1ª Mostra Literária Colégio Medianeira — envolvendo pais e alunos no mundo da ficção

I Mostra Literária - O Senhor dos Anéis

Tenho falado e pensado muito sobre novas formas de ensinar literatura.

Durante boa parte de meu curso universitário busquei explorar as possibilidades desse campo em que existe uma lacuna tão profunda em nosso sistema educacional, que a cada dia valoriza mais as ciências exatas em detrimento das humanas. Nesse tempo li os principais teóricos da área, escrevi artigos com sugestões de atividades e críticas a meio mundo devido ao comodismo generalizado dos professores em sala de aula.

Quando comecei a dar aula de literatura em um colégio particular da minha cidade, percebi que muito daquilo que escrevi era completamente idealizado e, por vezes, inviável dentro de uma realidade escolar. Porém, continuei a vislumbrar métodos que permitissem ao aluno conhecer e maravilhar-se com a leitura e tudo que ela proporciona para a vida do ser humano.

No início desse ano letivo de 2012, com o objetivo de divulgar os trabalhos realizados na disciplina de literatura à comunidade escolar, surgiu a ideia da Mostra Literária — uma atividade que cada turma, uma por mês, realizaria para apresentar aos pais em um momento de socialização. Essa atividade seria associada ao livro literário que a classe estaria lendo naquele mês.

Assim, elaborei um quadro de atividades para cada turma, desde o Ensino Fundamental 2 até o Ensino Médio:

Atividades para Mostra Literária - Colégio Medianeira, prof. André Gazola

A ideia da primeira Mostra, com as turmas de primeiro ano do Ensino Médio, era a criação de um personagem com base na mitologia criada por Tolkien em O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel. Para isso, utilizei o material encontrado no site Classbrain, que permite que o aluno assinale diversas características do personagem (como raça, idioma, local onde vive, modelo de aprendizagem, entre outros) e da sociedade onde vive, além de escrever sua biografia e desenhá-lo. Em um primeiro momento pensei em traduzir tudo, antes de entregar a eles, mas por que não aproveitar para exercitar o inglês? Utilizei os arquivos (.pdf):

Conforme o trabalho de criação das personagens foi sendo realizado, surgiu a ideia de criar uma decoração no salão de atos da escola para receber os pais no dia da apresentação, algo relacionado à mitologia de O Senhor dos Anéis. Essa ideia, contudo, cresceu rapidamente e evoluiu para algo que eu mesmo nunca teria imaginado de antemão: os alunos propuseram-se a construir 6 cenários presentes no enredo do livro!

Organizar isso tudo não seria nada fácil, afinal tínhamos 1 mês e meio para:

  • Dividir os ambientes no salão de atos;
  • Organizar os grupos responsáveis por cada cenário, levando em conta que 2 turmas trabalhariam na construção dos mesmos;
  • Criar e planejar cada um dos 6 cenários;
  • Escolher, organizar e comprar materiais;
  • Planejar e conseguir figurino, já que alguns alunos gostaram da ideia de fantasiar-se;
  • Aprender os rudimentos de um dos idiomas criados por Tolkien, o quenya, pois foi decidido que haveria uma aluna que guiaria os visitantes e falaria algumas frases no idioma élfico;
  • Elaborar o texto de apresentação de cada cenário, em linguagem teatral, para a guia;
  • Confeccionar os convites para os pais;
  • Escolher a trilha sonora para o evento.

No total, foram quase 30 horas de trabalho — sem contar as diversas tardes em que alguns grupos foram até o colégio para adiantar algumas coisas — envolvendo 43 alunos de duas turmas.

Nos primeiros dias, encontramos um salão gigante, cheio de cadeiras, que deveria transformar-se na Terra Média, contendo os seguintes cenários:

  1. O Condado
  2. Valfenda
  3. Caradhras
  4. Moria
  5. Lothlórien
  6. Mordor

Veja abaixo as fotos dos alunos trabalhando, fazendo medições, planejando, carregando materiais e estudando as melhores formas de fazer cada detalhe.

E o convite para o grande dia (clique para aumentar):

Convite para I Mostra Literária - O Senhor dos Anéis

Convite para I Mostra Literária - O Senhor dos Anéis

Finalmente estava tudo pronto para um dos eventos mais originais já realizados na escola. Escolhemos a trilha sonora do próprio filme O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel e ainda aproveitamos o talento de algumas alunas para apresentar a versão em piano dessa trilha.

O primeiro passo foi receber os pais na sala dos professores e explicar pedagogicamente a atividade, de que forma ela foi desenvolvida e os objetivos de tudo isso.

Feito isso, organizamos grupos em torno de 10 pessoas que seriam guiadas pela Terra Média através de nossa guia Fabiane:

Fabiane fantasiou-se de elfa e guiou a todos pela Terra Média

E o texto que ela mesma escreveu:

Elen síla lúmenn omentielvo, na língua de meu povo, uma estrela brilha sobre a hora de nosso encontro.

Vejam onde nós estamos… O Condado, a região da Terra-média onde os hobbits vivem em paz, um povo muito discreto e também muito antigo. Eles são pequenos, porém não se enganem, são muito habilidosos, têm ouvidos agudos e olhos perspicazes. E o Frodo… Ah Frodo…

Venham, venham precisamos continuar.

Valfenda, a minha terra, a terra dos Elfos, neste lindo vale, meu povo prospera. Elfos… seres sábios, poderosos, belos, e sem dúvidas fascinantes. Aproveitem Valfenda preciso pedir alguns conselhos ao Mestre Elrond.

