando, sabe… Mas, como a Rosana já disse: a vida se encarregará deles. Pelo menos, eu fico me dizendo isso sempre…

17. por Cláudia Oliveira em
Set282009, às 23:27pm

Caro André! Muito oportuno seu comentário! Como professora universitária da rede privada sinto exatamente o que você descreve com raras exceções (sim!felizmente eslas existem!). Mas infelizmente nossos futuros profissionais enxergam o curso superior como mais uma etapa a cumprir e não como a oportunidade de vivenciarem a “universalidade” dos saberes……um tédio ser professora neste “universo tão reduzido”.

18. por Sérgio Neves em
Out142009, às 2:21am

Alto status, alta propaganda, alta oferta, alta procura, baixos custos intelectuais de admissão e altos custos monetários. Educação para inteligentes e burros, mas só para quem tiver dinheiro. Nada melhor do que ricos burros ascendendo na cadeia alimentar social. Afinal, não serão eles os futuros donos das faculdades?

“Tudo tem que virar óleo para por na máquina do estado”. (Desordem – Titãs)

“Ter carro do ano, TV a cores, pagar imposto, ter pistolão.
Ter filho na escola, férias na Europa, conta bancária, comprar feijão.
Ser responsável, cristão convicto, cidadão modelo, burguês padrão.
Você tem que passar no vestibular.” (Química – Legião Urbana)

19. por Denise em
Fev082010, às 12:55pm

Na Bahia, incluindo as faculdades federais e estaduais, o que mais tem é universitário de classes média e alta, ignorante, alienado, sem cultura, sem classe, vulgar, tapado, bitolado, preconceituoso, egoísta, fútil e que acham que a vida é promiscuidade, alcool e drogas. Triste, mas é a realidade da maioria.

20. por Denise em
Fev082010, às 13:00pm

Ainda tem a falta de caráter de muitos deles. O pior é que muitos são filhos de poderosos, de ricos e nunca vão precisar batalhar pelo mercado de trabalho e vão ficar por ai sendo péssimos profissionais que nunca vão arcar pelos seus erros porque sempre serão protegidos pelo dinheiro e prestígio.

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