Caradhras! Quem se arriscará a passar pelo Passo do chifre vermelho? Conta uma história que eles quase atravessaram: Gandalf, Aragorn, Frodo, Legolas (ah o belo Legolas). Estamos aqui em um dos maiores picos das montanhas nebulosas. Rezem meus amigos, rezem pela piedade do tão cruel Caradhras.
Infelizmente não conseguimos a piedade desse tão cruel gigante gélido e teremos que tomar o caminho para Moria.

Nossa, estamos em Moria, cidade dos Anões, pequenos, fortes e robustos. Esse lugar guarda muitas eras. Cuidado com os orcs e os cavaleiros negros que ainda podem estar vagando por aqui a pedido do Senhor do escuro, Sauron!

Essa paisagem pincelada de um dourado lindo, eu conheço muito bem, aqui é Lothlórien, mais que uma floresta é um reino encantador governado pela rainha Galadriel, guardiã de um item muito interessante, um anel, mas não um anel comum, é claro. Seres da mesma raça que a minha vivem aqui, elfos, por isso já me assegurei de que serão muito bem recebidos nessa terra.

Os portões de Mordor! O Senhor do escuro nos aguarda. Sim, ele está nos vigiando nesse momento. O grande olho nos observa. Se apressem, entrem e façam o que precisam de pressa, aconselho a vocês que deixem esse reino o mais rápido possível! E quanto a mim, está na hora de partir…

As demais imagens da apresentação falam por si mesmas: pais e alunos engajados e muito interessados no fantástico trabalho realizado por todos para recriar o mundo literário fabuloso criado por Tolkien.

Terminada a atividade e recebidas as parabenizações de pais, coordenação e direção, foi hora de realizar um fechamento através de uma autoavaliação dos alunos, que fiz com o seguinte questionário (baixe em formato word):

1) Você considera que a experiência de planejar, trabalhar e apresentar-se na Mostra Literária foi:

a) péssima b) ruim c) regular d) boa e) ótima

2) Fale sobre seu nível de envolvimento com a atividade (interesse, aprendizado adquirido, esforço, etc).
3) Pense e escreva sobre tudo que você aprendeu ao longo da atividade.
4) O que você mais gostou em toda a Mostra Literária?
5) O que você menos gostou em toda a Mostra Literária?
6) Dê uma nota de 1 a 10 para si mesmo, avaliando sua contribuição para o trabalho como um todo:

Através disso, pude avaliar minha própria prática e conhecer as opiniões e aprendizados dos alunos através de um trabalho tão grande e demorado. Veja algumas das respostas que obtive:

Aprendi bastante sobre engenharia quando montava a estrutura das paredes de Moria. Também consegui aprimorar meus conhecimentos sobre eletricidade na confecção de LED para iluminação, mas que não foi utilizado por ser substituído por uma lanterna. Também descobri novos métodos de chamuscar papel, que foi usado no livro de Moria e no texto da guia. E além disso, também descobri um bom material para a confecção de teias artificiais.

D.M.

O que eu mais gostei foi a montagem dos cenários, das fantasias dos colegas, das músicas e dos diferentes ambientes criados. Meus pais adoraram!

A.N.

Aprendi que o trabalho em equipe é necessário para realizar um bom trabalho e que nem todos os componentes da equipe envolvem-se igualmente no empenho, interesse e esforço depositados no trabalho. Também aprendemos com o livro valores como lealdade, honestidade e justiça.

W.V.

Aprendi muito sobre o trabalho em equipe. Aprendi a escutar as ideias e opiniões dos meus colegas para melhorar ainda mais o rendimento do grupo. Como sou novo na escola, isso também me ajudou a melhorar a relação com todos meus colegas.

L.M.

O que mais gostei foi me fantasiar de elfa e ter o papel de guia. Fazer a parte da dramatização foi muito legal e é uma coisa que realmente gosto de fazer.

F.P.

De uma certa forma minha criatividade foi estimulada ao extremo e também consegui desenvolver bastante o “trabalhe-com-o-que-você-tem”, porque precisávamos saber fazer com os materiais que tínhamos disponíveis.

Aprendi uma nova música para tocar no piano – a música do Condado – que é complicadinha.

Trabalhar com prazos também é algo que passou a ser visto de forma diferente. Tínhamos pouco tempo, digamo assim, e um país para construir — literalmente — para depois apresentá-lo no dia e na hora certa.

H.A.

E diversos outros exemplos riquíssimos!

Para mim, foi o maior desafio desde que virei professor e penso que a atividade foi um sucesso. Pude aplicar MUITOS dos pensamentos que desenvolvi ao longo de minha formação e ver como isso tudo realmente funciona na prática, não apenas nas folhas de planejamento.

Ensinar literatura, professor, não é apenas dar o significado das palavras, duas ou três interpretações e um apanhado histórico sobre o enredo e personagens. Ensinar Literatura é permitir que seus alunos conheçam o mundo da forma que ele é: grandioso.

Arrisque! Inove! Mude! A recompensa virá através da certeza do bem que você está fazendo para a humanidade.

1ª Mostra Literária Colégio Medianeira -- envolvendo pais e alunos no mundo da ficção by

André Augusto Gazola é formado em Letras, professor de Literatura e História da Arte, pós-graduando em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e Literatura e fundador do blog Lendo.org. É casado e mora em Bento Gonçalves-RS.

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